Flash. Estava em silêncio no deserto chileno perdida entre o sal e a lua, a bicicleta emprestada aos pés, enfiados em botas esburacadas, o cabelo enrolado em tranças e o cigarro enrolado entre os dedos, os vinte anos abertos em leque. (os monólogos roucos sem voz com a voz despejada maior do que antes)
Flash. Estava em silêncio no último semáforo antes da curva do aeroporto, a mochila aos pés abandonados numa calma maior do que o pulso tambor, as mãos quietas repousadas no colo, a decisão de um salto maior. (“até já”).
Foram todos o mesmo momento, como um papel dobrado sobre as mesmas linhas. A minha verdade encontrada num silêncio que me é pouco próprio. O peito a abrir devagar de-rompante, sem histerias nem gritos, nem mas nem medo. O ritmo cardíaco mais lento, num vagar suspenso contemplação pulso tambor forte sem pressa, a respiração em ritmo lento como se estivesse debaixo de água, sentir com ar a entrar-me no corpo, a vida em todas as veias, e emergir.
Flash, flash, flash, e em todos respirei mais fundo e em maior silêncio, como se o céu me engolisse inteira e me cuspisse maior, como se o peito se me transformasse em cúpula.
– e voltar a desencruzilhar, escolher todas as vezes dançar todas as cores e beber todas as danças e cantar todas as línguas e comer todos os beijos e beijar todas as musicas e escrever todas as palavras e embriagar-me de vida e luta e amor e liberdade.
Sem flash, luz natural. Vamos a jogo, voltar à superfície para buscar o ar que já faltava. Não parto; estou chegando.