O ano voltou a virar, as meias de lã nos pés
outra vez, o edredon desceu do armário, a água está constantemente ao lume para
mais um mate. Todos os anos – dos 3 que quase-acumulo de viver esta cidade –
quase me esqueço que o inverno em Buenos Aires é feito de dias de frio de faca y
sol morno a pique. Céu cru azul e feiras e parques.
Não tenho tido tempo para parar, apenas. Entre
o trabalho temporário no Cejil que se vai renovando todos os meses, e as aulas
em contagem decrescente como também os prazos para os trabalhos que as fecham,
e os fins-de-semana curtos curtinhos de tarde e meia, valha-me esta deficiência
de energia em excesso num corpo pequeno e concentrado
em permanente combustão
que
me permite a sobrevivência inesgotável de vontade que não finda nem se
satisfaz.
Nas meias-horas que se entornam do copo sempre cheio, há sempre tempo
para Buenos Aires: uma peça de Cádiz de última-hora no eterno imortal teatro
jeito cabaret Maipo, uma manhã sentada na Recoleta ao sol no chão de pernas
esticadas em fila para conseguir entradas para o bruto génio dos Fuerza Bruta,
a parrilla de bairro, a salsa colombiana com jeitinho negro do Pacífico, o
Malbec das noites-fora de conversa, o cinema francês mensal grátis, o regresso
das Bombachas.
Às vezes pergunto-me se é de mim –
esquizo-histerinesgotável em estado estimulado – ou de Buenos Aires –
estimulo-frenética em modo não-me-acabo (nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que
bate bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, Força
Bruta.
E geralmente pergunto-mo às seis da manhã, com um olho fechado e outro aberto, enquanto estico o braço à mesa de cabeceira para tirar uma fotografia sonâmbula ao amanhecer glorioso que me bate certeiro na cara todas as manhãs, vou ter saudades deste amanhecer, enquanto penso que devia lavar as janelas de vez em quando e volto a dormir.
