San Pedro de
Atacama, 10 de março de 2017
Gosto do movimiento,
do gesto. Da busca de lugares poços de
luz. Ir marcando em pontos-de-cruz mapas do tesouro (de tesouros) que podem ter
a dimensão de um quintal-mundo ou de um mundo que cabe num quintal vayamos lejos, vayamos cerca, vayamos a
recorrer el mundo, podemos hacerlo en ochenta dias o que sean ochenta mundos
en un solo día. Desde os meus vintes que tenho escrevinhado
mapas nos meus dias, uma década inteira, gorda-cheia de linhas além-fronteiras na procura de cores que me
expandem no peito e na imaginação as páginas dos lugares mágicos dos Marquez
e dos Amados e das Allendes que me marcaram a florescencia, e me calcaram o tal ritmo frenesim pulso tambor, parido numa familia que me nasceu e fez existir deste jeito com perfil de pés em terra vermelha e feitio de mesa cheia
tenho a sensacao de que já escrevi estas palavras, estarei citando ou me desvolvendo repetitiva, ou será isto a lucidez madura de me vir encontrando, de tal forma que me oico como um eco de mi mesma?
sem saber já se essas páginas e esse jeitinho foram
causa das minhas vontades de correr mapas
ou consequência dos meus instintos feitos
vontades.
Tive a sorte de
nascer num lugar pertencida, com amor pelas minhas esquinas. Lisboa meu mar,
meu amor, meu primeiro poço de luz, meu lugar fecundo sem necessidade de
explorar mais além, Lisboa amor podia ter sido minha plenitude sem mais mapas.
Mas o amor pelo
gesto e pelos mapas de histórias de um qualquer imaginário (causa das minhas vontades
ou instinto meu feito vontades?) levou-me à procura,
e encontrei.
Encontrei outro amor, outro lugar. Um lugar onde me encontrei mais fértil e fruito do que nunca.
Buenos Aires meu
amor, Buenos Aires Locura Capital, cujo frenesim não chocou com as minhas
raízes de Lisboa quintal e janelas sem
pudor nem me deslocou do amor por elas. Encontrei-me sozinha e mais comigo do
que nunca, inspirada pelo grito argentino, pelo caos callejero, pelo tango
soturno. Meu peito tambor ganhou novas esquinas.
Senti-me plena
distribuida entre dois pontos de luz, dois mapas entre os quais me existia
enfim inteira e sem espaços. Lisboa me escolheu e eu escolhi Buenos Aires, e
numa espécie de bizarro trio ou promiscuidade assumida, entre uma e outra
margem do mar, dois pontos-de-luz, eu não precisava de ser mais lugar, e o
movimento era agora puro prazer de explorar e descobrir, inteira eu.
E assim
neste estado inteiro onde repartir-me me multiplicou e me expandiu
cheguei um dia a este deserto perdido onde eu chamava “o outro lado dos Andes”,
e ao fim de uma semana veloz, comecei a sentir que outro ponto-cruz se ameaçava
nascer.
Correr estas ruas
com o cabelo engrossado pelo pó e os lábios partidos de sol, sentindo outra vez
como pela primeira que nao preciso de muito mais.
Sentar-me na praça
de uma aldeia de dez quarteirões e um vulcão de seis mil metros com nome de gigante,
descansar-me à sombra com o Lorenzo solto e perceber que talvez esteja a começar uma nova história de amor com um
lugar que se (pre)sente fecundo.
Imaginar um novo
ponto cruz num mapa-meu com potencial para ser tão forte e tão fértil como
Buenos Aires da minha escolha e Lisboa da minha sina.
Um novo ponto de
luz??
Sinto-me emocionada.
Pouso as botas
empoeiradas, sorvo sôfrega o fundo de mais uma garrafa, e assumo a nova
história de amor que já arrancou.
San Pedro de
Atacamna. O te ataca. O te ama.
Já volto para contar.