Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


viernes, 14 de diciembre de 2012

Lar, doce quase-lar




Não não, não perdi o amor à palavra ou à aventura, e tampoco fechei esta porta que é janela dos meus dias. Mas os meus dias são ainda de emigrante em processo de instalação, que emigrar-é-duro e leva o seu tempo, e a internet é um bem precioso e não escasso mas os generosos cafés não dão esteira (nem suficientes megas) ao relatos, que se querem espontâneos e sem tempos.

Comecemos pelos recentes passos: mergulhámos de cabeça no pesadelo imobiliário do busca-casa, faz-as-contas, dá?, assina-contrato, entrega-chave, dorme-no-chão, contrata-água, contrata-luz, contrata-internet, só-daqui-a-três-semanas-señora, para falar com um assistente tecla 5, identificação argentina señora, a sua chamada encontra-se em lista de espera, mas eu sou portuguesa señor, e nos entretantos foi armar pés de vento e pés de guerra (pois parece que ultimamente se têm armado muitos. heh. já lá iremos.) com o canalizador que-diz-que-vem-mas-não-vem (e eu com torneiras a pingar), com o serralheiro que-diz-que-liga-mas-não-liga (e eu com a janela sem fechar) e com várias companhias de internet que dizem que instalam-mas-não-instalam - e eu sem mundo, señor!
Saímos  f i n a l m e n t e  do outro lado do Limbo, nesta bonita data de 12.12.12 (que deste lado, à hora da edição, ainda eram dez da noite, é fazer as contas para o devido fuso), com casa *gritos de aleluia* semi-montada, e uma recém-estreada rede de internet wi-fi que emite cânticos de glória por todo lar! Saudades, mundo!

Verdade-seja dita (o processo de emigração é, com efeito, vagaroso), esta é A vitória do mês. Continuo sem papéis e demais carências, o Rodolfo viu a busca laboral interrompida pelo Verão que se instalou e  as minha manhãs continuam a amanhecer com a dificuldade "e-o-que-raio-visto-no-meio-de-tanta-roupa-de-viagem-para-simular-um-ar-civilizado??". 



Mas vejo a vida a acontecer aos poucos, que é 
como-quem-diz, 
temos dedicado o tempo livre a actividades de bricolage e carpintaria, e pintamos tudo o que esteja ao nossalcance que possa ser pintado (cfr. ex. da fig. 2: varão do duche. Mas quem é que vai reparar na cor do varão do duche????): as caixas de fruta de madeira-suja vão-se transformando em mesinhas ou banquetas de madeirantiga, as camas compradas em pechincha para os quartos dos inquilininvasores vão ganhando personalidade nas tintas de água que as completam, num estilo muito el caminito, o frigorifico emprestado dos anos 80 repousa encarnado-sangue-de-boi (boi???) ao fim de muitas horas de desespero, os quartos têm tomadas. À vida da casa, as cadeiras emprestadas-desemparelhadas dão o jeito, temos 6 pratos e 5 copos, duas panelas de fraca figura, uma faca que faz as vezes de tudo, incluindo chave-de-fendas, e um colchão vagabundo que faz as vezes de sofá (disfarçado com uma belíssima manta boliviana para a simulação de um estilo muy conveniente e fashionable: rústicohippy-chic), o que nos vai permitindo fazer uma modesta e humilde vida social - que o Rodolfo e o Vasco cozinhem maravilhosamente também servido de isco aos sujeitos-alvo, contribuindo de forma promissora ao  desenvolvimento da referida vida social sediada no novo lar-doce-lar.














a vida da Cidade, que o Verão se atirou de cabeça e aquece as ruas e os suores. Sim!, Buenos Aires amanhece cada vez mais cedo e anoitece cada dia mais tarde, os sábados são de sol e os pés saiem à rua de chinelos, como os ombros que descalços vão. Os suores correm costas abaixo, as janelas não fecham há semanas - estado de coisas apenas interrompido pela tempestade tropical que varreu a cidade e obrigou a fechar ventanales durante a fúria dos deuses.
Continua a ser estranho reconhecer (?) nas montras, nas rotinas e na porta da vizinha da frente um Natal a 40 graus de temperatura, mas é bom acordar com luz e sem lençol, preguiçar nos parques de Palermo, e jantar de janela aberta e abanico na mão. 


Assim vamos indo: com um salário no bolso e os dias mais livres (essa é outra história, que brevemente vos contarei. sofrei, sofrei com o suspense, muahaha), dedico-me, pois, a gozar a casa, o verão e a Cidade (pinta mesa, compra cama, uma manta ali e um pano aqui, faltam panelas, faltam copos, faltam pratos e somos 5 ao jantar, faz as contas e compra mais um, que para o mês que vem compramos dois, falta vir o canalizador e o serralheiro, mas o homem da internet já por cá passou

Preparo-me também a mim para a visita à terra-Mãe e terra-Casa, que o Natal é tempo de família e as injecções estão a chegar ao fim e é tempo de ir renovar o stock. 

E claro: continuam a divertir-me os dias o sotaque argentino (che, boluda!, hace un calor del orto o no!), o totoloto dos dias de verão com os dias de dilúvio, os programas pontuais de uma cidade em constante estado de diarreia cultural (poucos, que o futuro é incerto e os pesos são contados) e a pergunta en serio que no sos argentina?? (ok, ok, eu me confesso: como se me abre o sorridorgulho, que tonta feliz!), e com isso se me alegra a vida, no espera-nãoespera, no vai-nãovai, no liga-nãoliga.





Para já, tenho casa e internet e sou, por isso, uma emigrante feliz!



Ps: formatação *#%/# del orrrrto!!!

viernes, 9 de noviembre de 2012

Uno se da cuenta (das coordenadas)

Uno se da cuenta que está nos "trópicos", quando:

(i) na quinta-feira está semi-desmaiado junto de duas ventoinhas em alta potência e abanando-se com revistas porno, pingando suores e derretendo humores; e

(ii) na sexta-feira tem de mergulhar na água da chuva até aos joelhos para poder atravessar a rua e chegar ao trabalho (onde a mandam para a cozinha porque parece saída do mar e não está apresentável).

miércoles, 7 de noviembre de 2012

Emigrante Espera (e não tem tido tempo para escrever porque trabalha 9 horas por dia)

Emigração.
Estado de espírito, de sítio e de necessidade, onde falta é a palavra de ordem.
Falta de papéis, de trabalho, de dinheiro, de casa, de Casa.
das esquinas e das calçadas,
dos cafés e 
dos costumes e dos miradouros
da minha Lisboa-quintal
Que o trabalho não sai sem papéis, e os papéis não se dão sem trabalho, e a casa não se paga sem o primeiro, e a Casa não se funda sem nenhum dos anteriores.
Uno se siente em estado hipotérmico e vai-não-vai. Já podemos? Não? Esperamos. 
O email, a chamada, o correio, o contacto, 
o prazo, o papel.
É isso mesmo. Temos esperado e isto resume mais ou menos as últimas semanas - que Buenos Aires é emoção e aventura, mas todemigração parte da espera e da fundação; que é como quem diz, da tortuosa passagem do estado desempregadodesalojadodespapelado e semi-teso. 
Mas apesar da expectativa, da espera que o alarme toque e que a vida comece, não nos podemos queixar: a Cidade é generosa. Os amigos dos amigos ajudam-nos com mãos, ideias e tectos - o chão dos primeiros dias, o colchão dos seguintes, a companhia na papelada, os contactos repescados, te lo averiguo, te quedás en mi casa, te acompaño a Migraciones, te hago circular el cv, te llamo.
Pouco a pouco, o bule vai vertendo. A espera vai ganhando forma. 
Ao fim de um quase-mês porteño, o Rodolfo tem um fato, três pares de meias extra, camisa-gravata-cinto, uma entrevista bem-sucedida, um certificado de antecedentes penais e um turno nas Migraciones - e, para meu inchadorgulho, uma crescente tendência para transformar os ll's em ch's, enquanto lhe salta um e outro 'che' boca-fora.
Ao fim de um quase-mês porteño, eu tenho duas t-shirts apresentáveis e uma camisa, três conferências da Uba, duas experiências laborais no sector da cafetaria e restauração (já que estamos em contas, apenas uma chávena partida, e não foi mea culpa. ok, talvez um bocadinho. mas não foi grave.) e uma modesto-satisfatória soma em gorjetas.
Ao fim destes argentinos dias, o batalhão emigrado tem ainda um maté de couro, um colchão e um apartamento reservado, barato e bem localizado, com um quarto extra para alugar a estrangeiro, reduzindo a renda e permitindo-nos a sobrevivencia, e um outro sobrante que será dedicado a visitas, amigos, emigrantes, viajantes e demais almas (vinde, vinde!, mas trazei colchão, que não haverá dinheiro para feng shuis). 
Pois é: nos entretantos e na espera, ocupo o meu dia de avental de chita num cafezinho simpático de Palermo (constato que que tenho muita saída e - ao contrário dos agoiros e maus presságios de muitos - jeitinho no dito sector de cafetaria e restauração, o que me faz repensar as minhas escolhas académicas e profissionais até-agora tomadas): sou a melhor amiga dos clientes, duplico um miserável salário em gorjetas (só esta semana já ganhei quase metade do mês em ditas) e, apesar de trabalhar nove cadelas horas com míseros 40 minutos pausados, gosto da esplanada e do brunchs e da pinta do lugar, de estar entretida na espera e na falta (dos papéis, do trabalho, da casa, da Casa). 
A primavera vai-se transformando em infernal verão, com 35 pesados graus e noites acordadas às 6 da manhã com o cabelo a fazer calor nas orelhas. As esplanadas enchem-se e o maté começa a ser insuportável. São onze da noite, e estou derretida de calor, janela-aberta, pés-no-chão, ventoinha no máximo.
E por isso, meus caros, vou para a varanda - que está aberta - comer um bom-bife. Enquanto espero.

lunes, 22 de octubre de 2012

Uno se da cuenta (de las Equivocaciones)

Uno se da cuenta de que está na área errada quando ao fim de 6 dias percebe que, se já tivesse papéis, estaria trabalhando em 6 restaurantes ou bares de renome e boa propina.

Parece que, no mundo da restauração e do avental, sou um charme.

Damn it!

Uno se da cuenta (Das Certezas)

Uno se da cuenta de que está no sítio certo quando o plano de conferências de uma semana comum na Facultad de Derecho da UBA é o seguinte:

Jueves 18 de octubre de 2012 a las 18.30 hs. en el Salón Rojo, Facultad de Derecho (UBA)
Jan Sokol "¿Son naturales los derechos humanos?"
Jan Sokol es uno de los “Padres Fundadores” de la República Checa. Fue uno de los primeros firmantes de la Carta 77 –que solicitó al gobierno el cumplimiento de la Declaración Universal de Derechos Humanos– e integró el grupo redactor de la Constitución Nacional al regreso a la democracia. Fue Vicepresidente de la Asamblea Nacional, Diputado, Ministro de Educación, Titular de la Delegación Permanente al Consejo de Europa y candidato a Presidente por el Partido Social Demócrata de Vaclav Havel y Thomas Masaryk.
Si bien de joven no se le permitió estudiar, Sokol obtuvo dos doctorados en filosofía sistemática – uno en 1993 y otro en 1996. En 2000 fue designado Profesor Titular de Filosofía y Antropología Filosófica y Decano de la Facultad de Humanidades de la Universidad Carolina de Praga, cargos que ejerció hasta 2007. En 2008 fue nombrado Senior Fellow en el Centro de Estudios sobre las Religiones en el Mundo de la Universidad de Harvard, donde dictó clases sobre religión, ética y derechos humanos.
La conferencia se realizará en inglés, con traducción simultánea.
No se requiere inscripción previa. Entrada libre y gratuita.

Viernes 19 de octubre de 2012 a las 19 hs. en el Salón Azul, Facultad de Derecho (UBA)
Misael Tirado "Reclutamiento de niños, niñas y adolescentes en el conflicto armado en Colombia (una visión socio-jurídica)"
Dr. Misael Tirado Acero: Sociólogo (Universidad Nacional de Colombia); Doctor en Sociología Jurídica e Instituciones Políticas (Universidad Externado de Colombia); Profesor y Director del Centro de Investigaciones de la Universidad Santo Tomás (Bogotá, Colombia); Consultor de la Presidencia de la República de Colombia y de las Naciones Unidas.
No se requiere inscripción previa. Entrada libre y gratuita.


Lunes 22 de octubre de 2012 a las 18.30 hs. en el Salón Rojo, Facultad de Derecho (UBA)
"Trata de personas: esclavitud en el siglo XXI"
Disertaciones y expositores:
La Trata de Personas como una forma de esclavitud: Mercedes Assorati (Esclavitud 0)
Trata Laboral en Argentina: Dr. Mario Ganora (Defensoría del Pueblo de la Ciudad de Buenos Aires)
La Trata como un problema de Género: Dra. Laura Balart (a confirmar) (Oficina de la Mujer de la Corte Suprema de Justicia de la Nación)
La Situación de la Trata en Argentina: Dr. Marcelo Colombo (UFASE - Unidad Fiscal Asistencia en Secuestros Extorsivos y Trata de Personas)
Entrada Libre y Gratuita

Jueves 1 de noviembre, a las 18 hs., en el Salón Rojo de la Facultad de Derecho (UBA)
Conferencia Magistral - “Algunas libertades civiles que he conocido”
Norman Dorsen (Frederick I. and Grace A. Stokes Professor of Law, NYU)Norman Dorsen es profesor de derecho constitucional en la New York University. En 1954, Dorsen formó parte del equipo jurídico del Ejército de Estados Unidos que se enfrentó con el Senador Joseph McCarthy en una serie de históricas audiencias televisadas. Entre 1969 y 1976 fue asesor jurídico de la American Civil Liberties Union (ACLU), y como tal, argumentó una serie de casos emblemáticos ante la Corte Suprema de los Estados Unidos – entre ellos, Gault (debido proceso de menores), Levy (igualdad de hijos extramatrimoniales) y Vuitch (aborto). En 1976 fue designado presidente de ACLU, cargo que ejerció hasta 1991.
La conferencia se realizará en inglés, con traducción simultánea.
Entrada Libre y Gratuita

Martes 17 de octubre, a las 12h, en el living de la casa de Tomas, en Palermo
"Buscás trabajo de abogado? Hay mucho, pero de ultima, mientras no encontrás, buscate algo en derechos humanos, es lo que más hay."

Um ponto para a Catarina.

miércoles, 17 de octubre de 2012

Emigrantes

Não sei como contar o que vos passarei a comunicar...  
O Rodolfo disse-me, uma manhã; acho que temos de ir andando, e eu não posso negar certos espasmos histérico-ansiosos - mas já?mas como?mas de certeza? O peito saltou, o sangue ferveu, borboletas-como-dinossauros-em-ácidos no estômago. 
Escusava de me explicar, que os processos de recrutamento espreitavam já, que no verão não ia acontecer nada e que a emigração, dado assente, deveria ser encarada.

Ai ai ai ai ai, pensei eu em calças rotas e t-shirt de publicidade XL recortada em coisa maneirinha, o turbante na cabeça e uma pinta muito pouco civilizada para habitar cidade em modo sem-mochila!

A coisa já fervilhava e nos esperava e nos chamava. A coisa virou sereia urgente, e com urgências nos foi atirando iscos. A coisa estava aí.

E antecipámos a coisa.
Arrumámos a mochilas, contámos os pares de meias (eu tenho 3, e tu?), comprámos uns jeans de fraca qualidade e a bom preço para compor a figura, e fomos. A BUENOS AIRES, dios mio!

Caros: cheguei a Buenos Aires dia 11 de Outubro (nem de propósito!), a umas seis de manhã amanhecida com sol e mediaslunas. 
E ai!, por mais que me saibam, não se imagina a luz da minha cara! Nem a morada errada que levava da Paula, nem o facto de, entrenervos, lhe ter dito que chegava na sexta e não na quinta, nem nada, nada; o estado ansiolítico rapidamente se tornou em alma, vontade, sorriso pateta mirando la ciudad acabada de acordar. 

AQUI ESTOU. Para o que vier, retorno a esta maravilhosa cidade, para a viver e a gozar com mais tempo, mais calma, mais ânimo. Mais saudades de Casa, também, e por isso mesmo, mais certeza de que  vim bater a uma porta certa - pois se ainda assim, aqui quero estar.

Emigrantes, oficialmente.
Acho que acabei de desmaiar de nervoseuforia.

jueves, 11 de octubre de 2012

Era uma vez a Colombia

Há história difíceis de contar, e a da Colombia é uma delas.
A Colombia (minha Tierra querida) é mãe de um povo que amo, povo-família, povo-casa, senhor de uma amabilidade inigualável e gentileza sem fim, a la orden, que le vaya bien, como amaneció?, muy gentil, para servirle, senhora?, que dios la bendiga.
Dentro desse povo está a boa alma de um Amigo que me dedicou uma amizade e uma ternura sem limites nem compreensão, parida em jeito precoce com poucos meses de gestação, e aquecida à distância com mais pensamentos que palavras, mais rezas que conversas e mais coração que café.
Dentro deste povo estão as almas de todos os membros desta família-casa, de todas as famílias-casas, a avó que nos responde ao milésimo gracias do dia com um apaziguador tranquiiiiila encolhido nos ombros, a diana que põe a cafeteira ao lume assim que nos ouve os passos matinais no andar de cima, a família bravo-pacheco que abre espaço à mesa de qualquer-hora, o alejandro que nos acompanha todas as ruas e todas as conversas, os jantares de família que nos acolhem sem timidez, a mãe do juan que me cumprimenta e não me larga a mão, si se acorda de mi?, a mãe da mariann que me deseja várias vezes a cura e que me olha como se mergulhasse em mim adentro, os irmãos, os primos, os tios, os amigos, de um lado, do outro, às avessas.
Dentro deste povo estão todas as almas anónimas que se adentram na viagem de uno. Não pude completar uma viagem de autocarro, barco, lancha, canoa, pés, sem conversa puxada pelo ser do lado, pergunta, curiosidade, en serio?, interesse; e há uma certa inocência na facilidade com que soltam as indagações interiores em voz alta, sem timidezes nem falsos pudores.
Mas em todas estas almas, também reconheço outras histórias, partes daquela História que é demasiado complicada. É que dentro deste povo, também há uma história difícil, convivida a diário e em modo actual, mostrada nos jornais, nos testemunhos, nas primeiras e mais óbvias perguntas estrangeiras. 
A violência da história colombiana - do narcotráfico, das guerrilhas, dos grupos paramilitares, do exército, das tentativas de pacificação mais violentas que o próprio soneto - é devastadora por dentro e perseguida com o olhar por fora, e marca como sangue pisado a alma do povo querido.
Bastaria contar a história da Luisa, colombiana emigrada aos states (como mil outros peregrinos do american dream, de que os próprios irmão da mariann são exemplo) e regressada à terra-mãe, que teve de mudar de distrito para que a filha - que falava inglês nativo e chamava a atenção - não fosse recrutada à força pelos paramilitares, como uma boa aquisição; as amigas da Luisa disseram-lhe, um dia: "Luisa, mejor que se vaya". E a Luisa foi.
Bastaria contar a história do guerrero de dios, velhinho terno e encarnecido que conheci numa hospedagem familiar em Cartagena, de faces tatuadas com manchas azuis de prisão e discurso meigo e empático, mais tarde confessado paranóico e vigilante, dados os 18 anos de comando superior de um grupo de paramilitares (YO apazigué Cartagena), de uma vida vivida na selva (no puedo dormir en la cama, me duermo en el suelo, qual patriarca do marquez), e de 12 anos de prisão por massacre (massacre, dito sem expressão); o mesmo velho senhor que tinha ataques de ansiedade e suores frios de quando em quando, e que me abraçou na despedida e me desejou mil graças com as mãos apertadas.
Em Cartagena, vimos três exposições de crudíssima fotografia sobre os refugiados internos e sobre as aldeias sobreviventes sob ameaça múltipla. Nos jornais, todos os dias correm a tinta as notícias sobre os quase-acordos de paz, o quase-fim, as quase-negociações. Nos tribunais, começaram a ser reivindicadas as devoluções dos terrenos expropriados pelos grupos armados nos últimos muitos-anos.
O problema ainda existe? Claro que sim (e posso dizer isto agora, sã e salva das leoas da familia).

Mas continua a não ser essa a história que quero contar. A Colombia é, acima de tudo, família, casa, pão, amor. É uma terra amável para os que lhe são estranhos, que os recebe e os acolhe à mesa, com humildade, com curiosidade, com humanidade. É uma terra onde se dança a dois, e onde se ensina a dançar quem troca os pés, um lugar que conjuga no mesmo espaço a selva amazónica, os picos nevados, as terras coloniais, as cidades-metálicas, o caribe e a montanha; os pretos, os brancos, os assim-assim, os índios, os mestiços, os retintos e os indistintos. A Colombia é surpreendente, mesmo da segunda vez.

Saio da Colombia - sim, sim, saio da Colombia (para onde?, já verão) - como sempre, a custo. Cheia de amor e de respeito e de admiração por esta tierra querida e por este povo extraordinário.
A história complicada, a seu tempo, se resolverá. Assim espero.

El riesgo es que te quieras quedar.
(video oficial)

jueves, 4 de octubre de 2012

Cartagena a Magnífica

Cartagena de Indias.
Depois de uma aventura (pouco) gozada no veleiro, encostámos amarras no cais clandestino de um bairro de lata e zinco, e apanhámos uma lancha até à Cidade: depois de muitas horas em estado de semi-desidratação (que a água também se vomita, descobriram alguns) e pele estufada, mais uma estupidez de voa-saltos que nos deixou, por fim, na praia suja de Boca Grande, encharcados até aos ossos, gargalhando nossas caricatas figuras. Espremidos e retorcidos, a segunda ironia da tarde chegada foi perceber que os pés em terra firme, ao fim de dois dias em dança-balança, também enjoam. Várias horas passariam até que pudéssemos recuperar a estabilidade própria da alma e do ânimo.

Cartagena de Indias. Continua extraordinária. Exótica, caprichosa, decadente, magnífica.
Lembro-me de ter lido há uns anos qualquer coisa sobre o sexo das cidades, e de como a sua arquitectura, as suas linhas e a cadência nelas gerada, as definiam como cidades masculinas, viris, energéticas ou femininas, sensuais, misteriosas. Não me lembro do caminho teórico, mas Cartagena é, definitivamente, uma mulher de botero: exuberante e debochada.
A cidade amuralhada repousa lad'a'lado com a zona moderna, em irrepetível exagero e harmonia - como dois tons estridentes que se condizem, duas notas altas de uma ópera flamejante. As pedras e as madeiras envelhecidas, os tectos dos palácios coloniais e dos casões senhoriais, as palmeiras maduríssimas, as flores estridentes, a torre do relógio, batem certo em todos os tons da extravagante miami que os sublinha, ao fundo. Em comum, o tom de decadência e da sumptuosidade, de ostentação e de exotismo: assim cheira Cartagena, tal como me lembrava dela.
Entre-muralhas, as ruas são estreitas mas sólidas, as casas majestosas, as varandas imponentes, e delas continuam a cair em chuva as mesmas flores garridas. As portas altas de madeira trabalhada continuam abertas - porque Cartagena é quente todos os dias e todas as noites - e as gigantes ventoinhas continuam girando nos tectos, que são de não menos de quatro metros, altíssimos e frescos. Os cafés mais populares dão portas abertas para duas ruas, e parecem frescas arcadas, mas têm tecto e têm portadas que se encostam, encaloradas, nas paredes dos almoços que ali se servem, a mesma carne com arroz e feijão de sempre.
As paredes da cidade amuralhada são garridas e bem pintadas - amarelos torrados, vermelhos de sangue, azuis fortes, como as calças de algodão do suado homem cor-de-azul - preto pretíssimo - que dança frenético na Plaza de San Domingo; os arranha-céus de Boca Grande são brancos e envidraçados, harmónicos ao jeito calatrava, como combinados dominós jogados no tabuleiro. 
Dormimos numa casa velha, de cozinha antiga e varanda em ruínas, com os cotovelos na rua e um fantasma regular, alma perdida de uma dama antiga que gosta de passear pela tijoleira partida e buscar companhia na casa que em tempos habitou. Diz-se também que as paredes escondem mapas e ouros, escondidos aos piratas que se abordavam no horizonte, e que, mortas as familias, os piratas fugiam ao mar, e as paredes ficavam para trás, recheadas de história e de incógnitas.
A cidade resulta fantasiosa, boémia e extrovertida, e passear-lhe as ruas continua a saber bem aos pés e ao apetite, e nas esquinas vendem-se livros velhos e sumos de guanabana e zapote e lulo. E depois os cafés, as boutiques, as frutarias, as padarias, e as pretas na rua a venderem talhadas de manga e papaia  melancia, tudo cheira a decadente e tudo é exótico e tudo é calor, as pessoas vestem-se de branco e de cores e soltam suspiros e cantigas pelos rincones.
Descrever Cartagena é roubar-lhe em palavras aquilo que a cidade-mulher (mulher voluptuosa, descarada, majestosa) mostra, toda-oferecida, em sentido, cadência, compasso.






Vivos e de saúde

Para descanso das almas.
(sim, sim, também estamos pretos que dói)



viernes, 28 de septiembre de 2012

Cabo das tormentas

Não havia dúvidas: era ir!
Depois de quinze dias divididos entre as vilas de café plantadas nas três caudas colombianas dos Andes, e as vilas de peixe debruçadas na beira-mar do Darién, o passo seguinte pousaria na magnífica e decadente Cartagena de Indias, que eu ansiava repisar. As voltas por terra eram longas, os transportes careiros, e a oportunidade surgiu: cruzar o mar desde Sapzurro e entrar na cidade em veleiro? Quarenta horas de mar-alto? Antes fossem quatro dias, e melhor seria. A ideia pareceu-nos ousada, romântica e original, e comprou-nos de imediato.
Reforçámos o carregamento de arroz, cenouras e água, e esperámos que Lucho, el Capitán, desse o aviso de partida, lido no céu e nas tempestades de véspera.
Lucho, el capitán, carinhosamente baptizado Capitán Catalán, é um catalão de 50 anos, estatura quixótica, pele curtida pelo vento e veias engrossadas pelo sal que lhe entrou sangue adentro.  Abandonou a pátria e a aborrecida profissão de fotógrafo (pausa para suspirar), e, depois de uns anos em voltas dadas em cargueiros de pesca de bacalhau nos mares do norte, comprou um pequeno veleiro azul, que baptizou de Kawama (que diz que é uma espécie de tartaruga) e veio dar voltas para mares mais quentes. Para sobreviver, leva turistas de Cartagena a San Blas, no Panamá, e para viver, faz travessias atlanticas que lhe agitam o peito e lhe deixam histórias. Dono de um discurso ébrio e desarrumado - por personalidade e pelos oito charros diários que fuma -, Lucho ganha uma surpreendente lucidez quando avalia a tempestade que ainda nao acalmou ou faz as contas à agua necessária para cinco grumetes e 40 horas.
Chicos, que mañana nos vamos, ciciou o capitan, ao fim de quatro esperados dias.
Lá partimos, os cinco bravos (nós, dois urugaios e uma sueca-romena) e o seu capitao, cheios de vontade no peito e luz nos olhos.
Dois dias num veleiro? Uma aventura!
Ver o céu em alto mar? Magnífico!!
Chegar a Cartagena de Indias, junto à torre do relógio, de barco e com o vento?? Irrepetível!!!
E irrepetível foi, como vos passarei a contar.
Nos primeiros vinte minutos de viagem, pressentimos o enjoo - mas pensamos, já já nos habituamos ao embalo do mar.
Ora!
O vento não movia um cabelo e o veleiro não velejava nem cortava as ondas, mas se limitava a seguir o passo lento do mar e de um motor ligado em primeira velocidade - sobe a onda, desce a onda, sobe a onda, desce a onda, eu via a proa a subir e descer num vagaroso e enjoativo compasso, e com ele todos os meus orgãos a flutuar. Olhar o mar revoltava o estomago, fixar o barco revirava a cabeca, fitar o chão era chamada ao vómito a pés juntos. Os cinco entusiastas que subiram a embarcação em sorrido alvoroço correspondiam aos cinco cadáveres calados que tentavam concentrar-se num ponto fixo no horizonte, cada no seu e entregue à missão individual de minimizar o enjoo do barco, suores frios, expressão ausente, só o capitao cantarolava, entre charro e anedota - o cheiro adocicado dos primeiros piorava fortemente o enjoo generalizado, e as segundas ja nao eram ouvidas ou respondidas. Uma divertida miséria! Três vómitos depois (nenhum meu, faço notar, embora não me possa gabar de grande rigidez de disposição), o sol a pique, os corpos amontoados junto ao mastro para partilha de sombra, o nosso estado dava vontade de rir a quaisquer deuses - coisa que de vez em quando acontecia, se cruzávamos os olhares e nos consolávamos: so faltam 30 horas, gargalhada, sarcasmo. Estávamos qual anedota de náufragos!
Cozinhar?, qual quê!, que a cabine triplicava o enjoo, como caixa de fósforos em movimento, e entrar  nela era (como o comprovaram dois anónimos) vómito-certo!, mas também não importava, que a comida não era benvinda aos delicados corpos descompostos, e só o capitão continuava a enfardar, dada a fome dado o charro (e já lá iam dez).
Uma trágico-comédia!
Avistámos, enfim, Cartagena, como uma miragem no deserto, rindo de alegria e das nossas figuras - dois dias no mar, e nós feitos farrapos humanos!

Ainda assim, nem tudo foi apocalíptico: no meio do flagelo marítimo, vimos cardumes de peixes voadores sobrevoando o mar, que são como borboletas gigantes com escamas, e houve espectáculos de saltos de atum; e houve um momento, um momento breve, em que apareceram golfinhos junto ao barco, e, exibicionistas como só os golfinhos e os homens são, se encostaram à proa, o Lucho gritava-nos, assobiem que se deixam provocar, e nós assobiávamos (bom, eu não, que não consigo nem chamar um cão velho), e eles saltavam mais e davam piruetas, e nadavam junto à proa, em corrida connosco. Nesses brevíssimos minutos, perdemos a descomposição, corremos à proa, assobiámos, rimos, parecíamos miúdos, nós e os golfinhos, infantis, brincalhões, efusivos.

Valeu a pena passar o cabo das enjoadas tormentas para ver golfinhos a saltar? Talvez.
Valeu a pena, certamente, para saber que o não voltarei a fazer.
Vale certamente a pena poder olhar para trás, depois das horas de horror, e rever-nos a entrar no barco de cabeça erguida e corações ao alto. Pobres nós!

miércoles, 26 de septiembre de 2012

Capurganando

Sem rodeios: o caribe é delicioso. As praias até poderiam não impressionar quem tem portinhos na arrábida, caparicas na costa e arrifanas a estibordo; mas impressionam barbaramente. E ainda assim (um abraço, jovem momo), o jeitinho caribeño repousa mais na ginga das suas vozes que na cor do seu mar, que despe os fundos e os peixes à transparência e sem pudor algum.
Capurgá e Sapzurro são dois vilarejos muito caribeños. Aparecem de repente na curva do quase-panamá, salpicando a costa, e parecem ter sido fundados à mão e do avesso, a partir do mar, porque estão em bicos dos pés à beira-mar, empurrados e rodeados por densa selva onde barco não aporta e alma não sai, porque aí está o início do Darién, o impenetrável. O buraco de Darién (ou, dito com mais credibilidae, o Darién Gap) cai aí, enquanto não acaba a Colombia e não começa o Panamá, como barreira natural entre o sul e o centro da américa, e a própria gigante Panamericana (que corre caminho da Patagónia ao Alaska) se interrompe perante ele, selva maciça, buraco-negro e terra-de-ninguém, alto e pára o baile, apenas retomando a rota do outro lado, já no Panamá. A única forma de, pé aqui, pé ali, à beirinha d'água e nas pontinhas dos dedos, nos irmos encostando ao norte colombiano e passarmos ao Panamá sem nos atirarmos de corpo à água é indo de lancha em canoa e canoa em barqueta por estes pontinhos de vida, entre parêntesis da selva de Darién - única razão, aliás, pela qual Capurganá e Sapzurro constam do mapa - de alguns mapas. A viagem desde Turbo parece dirigida a terra de aquém, além e nenhum-mar, e o próprio Darién salta mar-adentro e emerge num ou outro ilhéu a pique, densíssimo também. Dir-se-ia que nos adentramos em terra de jurassik park.
Na curva, espreitam as raríssimas vilas de calças arregaçadas, aglomerados de poucas casas e muitas famílias. As casas são de madeira velha e desbotada - da mesma madeira dos barcos -, como os seus cais e o pouco mais. Estão perdidas do mundo, atiradas naqueles recantos irrelembrados, mas cheiram a caribe-puro: têm boas cores (com muitas demãos) e bom peixe, ressoam as conversas dos alpendres, o mar é transparente, e a praia acaba em cocos e selva e não dunas. Os cavalos e as carroças são poucos e cruzam a praia onde esticamos as pernas, e os únicos fatos-de-banho existentes são os nossos, porque quem tem calor se atira ao mar como saiu de casa, e dele assim sai e seca.
Só se destacam as fardas camufladas: pela sua localização, Capurganá e Sapzurro têm quartéis e seus destacamentos militares, e a presença de soldados nas ruas, nos cafés, na praia, na tasca a ver Colombia jogar ou no cais a fumar um cigarro com os pescadores locais, é tão natural como a dos caranguejos na praia ou dos sapos nas esquinas das ruas e das casas - que os tráficos, as máfias e as guerrilhas dominavam a zona antes da sua apaziguação. Bocados de uma história demasiado complicada.
Os nossos dias nestes pedaços de terra têm mais gozo que estórias, e foram passados entre o mergulhar no mar (que é morno) e o balançar na rede (que é coçada e sinónimo de felicidade): de noite cozinhávamos arrozes vários, para economia do agregado (cenoura aos pedaÇos, cenoura às tiras, cenoura frita, estufada, cozida e crua, que o mais eram cebolas e o barco com as verduras só voltava a passar daí a uma semana), deitávamos os sonos da mesma rede do dia balançado, éramos devorados por mosquitos, formigas, aranhas voadoras e chitras várias, e morríamos de calor à fogueira acendida para compensar a ausência de electricidade diária, provocada pelas nocturnas e recorrentes tempestades (com direito a raios tao fortes que despiam toda a aldeia). Porque jantávamos às sete e nos deitávamos pouco depois, as manhãs acordavam-nos às seis, para mais do mesmo: rede, mar, areia, arroz, mar, rede, sol, rede, cerveja, rede, boa noite querido.  







 

martes, 25 de septiembre de 2012

Turbo e Mar'adentro

Não, não, nada de rápidas, que isto deve ser tão gozado quanto os gozadíssimos passos, e tão partilhado quanto possível com as alminhas que levo penduradas ao pescoço. Vamos com calma.


(espreguiça)

A chegada ao Caribe foi a chegada a Turbo, cidade descrita na literatura do género (cito saudoso N.) como uma cidade suja, caótica e perigosa. A verdade é que a nossa chegada podia servir de cena inaugural a um filme de gangsters de fraca qualidade. O autocarro, que devia ter chegado a umas seguras sete da manhã (hora condigna onde o sol já vai alto e todos os perigos ilumina), atirou-nos porta fora às ainda escuras cinco. Os primeiros segundos foram deliciosos: o autocarro a afastar-se, e nós ainda atordoados, aqui?, com esta pinta?, onde estamos? A rua sombria, a noite ainda cerrada, e o ambiente era o do cais do sodré a más horas, antes da era rosa e pensãoamor. Os vultos iam surgindo das esquinas, cambaleantes (para nós,  os vultos, para os vultos, as esquinas), e as vozes eram atabalhoadas e em jerga. Da tarde para a madrugada, passámos de uma nostálgica vila colonial de cavalos e velhos semeados na sombra das árvores para uma cidade semi-urbana, caribenha e rufia. A noite era ainda ébria e não-ressacada, apenas povoada por homens gingões e poucas mulheres de má vida (noto que as cidades de cais têm esta tendência de vestir um ambiente boémiodecadente). Bem-vindos a Turbo! Nada para ver e uma barqueta para apanhar às oito da manhã. Como tínhamos fome de café, e porque não dava senão para mergulhar a espera naquele submundo, aproximámo-nos do carrinho de mão fumegante que acabava de virar a esquina: dois tintos, mochilas no chão, rabos no asfalto, e aí esperámos as voltas do relógio, vigilando divertidos as bebedeiras e os olhares desconfiados da cidade.
Carrinho fumegante

Quatro tintos depois, passadas as bebedeiras e nascido o sol, lá percorremos os 4 quarteirões até ao porto (que um jovem alcoolizado ainda tentou, pouco convincente, levar-nos na sua mota, eu, ele, o rodolfo e as duas mochilas tamanho-humano, por uma quantia "simbólica"), e lá percebemos a chegada ao Caribe. 
O Caribe: os locais são mestiços, mulatos ou retintos. Os homens andam de camisa aberta e as mulheres rebolam. As conversas têm mais descaro, as gargalhadas são mais estridentes e gritam mais soltas, os piropos também, as cores ressaltam mais à vista, mesmo que desbotadas. Pessoalmente, distraio-me com os cabelos delas: os entrançados, os enlaçados, os caracois deixados soltos, os matagais sempre-em-pé, as vaidades esticadas, as bolas enroladas no alto da cabeça com falta de pachorra para as voltas. Deles, prendo-me nas conversas e nos gestos: as piadas em voz alta, as gargalhadas partilhadas com o mundo, coça a barriga, boca aberta, dentes alvíssimos, tez pretoazul. Os olhos enormes, os mil tons de preto, castanho, café com leite, mais café, mais leite, as peles lisas, tesas, os rabos redondos, os traços perfeitos. 
E depois, entrámos no caos do cais, que eu tanto gosto. Vai pássaro, vem família, vai corda, vem homem, vai café, vem saco. Grita, corre, senta, espreguiça. Parte, chega, pesa, pousa. O porto cheio de albatrozes, pássaros gigantes meio bicho meio bico que não podem fitar os pés sem esventrar o próprio peito ou partir o bico no chão, dependendo da agilidade de cada um. Os barcos todos de madeira pintada, com nome de mulher ou de reza.

Cidade de Cais

Meio bicho meio bico

Finalmente, com quatro horas de atraso, partimos - uma lancha velha semi-madeira com motor de tractor; e como nos divertimos! Depois de duas voltas atrás dentro-dágua porque (i) nos esquecemos de uma família em terra e (ii) nos esquecemos do combustível, ah!, afinal não, lançámo-nos ao mar em alta velocidade e não imaginam!, a velha barqueta saltava-voava rente à água, e nós do banco, como uma montanha russa, pás!, pás!, pás!, a velha lancha pronta para as curvas, nós surpreendidos, e a velocidade a obrigar o barco a saltar por cima das ondas sem furar. A linha da costa que seguimos era de selva a pique mar-adentro, densíssima e pás!, mergulhava sem espaço a areias ou intermédios, mergulhava de cabeça, e o barco aos saltos, pás!, pás!, pás!, e eu só pensava que se os meus irmãos estivessem ali, se estariam desmanchando a rir como eu, o barco ia aos saltos de estupidez, pás!, pás!, a velha senhora atrás de mim ia agarrada a banco, mas o banco era uma tábua solta e também saltava, um salto demasiado alto lá magoava a bunda, as mochilas e as maletas lá à frente saltavam também e quase acabavam no fundo-mar, mas eu continuava a rir a bandeiras despregadas como se tivesse seis anos. Três horas nisto! Não me divertia assim há muito tempo. Eventualmente, a linha da costa fez uma curva, e ali rés-vés ao Panamá, chegámos a um vilarejo chamado Capurganá.



viernes, 14 de septiembre de 2012

Rápidas a cores (zona cafetera)

 Pensão em Salento (zona cafetera)

Salento (madeiras velhas-não-gastas)

Don Elias e o golias (cinco anos depois)

Manizales também se pendura em corda

Café-de-todos-os-dias

Mais zona cafeteira - Santa Fé de Antioquia

Santa Fé ou é possível morrer de calor

Almoço do dia 
(não, não é leite, é sumo de guanabana, a ver se me passam as maleitas,
que eu cá acredito em quase tudo)

jueves, 13 de septiembre de 2012

Rápidas (de uma subida tomada com tempo)

Rápidas.
O comboio a vapor a rasgar a cidade-alta em dois, empurrado pelos adeus de todo-homem. O assado na finca, a família-toda, e nós mordendo maçarocas de milho tiradas do carvão ao sol. O bando de musica animando a tarde de todo-colombiano - os ritmos novos, o vallenato, o porro, a cumbia, o fandango, os outros, e as timidezes despidas a dançar. A carripana que falhou no regresso e o frio dos oito bravos abraçados por necessidade na caixa aberta por três horas de estrada e de noite e de frio. Gargalhadíssimo, tudo.
E depois, comprámos o mapa de estradas da Colombia, partida, lagarta, fomos. Com um telemóvel barato no bolso desenrascado pela família Bravo, por si cualquier cosa.
Salento, e a praça ainda fresca na memória: as varandas coloniais, as madeiras velhas mas não gastas, as cores repintadas com boa intenção, o café fumegante e o Don Elías que apenas subtilmente acusa os anos que passaram, eu reconheço-o, ele reconhece-me, e a casa continua acolhedora, e a caminhada montanhacima custou tanto como dantes e não mais. Manizales salganhada de esculturas e livros e teatro e dança, terra-festivais compensando a graça que parece ter caído montanha-abaixo. Santa Fé chegada com a noite, a feira na praça - as praças são os corações palpitantes destas terras -, a imagem de uma Colombia afinal demarcada das paredes de concreto, os ombros descalços, os chapéus de ráfia, a aguardente, o café, as plantações, as cores, as varandas de madeira (velha, não gasta), as ventoinhas e as portas abertas à rua. O festival anual de fotografia, e a dormida desenrascada no piso de cima do salão de bilhar do pueblo, os velhos sábios e eu única-mulher, a música popular e o chocar das bolas de abrir o jogo, a banda sonora das noites no quarto sem tecto. 

A chegada madrugada a Turbo, pueblo decadente e desbotado-colorido onde encontraríamos todas as peles que são mulatas e negras e azuis, e que todos riem e cantam e dançam falando e as miúdas são belas e as mulheres rebolam e gargalham, o café das cinco da manhã no carrinho da esquina com os restos humanos da noite de rumba, o porto de madeira e os albatrozes gigantes a fazer as vezes das gaivotas. 
Aqui apanharíamos o barco e chegaríamos de uma subida norte acima, tomada com tempo e com gozo. A  Capurganá. 

jueves, 6 de septiembre de 2012

Soltas em Bogotá (e arredores)

O primeiro dia em Bogotá: cinco anos depois, regressando à mesmíssima mão de Botero (aparentemente, ainda com um ar civilizado, mas realmente só porque não se vê da cintura-para-baixo)

Tectos-de-corda

Bogotá-afinal-a-baixa

"Couvert"do menu do dia, num qualquer tasco de uma qualquer esquina.

Bogotá-ainda-baixa

São cabos, senhor, são cabos.

Frutas estranhíssimas com faculdades curativas

Pequeno-almoço ligeiro, porque o comboio sai em 20 minutos e-nem-tempo-há-para-comer-um-caldinho (falta o sumo de guanabana e uma fruta alaranjada em pedaços cujo nome não consegui aprender)

A ternurenta abuelita, em insistente preparação do segundo almoço do dia (tarde terrível).

A Catarina a preparar-se para uma tarde terrível de azia (enquanto a abuelita atrás cozinha mais patacon).

miércoles, 5 de septiembre de 2012

uno se da cuenta (da Humanidade)

Uno se da cuenta de que os Homens são iguais em qualquer parte do mundo,

quando o comboio passa e todos dizem adeus.

lunes, 3 de septiembre de 2012