Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


sábado, 21 de marzo de 2015

(re) Introdução.

Flash. Estava em silêncio baloiçando na rede laranja-desbotada da laje do Chico com o Vidigal aos pés, que eram descalços como os ombros, o mate abandonado entre as mãos, o céu pintalgado de papagaios encarnados de papel, os trinta anos abertos em leque. (“faz o que tens a fazer”).

Flash. Estava em silêncio no elevador olhando o céu, que era espelhado e de metal blindado, e com os andares (5, 6, 7) contava também os últimos passos dos pés de saltos altos no corredor, toc toc toc, a carta de demissão firme entre os dedos, a decisão de um salto maior. (“Reis, se perguntarem por mim, digam que voei”)

Flash. Estava em silêncio no deserto chileno perdida entre o sal e a lua, a bicicleta emprestada aos pés, enfiados em botas esburacadas, o cabelo enrolado em tranças e o cigarro enrolado entre os dedos, os vinte anos abertos em leque. (os monólogos roucos sem voz com a voz despejada maior do que antes)

Flash. Estava em silêncio no último semáforo antes da curva do aeroporto, a mochila aos pés abandonados numa calma maior do que o pulso tambor, as mãos quietas repousadas no colo, a decisão de um salto maior. (“até já”).

Foram todos o mesmo momento, como um papel dobrado sobre as mesmas linhas. A minha verdade encontrada num silêncio que me é pouco próprio. O peito a abrir devagar de-rompante, sem histerias nem gritos, nem mas nem medo. O ritmo cardíaco mais lento, num vagar suspenso contemplação pulso tambor forte sem pressa, a respiração em ritmo lento como se estivesse debaixo de água, sentir com ar a entrar-me no corpo, a vida em todas as veias, e emergir.

Flash, flash, flash, e em todos respirei mais fundo e em maior silêncio, como se o céu me engolisse inteira e me cuspisse maior, como se o peito se me transformasse em cúpula.

– e voltar a desencruzilhar, escolher todas as vezes  dançar todas as cores e beber todas as danças e cantar todas as línguas e comer todos os beijos e beijar todas as musicas e escrever todas as palavras e embriagar-me de vida e luta e amor e liberdade.


Sem flash, luz natural. Vamos a jogo, voltar à superfície para buscar o ar que já faltava. Não parto; estou chegando.