Dizem que se deixa o melhor para o fim, e este é, sem dúvida, o meu
quase-último.
Casa, De-Sonho!
O Rodolfo é Casa desde o início dos tempos. Juntos, nos atirámos para o
lado de cá, suámos em colombiano, corremos selva e praia, provámos frutas
estranhas. Juntos, cravámos sofás e safatectos e a quatro mãos construímos a
casa aospoucos. Desde a primeira noite entreparedes vazias às conquistas uma-a-uma - maiores
ou mais corriqueiras (o trabalho que se queria, o visto conseguido, copos novos todos iguais, a ventoinha paga a peso de ouro), todas gloriosas -, e com mais ou menos mau feitio de ambas as partes, o
Rodolfo soube ser sempre Tecto e Chão desta aventura.
O Chico começou no sofá, sem saber mais do que o meu nome. Encontrou-me no
universo cibernético nem me lembro como (mas afianço que não envolveu qualquer
site de baixo nível ou menor dignidade), e eu ofereci-lhe tecto para os primeiros safados dias. A coisa
rolou bem, rolou fácil, e durante seis meses, com ele já fora do nosso sofá,
fazia parte do nosso mundo argentino. Depois, mudou ele de Ciclo e veio cá
parar, com direito a quarto e nome no quadro das tarefas semanais. O Chico
entrou a pés juntos e com vontade, encheu a sala de conversa, os dias de disposição e a casa de bora lás.
A Mariana caiu-nos sem querer nem dar por isso. Respondeu-me em espanhol a
um anúncio em espanhol para um quarto por onde já haviam passado um par de
almas. Saiu-lhe, na resposta, que era portuguesa, e foi sorrir imediatamente,
olá, estás boa?, passa aqui! A Mariana
partilhava comigo, afinal, muito mais do que a língua-mãe e língua-pátria. A
Mariana tinha um feitio forte, a deliciosa mania dos detalhes nas paredes e um amor partilhado pelas
palavras. E veio.
Éramos todos, já.
Com feitios totalmente diferentes, entre os quatro se formou um jeito próprio,
um jeito alegre. A minha Casaberta passou a ser Casaberta de todos, com gozo. A
nossa Casa passou a ser canto e lugar dos quatro, o chegar a casa em português,
uma preguiça boa própria de não ter de pensar em duas etapas nem traduzir a
personalidade, ser, só. O cansaço sem ter de se disfarçar, os ânimos espontâneos na ponta da língua, o humor facilitado nas horas comuns em correrias
pela casa a imitar aquele tipo dos desenho animados que corria com os braços
para trás que nós víamos quando eramos miúdos,
não se lembram?
Apanhámos algumas manias de conta-histórias uns dos outros: a tempestade de
ontem não foi impressionante, foi hardcore.
Se a Metrogás nos diz que vem cá a casa três vezes e três vezes nos deixa
pendurados, não atiramos (pelo menos não imediatamente) um chorrilho de insultos
e palavrões (básicos, claro) para
cima da Metrogás, mas perguntamos se está tudo bem com a Metrogás? E a nossa casa não é divertida nem
espectacular; é De Sonho.
(e os amigos imaginários do Chico concordam,
porque nunca saem à rua)
A Casa assim vivida a quatro entre-nós, foi Casa desde o princípio, sem maiores esforços. No final do dia, longe de casa, somos Casa uns nos outros.
E por isso, o fim do Ciclo deve-se, em grande parte, ao fim Deste ciclo, com o qual quase-fecho o top10, a Santa Fe
4427 assim composta.
E não é que não voltemos todos depois do Natal, para mais um bocadinho disto. Mas aí, já
as datas e as partidas estão escritas no calendário bimestral atrás da porta
por baixo da caixa de fruta pintada, onde ainda estão penduradas as chaves de
todos.
Valham-nos, daí em diante, as mesas de café entornadas com vinho e boa disposição, esteeee, o seaaaa, viste? Está tudo bem.

1 comentario:
<3
só isto.
buenos aires só é casa-casa porque há Santa Fé 4427.
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