Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


miércoles, 26 de septiembre de 2012

Capurganando

Sem rodeios: o caribe é delicioso. As praias até poderiam não impressionar quem tem portinhos na arrábida, caparicas na costa e arrifanas a estibordo; mas impressionam barbaramente. E ainda assim (um abraço, jovem momo), o jeitinho caribeño repousa mais na ginga das suas vozes que na cor do seu mar, que despe os fundos e os peixes à transparência e sem pudor algum.
Capurgá e Sapzurro são dois vilarejos muito caribeños. Aparecem de repente na curva do quase-panamá, salpicando a costa, e parecem ter sido fundados à mão e do avesso, a partir do mar, porque estão em bicos dos pés à beira-mar, empurrados e rodeados por densa selva onde barco não aporta e alma não sai, porque aí está o início do Darién, o impenetrável. O buraco de Darién (ou, dito com mais credibilidae, o Darién Gap) cai aí, enquanto não acaba a Colombia e não começa o Panamá, como barreira natural entre o sul e o centro da américa, e a própria gigante Panamericana (que corre caminho da Patagónia ao Alaska) se interrompe perante ele, selva maciça, buraco-negro e terra-de-ninguém, alto e pára o baile, apenas retomando a rota do outro lado, já no Panamá. A única forma de, pé aqui, pé ali, à beirinha d'água e nas pontinhas dos dedos, nos irmos encostando ao norte colombiano e passarmos ao Panamá sem nos atirarmos de corpo à água é indo de lancha em canoa e canoa em barqueta por estes pontinhos de vida, entre parêntesis da selva de Darién - única razão, aliás, pela qual Capurganá e Sapzurro constam do mapa - de alguns mapas. A viagem desde Turbo parece dirigida a terra de aquém, além e nenhum-mar, e o próprio Darién salta mar-adentro e emerge num ou outro ilhéu a pique, densíssimo também. Dir-se-ia que nos adentramos em terra de jurassik park.
Na curva, espreitam as raríssimas vilas de calças arregaçadas, aglomerados de poucas casas e muitas famílias. As casas são de madeira velha e desbotada - da mesma madeira dos barcos -, como os seus cais e o pouco mais. Estão perdidas do mundo, atiradas naqueles recantos irrelembrados, mas cheiram a caribe-puro: têm boas cores (com muitas demãos) e bom peixe, ressoam as conversas dos alpendres, o mar é transparente, e a praia acaba em cocos e selva e não dunas. Os cavalos e as carroças são poucos e cruzam a praia onde esticamos as pernas, e os únicos fatos-de-banho existentes são os nossos, porque quem tem calor se atira ao mar como saiu de casa, e dele assim sai e seca.
Só se destacam as fardas camufladas: pela sua localização, Capurganá e Sapzurro têm quartéis e seus destacamentos militares, e a presença de soldados nas ruas, nos cafés, na praia, na tasca a ver Colombia jogar ou no cais a fumar um cigarro com os pescadores locais, é tão natural como a dos caranguejos na praia ou dos sapos nas esquinas das ruas e das casas - que os tráficos, as máfias e as guerrilhas dominavam a zona antes da sua apaziguação. Bocados de uma história demasiado complicada.
Os nossos dias nestes pedaços de terra têm mais gozo que estórias, e foram passados entre o mergulhar no mar (que é morno) e o balançar na rede (que é coçada e sinónimo de felicidade): de noite cozinhávamos arrozes vários, para economia do agregado (cenoura aos pedaÇos, cenoura às tiras, cenoura frita, estufada, cozida e crua, que o mais eram cebolas e o barco com as verduras só voltava a passar daí a uma semana), deitávamos os sonos da mesma rede do dia balançado, éramos devorados por mosquitos, formigas, aranhas voadoras e chitras várias, e morríamos de calor à fogueira acendida para compensar a ausência de electricidade diária, provocada pelas nocturnas e recorrentes tempestades (com direito a raios tao fortes que despiam toda a aldeia). Porque jantávamos às sete e nos deitávamos pouco depois, as manhãs acordavam-nos às seis, para mais do mesmo: rede, mar, areia, arroz, mar, rede, sol, rede, cerveja, rede, boa noite querido.  







 

3 comentarios:

Pedro Malaquias dijo...

Estava tudo muito bonito até meteres uma foto dos teus pés. Acabaste de afastar milhares de potenciais leitores.

Anónimo dijo...

E o Rodofolfo a rugir também não melhora a situação!

Madalena dijo...

Já és imune às chitras?? (já devias ser, depois do último encontro que tiveste com elas);)
Adoro as fotografias, as cores e as descrições! AMO!
Saudades dos dois!
Tenho que me sentar e escrever um mail mais composto!
Uma veijoca e continuação de boas aventuras!