Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


lunes, 9 de junio de 2014

Pulso tambor (força bruta)

O ano voltou a virar, as meias de lã nos pés outra vez, o edredon desceu do armário, a água está constantemente ao lume para mais um mate. Todos os anos – dos 3 que quase-acumulo de viver esta cidade – quase me esqueço que o inverno em Buenos Aires é feito de dias de frio de faca y sol morno a pique. Céu cru azul e feiras e parques.

Não tenho tido tempo para parar, apenas. Entre o trabalho temporário no Cejil que se vai renovando todos os meses, e as aulas em contagem decrescente como também os prazos para os trabalhos que as fecham, e os fins-de-semana curtos curtinhos de tarde e meia, valha-me esta deficiência de energia em excesso num corpo pequeno e concentrado 
em permanente combustão
que me permite a sobrevivência inesgotável de vontade que não finda nem se satisfaz.
Nas meias-horas que se entornam do copo sempre cheio, há sempre tempo para Buenos Aires: uma peça de Cádiz de última-hora no eterno imortal teatro jeito cabaret Maipo, uma manhã sentada na Recoleta ao sol no chão de pernas esticadas em fila para conseguir entradas para o bruto génio dos Fuerza Bruta, a parrilla de bairro, a salsa colombiana com jeitinho negro do Pacífico, o Malbec das noites-fora de conversa, o cinema francês mensal grátis, o regresso das Bombachas.


Às vezes pergunto-me se é de mim – esquizo-histerinesgotável em estado estimulado – ou de Buenos Aires – estimulo-frenética em modo não-me-acabo (nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, Força Bruta.


E geralmente pergunto-mo às seis da manhã, com um olho fechado e outro aberto, enquanto estico o braço à mesa de cabeceira para tirar uma fotografia sonâmbula ao amanhecer glorioso que me bate certeiro na cara todas as manhãs, vou ter saudades deste amanhecer, enquanto penso que devia lavar as janelas de vez em quando e volto a dormir.