E depois é o vinho, e
perceber que se tem saudades de falar em português.
(escrever é difícil porque se vem perdendo o jeito ou o hábito de brincar com
as palavras que já não se usam tanto porque se misturam com outras, calle,
noche, pan, vos.)
Ontem foi noite-fora lá em casa. Soube-me a noites da Bica e a vida entornada em
copos e cigarros e ataques perdidos de riso com as janelas abertas, não
importam as horas que hoje é noite de quase-verão.
(e a gata quer saber o
que há lá em baixo e eu contorço-me de vertigens porque vivemos num quarto
andar e os gatos podem cair de pé mas cá pra mim têm no máximo três vidas e
ainda é cedo para as desperdiçar).
Fomos os quatro da Casa
e as nossas duas viajantes aterradas no sofá de sempre, que
agora é colchão porque assumimos nossa natureza de perpétuos estalajadeiros.
Somos os amigos dos amigos dos amigos que levam estas e outras almas-mochila
mundo-fora e lhes vão servindo de poiso e pausa.
Ver-lhes os mapas e os planos deixam-me inquieta, como sempre, a vontade
dedilhada de eternamente ir e voltar, a euforia todaberta das partidas e os
apaziguados regressos a casa, com a sensação de que não existe mais Lugar do
que Lisboa.
As conversas são banais
e boas – sabem ao café no quiosque e à jola do Bairro.
E depois sobem as
bebedeiras e fumam-se demasiados cigarros porque a razão já se perdeu na
conversa e naquelas horas destiladas de fumo e vinho e histórias sem filtro e
pouco pudor. E sentimo-nos em Casa uns nos outros, sem nunca nos termos cruzado
até há bem pouco.
(os soldados têm de dormir antes das batalhas, nao podem vir de barco directos senao chegam ressacados e com um jetlag hardcore)
E no meio destas horas,
uno piensa (bom, eu penso) nas
noites-fora que estarão acontecendo, naquele momento, noutros sofás, outras
casas longe de Casa, Rio, Londres, Paris, Bogotá; onde provavelmente também se
safam sofás e tectos e se gargalham noites com pessoas de ontem que se
tornam intimas sem processo porque sentimos falta das mesmas coisas e acabamos
com o peito afinal mais aberto.
Partimos muitos. E
partimos todos com passos diferentes, destinos baralhados e trilhos próprios: as viagens de quem se
procura, as de quem se quer perder; as emigrações aventureiras, as
necessitadas, as ambiciosas; o plano ao detalhe, o logovejo, o salto de fé; a
ida sem volta, o vou-mas-volto e o já-volto; os cinco continentes, o mundo aqui
à mão.
Partimos em todas as
direcções e assentámos arraiais. Ou não.
Mas cruzamo-nos.
E conhecendo-nos de nome, de vista, de toda a vida ou de lado nenhum,
inevitavelmente nos juntamos, em português e sem complicações. E é como imaginar um
mapa com pontinhos de luz aqui e ali, Rio, Londres, Paris, Bogotá, as
noites-fora dos portugueses que estão fora e que abrem portas (de dentro para
fora, de fora para dentro) aos amigos dos amigos dos amigos. Como fogueirinhas
de sinalização da portugalidade dispersa ou janelas como candeeiros de rua que
vão marcando o passo.