Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


jueves, 25 de julio de 2019

Lembrete para 2019

Previously. Deu cinco voltas ao (seu) mundo, e aterrou finalmente, recentemente. Cruzou margens catorze vezes contadas e a cordilheira mais sete, pariu, casou, pariu, separou, pariu-se de novo a si própria - parto inverso que dói -, desgarrou-se de dor e ressuscitou no fim do tempo e no fim do esforço, mais leve que nunca.

Cheguei. Pé no chão, peito em paz. Estou naquele meio-ponto de vida de máxima potência e mínima fricção. Efervesço com humor, rio-me de quase tudo e sobretudo de mim. Muitas vezes, tenho vontade de dar cá mais cinco a mim mesma, e às vezes dou. Também canto alto e sozinha, como quem sofre demência grave ou boa disposição crónica. Comecei a sair sozinha e descobri um novo mundo, de liberdade plena e cara-de-pau. Cara-de-pau é uma das minhas melhores caras, confesso. Ou sou uma pessoa completamente diferente, ou sou mais eu do que nunca. Nunca se sabe, mas ajuda a gargalhada e a metodologia de investigação. Não sei se já corro com os lobos, mas às vezes apanho-me com sorriso de malandro ou rei do gado, como quem anda pela vida com propriedade dos seus dias. Todos meus, minha gente, sai para lá ou chega aqui perto, sem truques. Oh, demência boa, frenesim difícil de gerir entre as mãos que são só duas e os pés que pouco chegam. Danço de novo, sempre que posso. Que os pés não chegam mas multiplicam-se, e fico assim, nesse jeitinho de polvo frenético, a dar mais cinco a si mesmo, com mil braços lá no alto a tocar todos os sinos.

(Cada vez que me escrevo e me releio, me reencontro – como um mapa. Não devia abandonar a Cartografia. Na dúvida, para não me perder. Lembrete para 2019.)