Em 2008, aterrei em Bogotá sob ameaça de fúria por parte das mulheres da minha família - mulheres-leoas, mulheres-generalas, comandantes dos seus barcos, fundadoras dos seus diários de bordo e zelosas dos seus grumetes. Mãe, tias e avó, todas hesitaram perante a ideia de um dos seus atirado nas selvas colombianas, terras alegadamente fecundas em raptos, droga e demais crimes de pequena e média instância.
Como elas, fui teimosa, e fui. Voltei, nessa altura, com boas novas: a Colombia e os seus receberam-me de braços abertos, mesa posta e tectos vários - dos primos dos tios dos cunhados dos amigos dos meus amigos, em qualquer vilarejo ou cidade de porte onde chegassem as amizades e os laços; quaisquer laços. Em quase trinta dias colombianos, raras foram as noites sem estadia em família e raríssimas as horas sem um café à mesa ou uma refeição "ligeira" (que, na Colombia, equivalerá a uma almoçarada alentejana).
Quase cinco anos volvidos, nada mudou: a mesa estava posta quando chegámos. Ainda as mochilas atiradas no porta-bagagens do carro, e o Juan já tinha tirado a tarde no escritório para nos convidar a almoçar; ainda as pernas se esticavam das horas de avião, e já o Rodolfo era convidado entre a espada e a parede ao casamento do meu amigo. Ainda o espanhol se entaramelava na língua enferrujada, e já tínhamos sido apresentados à família alargada da Mariann e levados a conhecer a modesta fábrica de berços, negócio da família há 18 anos. A familiaridade atirada sem pedir foi tal, que me distraí completamente de onde estava, e quando a Mariann me apresentou o empregado do fábrica, atirei-me de beijo sem hesitar - o tipo arregalou os olhos, provavelmente pensou "y esta????", e eu ainda tive fôlego para ir ao segundo (batendo, naturalmente, com o nariz contra a parede) antes de me lembrar que esta gente, ao contrário dos meus argentinos, não beija por tudo e por nada, e se bastam, em tais situaçoes, com um vigoroso bacalhau (enquanto batia com o nariz contra a parede, também percebi que a mão dele ainda estava estendida no ar, enquanto o sujeito se afastava incrédulo. Para ilustração do sucedido, imaginemos um russo chegando a casa da minha família e atirando-se, em jeito de bom dia, de beijo na boca à Olivia).
Dizia eu: as mochilas no carro, o almoço, a família, o beijo despropositado. Ainda não me havia recomposto do vexame interno, e já as chaves de casa largadas nas nossas mãos - fomos recebidos na casa dos avós da Mariann. Estamos deliciosamente instalados num quarto no sótão só para nós, onde partilhamos o sono e a luz matinal com os sete canários que amanhecem chilreando na parede ao lado, e um terraço meio caído concedendo vista sobre os emaranhados de cabos eléctricos de todo o bairro. Temos um tanque de pedra, onde podemos lavar os suores, e de manhã tomamos o pequeno-almoço em família, que não dá por lhe sermos alheios. Rolam saudades do filho Sergio, acabado de chegar emigrado para vir casar à terra, e em cada manhã há um novo familiar à mesa, que é modesta mas farta. Provam-se frutas estranhíssimas ("com poderes curativos" afiança señora Irene), com picos, com textura de lula, com nomes impronunciáveis; e bebemos café (que é "tinto" ou com leite) ao bom jeito colombiano, com água de cana de açúcar feita em casa, que se chama água de panela; e come-se caldo de carne e batata (recordo que ainda estamos a falar do pequeno-almoço), arepa com chouriço e tamal de milho e carne com itens anónimos e desconhecidos, que a mãe da casa nos vai identificando com ternura, entre gargalhadas e apetites.
Mas nem as chaves são necessárias: com o último sorvo no tinto a pontuar o primeiro pequeno-pesadíssimo-almoço, apareceu em casa um tio (bem-)disposto a levar-nos a conhecer a cidade, o que tem feito todos os dias desde então, com inesgotável paciência; em cada refeição, há também um novo programa à mesa para nós: um almoço na aldeia dos avós, a uma hora de Bogotá, uma festa de despedida de solteiros do irmão que se casa, um assado em família, tarde-noite-dentro. Temos tido sempre alguém que nos dá boleias, conversa, histórias, lendas, almoço ou dormida. E, naturalmente, café.
Temo-nos deixado levar, deliciados e sem pensar. Estamos a ser adoptados por esta Colombia-família, Colombia-casa que pensa em tudo e só nos quer em gozo. Ainda ressaco um pouco as horas, os voos e o Verão que deixei em Madrid, trocado pelos ares frios de Bogotá-a-alta. Mas para já, reconheço Colombia-casa e deixo-me acolher.