Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


lunes, 24 de abril de 2017

Mapas de tesouro e pontos-cruz (o fim da viagem é apenas o começo doutra)

San Pedro de Atacama, 10 de março de 2017

Gosto do movimiento, do gesto.  Da busca de lugares poços de luz. Ir marcando em pontos-de-cruz mapas do tesouro (de tesouros) que podem ter a dimensão de um quintal-mundo ou de um mundo que cabe num quintal vayamos lejos, vayamos cerca, vayamos a recorrer el mundo, podemos hacerlo en ochenta dias o que sean ochenta mundos en un solo día. Desde os meus vintes que tenho escrevinhado mapas nos meus dias, uma década inteira, gorda-cheia de linhas além-fronteiras na procura de cores que me expandem no peito e na imaginação as páginas dos lugares mágicos dos Marquez e dos Amados e das Allendes que me marcaram a florescencia, e me calcaram o tal ritmo frenesim pulso tambor, parido numa familia que me nasceu e fez existir deste jeito com perfil de pés em terra vermelha e feitio de mesa cheia
tenho a sensacao de que já escrevi estas palavras, estarei citando ou me desvolvendo repetitiva, ou será isto a lucidez madura de me vir encontrando, de tal forma que me oico como um eco de mi mesma?
sem saber já se essas páginas e esse jeitinho foram causa das minhas vontades de correr mapas 
ou consequência dos meus instintos feitos vontades.

Tive a sorte de nascer num lugar pertencida, com amor pelas minhas esquinas. Lisboa meu mar, meu amor, meu primeiro poço de luz, meu lugar fecundo sem necessidade de explorar mais além, Lisboa amor podia ter sido minha plenitude sem mais mapas.

Mas o amor pelo gesto e pelos mapas de histórias de um qualquer imaginário (causa das minhas vontades ou instinto meu feito vontades?) levou-me à procura,

e encontrei.
Encontrei outro amor, outro lugar. Um lugar onde me encontrei mais fértil e fruito do que nunca.
Buenos Aires meu amor, Buenos Aires Locura Capital, cujo frenesim não chocou com as minhas raízes  de Lisboa quintal e janelas sem pudor nem me deslocou do amor por elas. Encontrei-me sozinha e mais comigo do que nunca, inspirada pelo grito argentino, pelo caos callejero, pelo tango soturno. Meu peito tambor ganhou novas esquinas.

Senti-me plena distribuida entre dois pontos de luz, dois mapas entre os quais me existia enfim inteira e sem espaços. Lisboa me escolheu e eu escolhi Buenos Aires, e numa espécie de bizarro trio ou promiscuidade assumida, entre uma e outra margem do mar, dois pontos-de-luz, eu não precisava de ser mais lugar, e o movimento era agora puro prazer de explorar e descobrir, inteira eu.

E assim 

neste estado inteiro onde repartir-me me multiplicou e me expandiu 
cheguei um dia a este deserto perdido onde eu chamava “o outro lado dos Andes”, e ao fim de uma semana veloz, comecei a sentir que outro ponto-cruz se ameaçava nascer.

Correr estas ruas com o cabelo engrossado pelo pó e os lábios partidos de sol, sentindo outra vez como pela primeira que nao preciso de muito mais.
Sentar-me na praça de uma aldeia de dez quarteirões e um vulcão de seis mil metros com nome de gigante, descansar-me à sombra com o Lorenzo solto e perceber que talvez esteja  a começar uma nova história de amor com um lugar que se (pre)sente fecundo.
Imaginar um novo ponto cruz num mapa-meu com potencial para ser tão forte e tão fértil como Buenos Aires da minha escolha e Lisboa da minha sina.

Um novo ponto de luz??

Sinto-me emocionada.
Pouso as botas empoeiradas, sorvo sôfrega o fundo de mais uma garrafa, e assumo a nova história de amor que já arrancou.
San Pedro de Atacamna. O te ataca. O te ama.

Já volto para contar.