Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


viernes, 28 de septiembre de 2012

Cabo das tormentas

Não havia dúvidas: era ir!
Depois de quinze dias divididos entre as vilas de café plantadas nas três caudas colombianas dos Andes, e as vilas de peixe debruçadas na beira-mar do Darién, o passo seguinte pousaria na magnífica e decadente Cartagena de Indias, que eu ansiava repisar. As voltas por terra eram longas, os transportes careiros, e a oportunidade surgiu: cruzar o mar desde Sapzurro e entrar na cidade em veleiro? Quarenta horas de mar-alto? Antes fossem quatro dias, e melhor seria. A ideia pareceu-nos ousada, romântica e original, e comprou-nos de imediato.
Reforçámos o carregamento de arroz, cenouras e água, e esperámos que Lucho, el Capitán, desse o aviso de partida, lido no céu e nas tempestades de véspera.
Lucho, el capitán, carinhosamente baptizado Capitán Catalán, é um catalão de 50 anos, estatura quixótica, pele curtida pelo vento e veias engrossadas pelo sal que lhe entrou sangue adentro.  Abandonou a pátria e a aborrecida profissão de fotógrafo (pausa para suspirar), e, depois de uns anos em voltas dadas em cargueiros de pesca de bacalhau nos mares do norte, comprou um pequeno veleiro azul, que baptizou de Kawama (que diz que é uma espécie de tartaruga) e veio dar voltas para mares mais quentes. Para sobreviver, leva turistas de Cartagena a San Blas, no Panamá, e para viver, faz travessias atlanticas que lhe agitam o peito e lhe deixam histórias. Dono de um discurso ébrio e desarrumado - por personalidade e pelos oito charros diários que fuma -, Lucho ganha uma surpreendente lucidez quando avalia a tempestade que ainda nao acalmou ou faz as contas à agua necessária para cinco grumetes e 40 horas.
Chicos, que mañana nos vamos, ciciou o capitan, ao fim de quatro esperados dias.
Lá partimos, os cinco bravos (nós, dois urugaios e uma sueca-romena) e o seu capitao, cheios de vontade no peito e luz nos olhos.
Dois dias num veleiro? Uma aventura!
Ver o céu em alto mar? Magnífico!!
Chegar a Cartagena de Indias, junto à torre do relógio, de barco e com o vento?? Irrepetível!!!
E irrepetível foi, como vos passarei a contar.
Nos primeiros vinte minutos de viagem, pressentimos o enjoo - mas pensamos, já já nos habituamos ao embalo do mar.
Ora!
O vento não movia um cabelo e o veleiro não velejava nem cortava as ondas, mas se limitava a seguir o passo lento do mar e de um motor ligado em primeira velocidade - sobe a onda, desce a onda, sobe a onda, desce a onda, eu via a proa a subir e descer num vagaroso e enjoativo compasso, e com ele todos os meus orgãos a flutuar. Olhar o mar revoltava o estomago, fixar o barco revirava a cabeca, fitar o chão era chamada ao vómito a pés juntos. Os cinco entusiastas que subiram a embarcação em sorrido alvoroço correspondiam aos cinco cadáveres calados que tentavam concentrar-se num ponto fixo no horizonte, cada no seu e entregue à missão individual de minimizar o enjoo do barco, suores frios, expressão ausente, só o capitao cantarolava, entre charro e anedota - o cheiro adocicado dos primeiros piorava fortemente o enjoo generalizado, e as segundas ja nao eram ouvidas ou respondidas. Uma divertida miséria! Três vómitos depois (nenhum meu, faço notar, embora não me possa gabar de grande rigidez de disposição), o sol a pique, os corpos amontoados junto ao mastro para partilha de sombra, o nosso estado dava vontade de rir a quaisquer deuses - coisa que de vez em quando acontecia, se cruzávamos os olhares e nos consolávamos: so faltam 30 horas, gargalhada, sarcasmo. Estávamos qual anedota de náufragos!
Cozinhar?, qual quê!, que a cabine triplicava o enjoo, como caixa de fósforos em movimento, e entrar  nela era (como o comprovaram dois anónimos) vómito-certo!, mas também não importava, que a comida não era benvinda aos delicados corpos descompostos, e só o capitão continuava a enfardar, dada a fome dado o charro (e já lá iam dez).
Uma trágico-comédia!
Avistámos, enfim, Cartagena, como uma miragem no deserto, rindo de alegria e das nossas figuras - dois dias no mar, e nós feitos farrapos humanos!

Ainda assim, nem tudo foi apocalíptico: no meio do flagelo marítimo, vimos cardumes de peixes voadores sobrevoando o mar, que são como borboletas gigantes com escamas, e houve espectáculos de saltos de atum; e houve um momento, um momento breve, em que apareceram golfinhos junto ao barco, e, exibicionistas como só os golfinhos e os homens são, se encostaram à proa, o Lucho gritava-nos, assobiem que se deixam provocar, e nós assobiávamos (bom, eu não, que não consigo nem chamar um cão velho), e eles saltavam mais e davam piruetas, e nadavam junto à proa, em corrida connosco. Nesses brevíssimos minutos, perdemos a descomposição, corremos à proa, assobiámos, rimos, parecíamos miúdos, nós e os golfinhos, infantis, brincalhões, efusivos.

Valeu a pena passar o cabo das enjoadas tormentas para ver golfinhos a saltar? Talvez.
Valeu a pena, certamente, para saber que o não voltarei a fazer.
Vale certamente a pena poder olhar para trás, depois das horas de horror, e rever-nos a entrar no barco de cabeça erguida e corações ao alto. Pobres nós!

miércoles, 26 de septiembre de 2012

Capurganando

Sem rodeios: o caribe é delicioso. As praias até poderiam não impressionar quem tem portinhos na arrábida, caparicas na costa e arrifanas a estibordo; mas impressionam barbaramente. E ainda assim (um abraço, jovem momo), o jeitinho caribeño repousa mais na ginga das suas vozes que na cor do seu mar, que despe os fundos e os peixes à transparência e sem pudor algum.
Capurgá e Sapzurro são dois vilarejos muito caribeños. Aparecem de repente na curva do quase-panamá, salpicando a costa, e parecem ter sido fundados à mão e do avesso, a partir do mar, porque estão em bicos dos pés à beira-mar, empurrados e rodeados por densa selva onde barco não aporta e alma não sai, porque aí está o início do Darién, o impenetrável. O buraco de Darién (ou, dito com mais credibilidae, o Darién Gap) cai aí, enquanto não acaba a Colombia e não começa o Panamá, como barreira natural entre o sul e o centro da américa, e a própria gigante Panamericana (que corre caminho da Patagónia ao Alaska) se interrompe perante ele, selva maciça, buraco-negro e terra-de-ninguém, alto e pára o baile, apenas retomando a rota do outro lado, já no Panamá. A única forma de, pé aqui, pé ali, à beirinha d'água e nas pontinhas dos dedos, nos irmos encostando ao norte colombiano e passarmos ao Panamá sem nos atirarmos de corpo à água é indo de lancha em canoa e canoa em barqueta por estes pontinhos de vida, entre parêntesis da selva de Darién - única razão, aliás, pela qual Capurganá e Sapzurro constam do mapa - de alguns mapas. A viagem desde Turbo parece dirigida a terra de aquém, além e nenhum-mar, e o próprio Darién salta mar-adentro e emerge num ou outro ilhéu a pique, densíssimo também. Dir-se-ia que nos adentramos em terra de jurassik park.
Na curva, espreitam as raríssimas vilas de calças arregaçadas, aglomerados de poucas casas e muitas famílias. As casas são de madeira velha e desbotada - da mesma madeira dos barcos -, como os seus cais e o pouco mais. Estão perdidas do mundo, atiradas naqueles recantos irrelembrados, mas cheiram a caribe-puro: têm boas cores (com muitas demãos) e bom peixe, ressoam as conversas dos alpendres, o mar é transparente, e a praia acaba em cocos e selva e não dunas. Os cavalos e as carroças são poucos e cruzam a praia onde esticamos as pernas, e os únicos fatos-de-banho existentes são os nossos, porque quem tem calor se atira ao mar como saiu de casa, e dele assim sai e seca.
Só se destacam as fardas camufladas: pela sua localização, Capurganá e Sapzurro têm quartéis e seus destacamentos militares, e a presença de soldados nas ruas, nos cafés, na praia, na tasca a ver Colombia jogar ou no cais a fumar um cigarro com os pescadores locais, é tão natural como a dos caranguejos na praia ou dos sapos nas esquinas das ruas e das casas - que os tráficos, as máfias e as guerrilhas dominavam a zona antes da sua apaziguação. Bocados de uma história demasiado complicada.
Os nossos dias nestes pedaços de terra têm mais gozo que estórias, e foram passados entre o mergulhar no mar (que é morno) e o balançar na rede (que é coçada e sinónimo de felicidade): de noite cozinhávamos arrozes vários, para economia do agregado (cenoura aos pedaÇos, cenoura às tiras, cenoura frita, estufada, cozida e crua, que o mais eram cebolas e o barco com as verduras só voltava a passar daí a uma semana), deitávamos os sonos da mesma rede do dia balançado, éramos devorados por mosquitos, formigas, aranhas voadoras e chitras várias, e morríamos de calor à fogueira acendida para compensar a ausência de electricidade diária, provocada pelas nocturnas e recorrentes tempestades (com direito a raios tao fortes que despiam toda a aldeia). Porque jantávamos às sete e nos deitávamos pouco depois, as manhãs acordavam-nos às seis, para mais do mesmo: rede, mar, areia, arroz, mar, rede, sol, rede, cerveja, rede, boa noite querido.  







 

martes, 25 de septiembre de 2012

Turbo e Mar'adentro

Não, não, nada de rápidas, que isto deve ser tão gozado quanto os gozadíssimos passos, e tão partilhado quanto possível com as alminhas que levo penduradas ao pescoço. Vamos com calma.


(espreguiça)

A chegada ao Caribe foi a chegada a Turbo, cidade descrita na literatura do género (cito saudoso N.) como uma cidade suja, caótica e perigosa. A verdade é que a nossa chegada podia servir de cena inaugural a um filme de gangsters de fraca qualidade. O autocarro, que devia ter chegado a umas seguras sete da manhã (hora condigna onde o sol já vai alto e todos os perigos ilumina), atirou-nos porta fora às ainda escuras cinco. Os primeiros segundos foram deliciosos: o autocarro a afastar-se, e nós ainda atordoados, aqui?, com esta pinta?, onde estamos? A rua sombria, a noite ainda cerrada, e o ambiente era o do cais do sodré a más horas, antes da era rosa e pensãoamor. Os vultos iam surgindo das esquinas, cambaleantes (para nós,  os vultos, para os vultos, as esquinas), e as vozes eram atabalhoadas e em jerga. Da tarde para a madrugada, passámos de uma nostálgica vila colonial de cavalos e velhos semeados na sombra das árvores para uma cidade semi-urbana, caribenha e rufia. A noite era ainda ébria e não-ressacada, apenas povoada por homens gingões e poucas mulheres de má vida (noto que as cidades de cais têm esta tendência de vestir um ambiente boémiodecadente). Bem-vindos a Turbo! Nada para ver e uma barqueta para apanhar às oito da manhã. Como tínhamos fome de café, e porque não dava senão para mergulhar a espera naquele submundo, aproximámo-nos do carrinho de mão fumegante que acabava de virar a esquina: dois tintos, mochilas no chão, rabos no asfalto, e aí esperámos as voltas do relógio, vigilando divertidos as bebedeiras e os olhares desconfiados da cidade.
Carrinho fumegante

Quatro tintos depois, passadas as bebedeiras e nascido o sol, lá percorremos os 4 quarteirões até ao porto (que um jovem alcoolizado ainda tentou, pouco convincente, levar-nos na sua mota, eu, ele, o rodolfo e as duas mochilas tamanho-humano, por uma quantia "simbólica"), e lá percebemos a chegada ao Caribe. 
O Caribe: os locais são mestiços, mulatos ou retintos. Os homens andam de camisa aberta e as mulheres rebolam. As conversas têm mais descaro, as gargalhadas são mais estridentes e gritam mais soltas, os piropos também, as cores ressaltam mais à vista, mesmo que desbotadas. Pessoalmente, distraio-me com os cabelos delas: os entrançados, os enlaçados, os caracois deixados soltos, os matagais sempre-em-pé, as vaidades esticadas, as bolas enroladas no alto da cabeça com falta de pachorra para as voltas. Deles, prendo-me nas conversas e nos gestos: as piadas em voz alta, as gargalhadas partilhadas com o mundo, coça a barriga, boca aberta, dentes alvíssimos, tez pretoazul. Os olhos enormes, os mil tons de preto, castanho, café com leite, mais café, mais leite, as peles lisas, tesas, os rabos redondos, os traços perfeitos. 
E depois, entrámos no caos do cais, que eu tanto gosto. Vai pássaro, vem família, vai corda, vem homem, vai café, vem saco. Grita, corre, senta, espreguiça. Parte, chega, pesa, pousa. O porto cheio de albatrozes, pássaros gigantes meio bicho meio bico que não podem fitar os pés sem esventrar o próprio peito ou partir o bico no chão, dependendo da agilidade de cada um. Os barcos todos de madeira pintada, com nome de mulher ou de reza.

Cidade de Cais

Meio bicho meio bico

Finalmente, com quatro horas de atraso, partimos - uma lancha velha semi-madeira com motor de tractor; e como nos divertimos! Depois de duas voltas atrás dentro-dágua porque (i) nos esquecemos de uma família em terra e (ii) nos esquecemos do combustível, ah!, afinal não, lançámo-nos ao mar em alta velocidade e não imaginam!, a velha barqueta saltava-voava rente à água, e nós do banco, como uma montanha russa, pás!, pás!, pás!, a velha lancha pronta para as curvas, nós surpreendidos, e a velocidade a obrigar o barco a saltar por cima das ondas sem furar. A linha da costa que seguimos era de selva a pique mar-adentro, densíssima e pás!, mergulhava sem espaço a areias ou intermédios, mergulhava de cabeça, e o barco aos saltos, pás!, pás!, pás!, e eu só pensava que se os meus irmãos estivessem ali, se estariam desmanchando a rir como eu, o barco ia aos saltos de estupidez, pás!, pás!, a velha senhora atrás de mim ia agarrada a banco, mas o banco era uma tábua solta e também saltava, um salto demasiado alto lá magoava a bunda, as mochilas e as maletas lá à frente saltavam também e quase acabavam no fundo-mar, mas eu continuava a rir a bandeiras despregadas como se tivesse seis anos. Três horas nisto! Não me divertia assim há muito tempo. Eventualmente, a linha da costa fez uma curva, e ali rés-vés ao Panamá, chegámos a um vilarejo chamado Capurganá.



viernes, 14 de septiembre de 2012

Rápidas a cores (zona cafetera)

 Pensão em Salento (zona cafetera)

Salento (madeiras velhas-não-gastas)

Don Elias e o golias (cinco anos depois)

Manizales também se pendura em corda

Café-de-todos-os-dias

Mais zona cafeteira - Santa Fé de Antioquia

Santa Fé ou é possível morrer de calor

Almoço do dia 
(não, não é leite, é sumo de guanabana, a ver se me passam as maleitas,
que eu cá acredito em quase tudo)

jueves, 13 de septiembre de 2012

Rápidas (de uma subida tomada com tempo)

Rápidas.
O comboio a vapor a rasgar a cidade-alta em dois, empurrado pelos adeus de todo-homem. O assado na finca, a família-toda, e nós mordendo maçarocas de milho tiradas do carvão ao sol. O bando de musica animando a tarde de todo-colombiano - os ritmos novos, o vallenato, o porro, a cumbia, o fandango, os outros, e as timidezes despidas a dançar. A carripana que falhou no regresso e o frio dos oito bravos abraçados por necessidade na caixa aberta por três horas de estrada e de noite e de frio. Gargalhadíssimo, tudo.
E depois, comprámos o mapa de estradas da Colombia, partida, lagarta, fomos. Com um telemóvel barato no bolso desenrascado pela família Bravo, por si cualquier cosa.
Salento, e a praça ainda fresca na memória: as varandas coloniais, as madeiras velhas mas não gastas, as cores repintadas com boa intenção, o café fumegante e o Don Elías que apenas subtilmente acusa os anos que passaram, eu reconheço-o, ele reconhece-me, e a casa continua acolhedora, e a caminhada montanhacima custou tanto como dantes e não mais. Manizales salganhada de esculturas e livros e teatro e dança, terra-festivais compensando a graça que parece ter caído montanha-abaixo. Santa Fé chegada com a noite, a feira na praça - as praças são os corações palpitantes destas terras -, a imagem de uma Colombia afinal demarcada das paredes de concreto, os ombros descalços, os chapéus de ráfia, a aguardente, o café, as plantações, as cores, as varandas de madeira (velha, não gasta), as ventoinhas e as portas abertas à rua. O festival anual de fotografia, e a dormida desenrascada no piso de cima do salão de bilhar do pueblo, os velhos sábios e eu única-mulher, a música popular e o chocar das bolas de abrir o jogo, a banda sonora das noites no quarto sem tecto. 

A chegada madrugada a Turbo, pueblo decadente e desbotado-colorido onde encontraríamos todas as peles que são mulatas e negras e azuis, e que todos riem e cantam e dançam falando e as miúdas são belas e as mulheres rebolam e gargalham, o café das cinco da manhã no carrinho da esquina com os restos humanos da noite de rumba, o porto de madeira e os albatrozes gigantes a fazer as vezes das gaivotas. 
Aqui apanharíamos o barco e chegaríamos de uma subida norte acima, tomada com tempo e com gozo. A  Capurganá. 

jueves, 6 de septiembre de 2012

Soltas em Bogotá (e arredores)

O primeiro dia em Bogotá: cinco anos depois, regressando à mesmíssima mão de Botero (aparentemente, ainda com um ar civilizado, mas realmente só porque não se vê da cintura-para-baixo)

Tectos-de-corda

Bogotá-afinal-a-baixa

"Couvert"do menu do dia, num qualquer tasco de uma qualquer esquina.

Bogotá-ainda-baixa

São cabos, senhor, são cabos.

Frutas estranhíssimas com faculdades curativas

Pequeno-almoço ligeiro, porque o comboio sai em 20 minutos e-nem-tempo-há-para-comer-um-caldinho (falta o sumo de guanabana e uma fruta alaranjada em pedaços cujo nome não consegui aprender)

A ternurenta abuelita, em insistente preparação do segundo almoço do dia (tarde terrível).

A Catarina a preparar-se para uma tarde terrível de azia (enquanto a abuelita atrás cozinha mais patacon).

miércoles, 5 de septiembre de 2012

uno se da cuenta (da Humanidade)

Uno se da cuenta de que os Homens são iguais em qualquer parte do mundo,

quando o comboio passa e todos dizem adeus.

lunes, 3 de septiembre de 2012

Bogotá-a-alta

Bogotá-a-alta 
(oferecida-toda a Montserrate, num raro rasgo de sol)  




Bogotá-Cidade

Não sei explicar Bogotá.
É confusa. É caótica. É gigante.
Podia lançar mão do lugar comum que se estranha e se entranha, mas também não se aplica e Bogotá-a-alta é mais difícil do que comer chinchuyos mal fritos (que são intestinos de vaca e se chamam chinchulines na argentina) ou acabar com todos os elementos que nos pousam à mesa ao pequeno-almoço (cumulativamente e por ordem cronológica, tinto, leite com chocolate, sumo de guanabana ou lulo ou outro, caldo de carne e batata, tamal com milho, que é um naco de coisa embrulhada em folha de árvore de banana, mantecada, fruta em pedaços que pode ser lulo ou manga ou  outra, ovos, batata cozida e pão com manteiga): é preciso um esforço.
As ruas são geométricas e têm números e não nomes, e a cidade organiza-se em calles (que significa rua) e carreras (que significa rua), que correm norte-sul e este-oeste, respectivamente ou vice-versa. As moradas são rua 53 e rua 75, o que, para alguém que não consegue fixar qual vem da montanha e qual lhe corre paralela (calle? carrera?), pode levar a dois pontos distintos (e bem longínquos) no tabuleiro.  
O Rodolfo é destes que sabe sempre onde está o norte, e assim se orienta. Eu? Eu perco-me. Deixem-me, então, explicar-vos a cidade à minha maneira. 
Bogotá corre, quase toda ela, ao nível do chão: as casas são baixas e as ruas simples, e a sensação constante é a de que estamos quase a chegar a algum lugar. Os bairros são de cimento e tijolo, a maior parte deles não pintados, e as ruas são coroadas por emaranhados de cabos e telhados de chapa, que lhe emprestam um falso ar clandestino. Andar cinquenta quarteirões significa não sair da mesma mancha-bairro no mapa (que em número deve rondar o duzentos e muitos), e a resposta está cerca, como diez minutos tem sempre implícita a utilização de carro. Que, já que estamos, só pode sair nos dias pares, por ter matrícula par, assim se controlando (?) o caos do trânsito bogotano. Centro? A cidade tem muitos centros, diz a Mariann. A cidade é, de facto, dispersa, o que facilita a desorientação apesar da sua matemática. Até que uno se acostumbre (é isto o entranhar?), o cenário permanente lembra um subúrbio pobre - que, na verdade, nem é subúrbio nem é necessariamente pobre.
Ao canto, a velhinha Candelaria - a alfama colonial, único bairro mencionado nos guias, facto caricato e simplório, porque a Candelaria corresponde a um dedo pouco indicativo do gigante-Bogotá - é esmagada pela imensidão da cidade-real, que na rua se move e se apura e borbulha em movimento e comércio de bairro em todos os bairros. Lojas, oficinas, armazéns, bancas, carrinhos, caravanas e estantes improvisadas compram e vendem tudo o que se possa imaginar por toda a cidade (já disse que era enorme?): jarros, alguidares, de plástico, de ferro, parafusos, colchas, caixas de fruta, com e sem fruta, fotocópias, minutos de telemóvel, peças de carro, peças de máquina de lavar, peças generalistas, pneus, portas, cabeceiras de cama, toalhas (lisas, padrão ou fantasia), molduras com vidro, molduras sem vidro, vidro para molduras, pêra-abacate com sal, chapéus, tinto. Correm a cidade bicicletas com fruta, carrinhos com brinquedos, camiões velhinhos com vigas e bobinas, peões com todo-tipo de safa-tostões. Es que acá en Bogotá el comercio es como, pues, muy informal. Qualquer coisa que se precise ou nem se imagine necessária se encontra nas ruas de Bogotá, como num gigante mercado de rua. 
Bogotá-inquieta é também Bogotá-a-alta, porque repousa num planalto a 2600 (!) metros de altitude e não tem estações do ano, mas apenas fresco, frio ou muito frio, e nasce entre morros, colada à montanha do santuário de Montserrate. Do alto dos seus 3200 (?) metros se ganha compreensão da cidade que não acaba e corre rasteira, perdendo-se, no entanto, em intimidade, pois se entende que não é possível.
Ainda assim, o Alejandro, a Diana e toda a família Bravo nos apresentam todos os dias Bogotá-vida, Bogotá-diária e Bogotá-íntima, com seus humedales escondidos (pântanos de estranha tranquilidade que salpicam a cidade), seus refeitórios que servem, com o menu do dia, a sopita del dia e pratos obscenos de fruta como entrada, seus verdadeiros subúrbios, que trepam montanha acima onde Montserrate já não vê.
Bogotá pede um esforço. Não entranha fácil.
Mas voltando a descer do santuário (e talvez porque vou já na segunda volta), uno começa a sentir simpatia pelos cantos e pelos emaranhados de fios, pelos tectos baixos e pelas ruas-vielas. Claro: que a cidade esteja cheia de colombianos ajuda a que uno se encante.