Finalmente, enfim Lisboa.
Há umas semanas, começou o burburinho. O mail
pontual, quando é que vocês chegam?, a
mensagem deixada offline, combinamos jantar?, a resposta sem pressa nós também, boa! E depois aos poucos começaram
as mensagens a ganhar ritmo picadinho, Passou tão rápido, quase nos vemos, tanto tempo, até
que enfim! contagens decrescentes a ferver por toda a parte, umas
arrancando antes que outras, mas todas parte desta euforia colectiva de regresso
a casa, de dentro e de fora, a burbulhar por todo o lado.
Contas decrescentes a ferver dos dias, das
horas, das combinações efervescentes dos abraços que se querem e que se devem, e
os facebooks, as caixas de email e os telemóveis, tudo em ácidos. Caímos na
conta do tempo (há um ano que não nos
juntamos à mesma mesa, há um ano que
não nos abraçamos), e é como se as saudades geridas com mais ou menos
paz durante todoano inteiro fossem agora agitadas e a ansiedade a gás
entrasse em ebulição, Estás quase cá, estou quase aí!
E é ver as partidas aos poucos da portugalidade
pontos-de-luz dispersa de regresso a casa, pouco a pouco, em massa, desta
multidão de almas soltas, de Londres, de Paris, de Nova Iorque, de Bogotá, de
São Paulo, do Rio de Janeiro, de Santiago do Chile, de Buenos Aires. Todos rumo
a Casa, para as mesas postas à espera.
Cá em casa, qual
vai ser a primeira coisa que vais fazer quando chegares? E comer? E tu? Eu cá
café, curto, forte, bem tirado, eu quero uma garrafa de água do luso que a de
cá sabe a esgoto, e um peixinho? E azeite galo, azeit'a sério? E uma imperial, cheia de pressão?
E passear a pé e ter mar e ter rio e ter miradouros?e nos desfazíamos em
listas de saudades sem ordem nem fim.
A Mariana foi na quinta. Esta madrugada parto
eu, o Rodolfo vai no domingo, o Chico na segunda. Aos pedaços, lá vamos viajar
no tempo, que a Mariana só chegou na sexta, e o Rodolfo chegará segunda, mas eu
só aterro quase na terça e o Chico na quarta.
Fazemos parte de uma multidão de regressos,
todos correndo com a pressa de chegar.
às esquinas e às
calçadas,
aos cafés e aos
costumes e aos miradouros
da minha
Lisboa-quintal.
É que por mais que me ferva o Sul, a Viagem e
Buenos Aires na vontade, é de Lisboa que sou, é só Lisboa que me nasce do peito
e me cresce das vísceras e é sempre para Lisboa que volto, mesmo enquanto ainda
não.
(Não existe forma de descrever esta comoção
permanente de me saber pertencendo a este lugar. É como se me inchasse o peito
de luz e de casa.)
O eterno lo más de Buenos Aires (ou qualquer outro lugar) é voltar. Sempre voltar.
Ps. para mim, é hoje. Daqui a 10 horas, madrugada adentro, começo a viagem. Estou quase aí!