Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


domingo, 22 de diciembre de 2013

(Escrever para não adormecer)

Santiago de Chile, 9 down, 7 to go. 

Olhe era para dizer que (ontem?) (hoje?) saí de casa às três cambaleantes da manhã para apanhar o voo das 6 a Santiago do Chile
(e porque raio é que eu tenho sempre de escolher o caminho mais difícil, ora se isto tem sentido sair de casa de malas às costas a meio da noite e quase adormecer em pé na fila do check-in para voar trás e ter de esperar 16 horas numa cidade desconhecida pelo voo que cruza o mar),
que cheguei hoje às 8 (praticamente) não dormidas e pus pés a caminho para um dia desta cidade que não conhecia, com listas de lugares e mapas legendados, pronta para espetar a bandeira, isto não vai dar tempo para tudo mas sempre me entretenho.
mas que despachadinha como sou, às 3 da tarde já tinha picado e gozado todos os pontos de interesse e agora são ainda cinco, e faltam 7 horas para o avião e 4 para ter de estar (sem parecer ridícula) no aeroporto.
que estou num café delicioso (onde ao pequeno-almoço fui feliz), a bater com a cabeça na parede para não adormecer, porque são cinco e um quatro da tarde e o meu voo é à meia-noite, e corro sério risco de ser encontrada ressonando amanhã de manhã.

Santiago é, contra todas as minhas informações, impressões e expectativas, encantador. 
Mas depois conto.
Agora era só mesmo para dizer isto.

(escrever para não adormecer)

ps. sou despachadinha mas deu para apanhar um escaldão, raiospartam.

sábado, 21 de diciembre de 2013

#10 Voltar (enfim, Lisboa)

Finalmente, enfim Lisboa.

Há umas semanas, começou o burburinho. O mail pontual, quando é que vocês chegam?, a mensagem deixada offline, combinamos  jantar?, a resposta sem pressa nós também, boa! E depois aos poucos começaram as mensagens a ganhar ritmo picadinho, Passou tão rápido, quase nos vemos, tanto tempo, até que enfim! contagens decrescentes a ferver por toda a parte, umas arrancando antes que outras, mas todas parte desta euforia colectiva de regresso a casa, de dentro e de fora, a burbulhar por todo o lado. 
Contas decrescentes a ferver dos dias, das horas, das combinações efervescentes dos abraços que se querem e que se devem, e os facebooks, as caixas de email e os telemóveis, tudo em ácidos. Caímos na conta do tempo (há um ano que não nos juntamos à mesma mesa, há um ano que não nos abraçamos), e é como se as saudades geridas com mais ou menos paz durante todoano inteiro fossem agora agitadas e a ansiedade a gás entrasse em ebulição, Estás quase cáestou quase aí!

E é ver as partidas aos poucos da portugalidade pontos-de-luz dispersa de regresso a casa, pouco a pouco, em massa, desta multidão de almas soltas, de Londres, de Paris, de Nova Iorque, de Bogotá, de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Santiago do Chile, de Buenos Aires. Todos rumo a Casa, para as mesas postas à espera.

Cá em casa, qual vai ser a primeira coisa que vais fazer quando chegares? E comer? E tu? Eu cá café, curto, forte, bem tirado, eu quero uma garrafa de água do luso que a de cá sabe a esgoto, e um peixinho? E azeite galo, azeit'a sério? E uma imperial, cheia de pressão? E passear a pé e ter mar e ter rio e ter miradouros?e nos desfazíamos em listas de saudades sem ordem nem fim.

A Mariana foi na quinta. Esta madrugada parto eu, o Rodolfo vai no domingo, o Chico na segunda. Aos pedaços, lá vamos viajar no tempo, que a Mariana só chegou na sexta, e o Rodolfo chegará segunda, mas eu só aterro quase na terça e o Chico na quarta.
Fazemos parte de uma multidão de regressos, todos correndo com a pressa de chegar.

às esquinas e às calçadas,
aos cafés e aos costumes e aos miradouros
da minha Lisboa-quintal.
  
É que por mais que me ferva o Sul, a Viagem e Buenos Aires na vontade, é de Lisboa que sou, é só Lisboa que me nasce do peito e me cresce das vísceras e é sempre para Lisboa que volto, mesmo enquanto ainda não.
(Não existe forma de descrever esta comoção permanente de me saber pertencendo a este lugar. É como se me inchasse o peito de luz e de casa.)

O eterno lo más de Buenos Aires (ou qualquer outro lugar) é voltar. Sempre voltar.

Ps. para mim, é hoje. Daqui a 10 horas, madrugada adentro, começo a viagem. Estou quase aí!

martes, 17 de diciembre de 2013

#9 Casa De Sonho

Dizem que se deixa o melhor para o fim, e este é, sem dúvida, o meu quase-último.
Casa, De-Sonho!

O Rodolfo é Casa desde o início dos tempos. Juntos, nos atirámos para o lado de cá, suámos em colombiano, corremos selva e praia, provámos frutas estranhas. Juntos, cravámos sofás e safatectos e a quatro mãos construímos a casa aospoucos. Desde a primeira noite entreparedes vazias às conquistas uma-a-uma - maiores ou mais corriqueiras (o trabalho que se queria, o visto conseguido, copos novos todos iguais, a ventoinha paga a peso de ouro), todas gloriosas -, e com mais ou menos mau feitio de ambas as partes, o Rodolfo soube ser sempre Tecto e Chão desta aventura.

O Chico começou no sofá, sem saber mais do que o meu nome. Encontrou-me no universo cibernético nem me lembro como (mas afianço que não envolveu qualquer site de baixo nível ou menor dignidade), e eu ofereci-lhe tecto para os primeiros safados dias. A coisa rolou bem, rolou fácil, e durante seis meses, com ele já fora do nosso sofá, fazia parte do nosso mundo argentino. Depois, mudou ele de Ciclo e veio cá parar, com direito a quarto e nome no quadro das tarefas semanais. O Chico entrou a pés juntos e com vontade, encheu a sala de conversa, os dias de disposição e a casa de bora s.

A Mariana caiu-nos sem querer nem dar por isso. Respondeu-me em espanhol a um anúncio em espanhol para um quarto por onde já haviam passado um par de almas. Saiu-lhe, na resposta, que era portuguesa, e foi sorrir imediatamente, olá, estás boa?, passa aqui! A Mariana partilhava comigo, afinal, muito mais do que a língua-mãe e língua-pátria. A Mariana tinha um feitio forte, a deliciosa mania dos detalhes nas paredes e um amor partilhado pelas palavras. E veio. 

Éramos todos, já.

Com feitios totalmente diferentes, entre os quatro se formou um jeito próprio, um jeito alegre. A minha Casaberta passou a ser Casaberta de todos, com gozo. A nossa Casa passou a ser canto e lugar dos quatro, o chegar a casa em português, uma preguiça boa própria de não ter de pensar em duas etapas nem traduzir a personalidade, ser, só. O cansaço sem ter de se disfarçar, os ânimos espontâneos na ponta da língua, o humor facilitado nas horas comuns em correrias pela casa a imitar aquele tipo dos desenho animados que corria com os braços para trás que nós víamos quando eramos miúdos, não se lembram?

Apanhámos algumas manias de conta-histórias uns dos outros: a tempestade de ontem não foi impressionante, foi hardcore. Se a Metrogás nos diz que vem cá a casa três vezes e três vezes nos deixa pendurados, não atiramos (pelo menos não imediatamente) um chorrilho de insultos e palavrões (básicos, claro) para cima da Metrogás, mas perguntamos se está tudo bem com a Metrogás? E a nossa casa não é divertida nem espectacular; é De Sonho.

(e os amigos imaginários do Chico concordam, porque nunca saem à rua)

A Casa assim vivida a quatro entre-nós, foi Casa desde o princípio, sem maiores esforços. No final do dia, longe de casa, somos Casa uns nos outros. 

E por isso, o fim do Ciclo deve-se, em grande parte, ao fim Deste ciclo, com o qual quase-fecho o top10, a Santa Fe 4427 assim composta. 

E não é que não voltemos todos depois do Natal, para mais um bocadinho disto. Mas aí, já as datas e as partidas estão escritas no calendário bimestral atrás da porta por baixo da caixa de fruta pintada, onde ainda estão penduradas as chaves de todos.

Valham-nos, daí em diante, as mesas de café entornadas com vinho e boa disposição, esteeee, o seaaaa, viste? Está tudo bem.




 


lunes, 16 de diciembre de 2013

#8 Casacheia

Esta é das minhas partes preferidas de tudo isto: a recriação da Casa a que sempre me habituei, Casa-cheia, Casaberta. Na casa da minha Mãe éramos cinco mais extras. Casa-caos, Casa-barulho, a mesa do jantar sempre cheia, os amigos que ficavam a dormir, os que passavam sem avisar, os “passa aí” à última da hora. Nada me definiu mais ou melhor do que crescer nesta Casacheia – e agora, a minha Casa só o é se assim for.

Em Buenos Aires, vivemos quatro mas raramente estamos sós. Por la duda, temos 3 colchões extra guardados, duas cópias de chave e uma colecção de mapas da cidade que vamos emprestando consoante as voltas. O safa-colchão, safa tecto e safa-noite viraram rotina, o calendário improvisado atrás da porta ao lado das chaves (penduradas numa caixa de fruta pintada) tem as casinhas dos dias assinaladas com as gentes que nos vêm enchendo de vida a sala. 

E é claro que vez em quando sabe bem ter a sala livre de mochilas. Mas sabem-nos melhor estes gestos que viraram parte, quem vem desta vez?, descer a abrir a porta a caras novas com um sorriso, explicar num ápice a matemática da Cidade, chegar a casa e o sofá não chegar mas o chão sim, um copo de vinho, as histórias de uns e de outros e gargalhar noite fora com pessoas de ontem que se tornam íntimas sem processo.


Somos, de corpo e alma, perpétuos estalajadeiros.

E o Vasco, o Emílio, o Adam, a Leonor e o João, a Círia e o Nuno, a Inês, o Diogo, a Mariana e a Irina, o Malacas, a Padinha, a Marta, o Henry, a Ana Bárbara e a Ana Paula, a Patrícia, a Marta e a Pink, a Andreia, a Dina e a Sofia, o André e o Steps, o Dom e a Sofia, a Mireia, o João e o Lua, a Inês e o Sérgio fazem parte das paredes e não deixaram uma marca mas é como se tivessem deixado, porque a Casa tem este feitio de portaberta que se deixa encher e preencher.

(Nós é que agradecemos).

Diário de bordo da Casacheia:













domingo, 15 de diciembre de 2013

#7 Corre Sua sem Cansar

Tudo muito bonito, o tango, o gato, os programas de todos os dias, as miúdas que fazem variedades improvisadas aos domingos. Mas eu não vim cá só laurear a pevide.
E esse tem sido o lado mais grato.

O mestrado (para os mais desnaturados, em Direitos Humanos) é tudo o que eu queria. Tenho coleguinhas que trabalham nas prisões, nas villas (que são favelas e se dizem vichas), nos processos judiciais de crimes contra a humanidade, com histórias surpreendentes, feitios engraçados e espírito de combate. Tenho professores que adoro, cujo trabalho admiro profundamente. As viagens a La Plata quase não custam, e o cansaço entranhado no corpo dos fins-de-semana que não tenho (porque, para os mais desnaturados, tenho aulas sexta feira e sábado, ao bom jeito da pósgraduacao de Coimbra) sabe a uma satisfação que há muito tempo me faltava.

Com a pica de entrar neste mundo a pés juntos, larguei os aventais e candidatei-me a um estágio numa organização internacional de direitos humanos (descendo mais um degrau na escada dos poucos tostões), com escritório em Buenos Aires: o Cejil. Assim comecei a mexer, em papel, nos casos falados nas aulas e nos livros: os massacres aos sem-terra do Paraguay, as perseguições aos Mapuche do Chile, as torturas paramilitares da Colômbia, os desaparecidos das antigas ditaduras deste sangrado continente. Dei por mim, em trabalho, a ler declarações testemunhais de sobreviventes de actos inomináveis, a fazer pesquisas de jurisprudência sobre a imprescritibilidade de crimes de tortura e genocídio, a preparar alegações escritas sobre casos de perseguição penal de comunidades indígenas.

Percebo todos os dias que vim com razão, que é por aqui. Que há camisolas que visto por amor e que há corridas que se suam sem cansar.

(E que acabaram as horas cínicas, “direitos humanos? A menina é uma hippy”, sarcastico-azedo.
Não não. A menina trabalha, paga as contas, toma banho e lava o cabelo.
A menina até tem um sofá de esquina, cor de chocolate, sofisticadíssimo.
Mas sim, a menina agora trabalha vestida como quer e não trata ninguém por doutor. Tomatela. que é como quem diz “toma.”)

Acabo o primeiro round desta corrida cheia de pica, cheia de ganas. 
(do mundinteiro de portas abertas, o caminho que se vislumbra a partir daqui) 


#6 Sur LaPerra

O Até Agora de Buenos Aires foi marcadíssimo pela entrada do quinto elemento na Casa.

A Sur (sim Zé, já sei, Sur é ridiculo. Mas já havia uma gata no prédio chamada Xana, e Sheila era difícil de pronunciar em espanholchegou em Maio em formato bicho bola e depressa se tornou na inquilina mais popular da Casa (true story. se isto fosse um Big Breda, a Sur ganhava).

Entre o complexo de Édipo com o Rodolfo quando o Rodolfo tinha barba (há qualquer coisa nos excesso capilares que deixa as gatas suspirando pelos sofás), a espera canina sentada por nós à porta de casa, e os exibicionistas saltos de tarzan e mergulhos de cabeça pela sala fora sem tocar com os pés no chão, o bicho ganha os amores de todagente, tendo já um sólido historial de amanteigamolecimento certeiro dos mais ferrenhos odeiogatos.

Meio gata meio cão, Sur LaPerra encheu a casa de movimento e barulhos, até em divisões onde não está ninguém. 
(porque a Gata não é um gato, é uma chita adestrada na Cia, 
capaz de fazer mexer três coisas ao mesmo tempo sem sair do lugar)

É a rainha deste circo – embora pose para a câmara com jeitos de bitch i'm sexy pouco dignos do titulo.

E eu juro que não vou ser a velha da casa cheia de gatas. Mas este bicho gato macaco conquistou bem o seu lugar.

formato bichobola


 gravíssimos complexos de Édipo


 

poses pouco dignas do título (i'm sexy and i know it)

   

viernes, 13 de diciembre de 2013

#5 Bombachas Poderosas

Buenos Aires é a cidade que sempracontece, já todos sabemos. Qualquer hora livre tem o potencial de um concerto apanhado de surpresa num parque, qualquer volta à esquina um novo mercadinho que até aí não se conhecia, qualquer casa velha pode esconder uma noite de batucada e multidão. É difícil acompanhar a corrida – embora seja gozadíssimo tentar.

E na Ciudad que sempracontece, apesar do assalto constante e em jeitinho no-para-siguesigue da artilharia pesada – este ano, sem pensar muito, um dois três!, o Buenos Aires Festival Internacional de Cinema Independiente, o Buenos Aires Festival Internacional de Teatro, o Festival de Cine Cubano, o Festival de Cine sobre Migración, o Festival de Cine Documental, o Festival de Cine sobre Derechos Humanos, o Ciclo de Cinema Portugués, o Campeonato Mundial de Tango, a Feira do Livro, a Noite dos Museus, o Buenos Aires Jazz Festival Internacional, o Buenos Aires Market, o Nadal a jogar à nossa janela -, lo más de Buenos Aires são os tipos escondidos atrás dos arbustos a atirar pedrinhas.

Os tipos escondidos atrás dos arbustos a atirar pedrinhas são os centrinhos culturais que são cafés e bar e livraria às vezes em jeitinho bacalhoeiro com arte e manha, escondidos em todo o lado em casas antigas, barracões, e salas recicladas. Escondem grupos de amigos ou de artistas que, entre uns e outros, vão parindo programações diárias originais, com génio e engenho.

Um destes lugares e um destes engenhos marcou de forma especial inaugural a cadência da nossa Buenos Aires de até-agora: os domingos-anti-domingo do Quetzal. Um ciclo de variedades a la gorra  (ou seja, sem preço e com chapéu a passar no final) chamado “Bombachas Poderosas”, que literalmente significa Cuecas Poderosas ou Calcinhas Poderosas (a ridícula referencia à palavra “calcinhas” serve o único propósito de explicar que a palavra bombachas se refere a cuecas femininas).
A cargo e mente de duas pequenasgrandes mulheres bem-dispostas e feito exclusivamente por mulheres, as Bombachas traziam a ideia do domingo anti-sofá e anti-preguiça. Cada domingo era diferente e cada domingo era uma manta de retalhos, vinham cantoras com letras provocantes e vozes de sonho, teatro-cómico e teatro-improvisado, dança-caricatura, histórias infantis pervertidas em marionetas feitas à mão, monologos hilariantes que acabavam em parte-corações ou vice-versa, pedaços de genialidade e “epa, que bom”.



 





 

Entramos na marcha e acompanhamos o ciclo - e ao terceiro, as miúdas criadoras do projecto (as geniazinhas Carmen Tagle e Malena Vieytes) já nos conheciam pelo nome, porque eu e tu fomos público-parte destes domingos-anti-domingo sem falhar quase nenhum.

tão parte que somos parte do registo de vários domingos.

Foi uma rotina deliciosa de vários meses: pedíamos uma garrafa de vinho, onde mergulhávamos a semana acabada e inspirávamos a seguinte.

Em jeito de símbolo e espelhinho de feira do melhor que sempreacontece em Buenos Aires, as Bombachas Poderosas encheram-nos o copo e as medidas, e os domingos ganharam outra dimensão, à boa maneira porteña.