Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


martes, 17 de diciembre de 2013

#9 Casa De Sonho

Dizem que se deixa o melhor para o fim, e este é, sem dúvida, o meu quase-último.
Casa, De-Sonho!

O Rodolfo é Casa desde o início dos tempos. Juntos, nos atirámos para o lado de cá, suámos em colombiano, corremos selva e praia, provámos frutas estranhas. Juntos, cravámos sofás e safatectos e a quatro mãos construímos a casa aospoucos. Desde a primeira noite entreparedes vazias às conquistas uma-a-uma - maiores ou mais corriqueiras (o trabalho que se queria, o visto conseguido, copos novos todos iguais, a ventoinha paga a peso de ouro), todas gloriosas -, e com mais ou menos mau feitio de ambas as partes, o Rodolfo soube ser sempre Tecto e Chão desta aventura.

O Chico começou no sofá, sem saber mais do que o meu nome. Encontrou-me no universo cibernético nem me lembro como (mas afianço que não envolveu qualquer site de baixo nível ou menor dignidade), e eu ofereci-lhe tecto para os primeiros safados dias. A coisa rolou bem, rolou fácil, e durante seis meses, com ele já fora do nosso sofá, fazia parte do nosso mundo argentino. Depois, mudou ele de Ciclo e veio cá parar, com direito a quarto e nome no quadro das tarefas semanais. O Chico entrou a pés juntos e com vontade, encheu a sala de conversa, os dias de disposição e a casa de bora s.

A Mariana caiu-nos sem querer nem dar por isso. Respondeu-me em espanhol a um anúncio em espanhol para um quarto por onde já haviam passado um par de almas. Saiu-lhe, na resposta, que era portuguesa, e foi sorrir imediatamente, olá, estás boa?, passa aqui! A Mariana partilhava comigo, afinal, muito mais do que a língua-mãe e língua-pátria. A Mariana tinha um feitio forte, a deliciosa mania dos detalhes nas paredes e um amor partilhado pelas palavras. E veio. 

Éramos todos, já.

Com feitios totalmente diferentes, entre os quatro se formou um jeito próprio, um jeito alegre. A minha Casaberta passou a ser Casaberta de todos, com gozo. A nossa Casa passou a ser canto e lugar dos quatro, o chegar a casa em português, uma preguiça boa própria de não ter de pensar em duas etapas nem traduzir a personalidade, ser, só. O cansaço sem ter de se disfarçar, os ânimos espontâneos na ponta da língua, o humor facilitado nas horas comuns em correrias pela casa a imitar aquele tipo dos desenho animados que corria com os braços para trás que nós víamos quando eramos miúdos, não se lembram?

Apanhámos algumas manias de conta-histórias uns dos outros: a tempestade de ontem não foi impressionante, foi hardcore. Se a Metrogás nos diz que vem cá a casa três vezes e três vezes nos deixa pendurados, não atiramos (pelo menos não imediatamente) um chorrilho de insultos e palavrões (básicos, claro) para cima da Metrogás, mas perguntamos se está tudo bem com a Metrogás? E a nossa casa não é divertida nem espectacular; é De Sonho.

(e os amigos imaginários do Chico concordam, porque nunca saem à rua)

A Casa assim vivida a quatro entre-nós, foi Casa desde o princípio, sem maiores esforços. No final do dia, longe de casa, somos Casa uns nos outros. 

E por isso, o fim do Ciclo deve-se, em grande parte, ao fim Deste ciclo, com o qual quase-fecho o top10, a Santa Fe 4427 assim composta. 

E não é que não voltemos todos depois do Natal, para mais um bocadinho disto. Mas aí, já as datas e as partidas estão escritas no calendário bimestral atrás da porta por baixo da caixa de fruta pintada, onde ainda estão penduradas as chaves de todos.

Valham-nos, daí em diante, as mesas de café entornadas com vinho e boa disposição, esteeee, o seaaaa, viste? Está tudo bem.




 


1 comentario:

MaB dijo...

<3
só isto.

buenos aires só é casa-casa porque há Santa Fé 4427.