Não sei explicar Bogotá.
É confusa. É caótica. É gigante.
Podia lançar mão do lugar comum que se estranha e se entranha, mas também não se aplica e Bogotá-a-alta é mais difícil do que comer chinchuyos mal fritos (que são intestinos de vaca e se chamam chinchulines na argentina) ou acabar com todos os elementos que nos pousam à mesa ao pequeno-almoço (cumulativamente e por ordem cronológica, tinto, leite com chocolate, sumo de guanabana ou lulo ou outro, caldo de carne e batata, tamal com milho, que é um naco de coisa embrulhada em folha de árvore de banana, mantecada, fruta em pedaços que pode ser lulo ou manga ou outra, ovos, batata cozida e pão com manteiga): é preciso um esforço.
As ruas são geométricas e têm números e não nomes, e a cidade organiza-se em calles (que significa rua) e carreras (que significa rua), que correm norte-sul e este-oeste, respectivamente ou vice-versa. As moradas são rua 53 e rua 75, o que, para alguém que não consegue fixar qual vem da montanha e qual lhe corre paralela (calle? carrera?), pode levar a dois pontos distintos (e bem longínquos) no tabuleiro.
O Rodolfo é destes que sabe sempre onde está o norte, e assim se orienta. Eu? Eu perco-me. Deixem-me, então, explicar-vos a cidade à minha maneira.
Bogotá corre, quase toda ela, ao nível do chão: as casas são baixas e as ruas simples, e a sensação constante é a de que estamos quase a chegar a algum lugar. Os bairros são de cimento e tijolo, a maior parte deles não pintados, e as ruas são coroadas por emaranhados de cabos e telhados de chapa, que lhe emprestam um falso ar clandestino. Andar cinquenta quarteirões significa não sair da mesma mancha-bairro no mapa (que em número deve rondar o duzentos e muitos), e a resposta
está cerca, como diez minutos tem sempre implícita a utilização de carro. Que, já que estamos, só pode sair nos dias pares, por ter matrícula par, assim se controlando (?) o caos do trânsito bogotano. Centro? A cidade tem muitos centros, diz a Mariann. A cidade é, de facto, dispersa, o que facilita a desorientação apesar da sua matemática. Até que uno se acostumbre (é isto o entranhar?), o cenário permanente lembra um subúrbio pobre - que, na verdade, nem é subúrbio nem é necessariamente pobre.
Ao canto, a velhinha Candelaria - a alfama colonial, único bairro mencionado nos guias, facto caricato e simplório, porque a Candelaria corresponde a um dedo pouco indicativo do gigante-Bogotá - é esmagada pela imensidão da cidade-real, que na rua se move e se apura e borbulha em movimento e comércio de bairro em todos os bairros. Lojas, oficinas, armazéns, bancas, carrinhos, caravanas e estantes improvisadas compram e vendem tudo o que se possa imaginar por toda a cidade (já disse que era enorme?): jarros, alguidares, de plástico, de ferro, parafusos, colchas, caixas de fruta, com e sem fruta, fotocópias, minutos de telemóvel, peças de carro, peças de máquina de lavar, peças generalistas, pneus, portas, cabeceiras de cama, toalhas (lisas, padrão ou fantasia), molduras com vidro, molduras sem vidro, vidro para molduras, pêra-abacate com sal, chapéus, tinto. Correm a cidade bicicletas com fruta, carrinhos com brinquedos, camiões velhinhos com vigas e bobinas, peões com todo-tipo de safa-tostões. Es que acá en Bogotá el comercio es como, pues, muy informal. Qualquer coisa que se precise ou nem se imagine necessária se encontra nas ruas de Bogotá, como num gigante mercado de rua.
Bogotá-inquieta é também Bogotá-a-alta, porque repousa num planalto a 2600 (!) metros de altitude e não tem estações do ano, mas apenas fresco, frio ou muito frio, e nasce entre morros, colada à montanha do santuário de Montserrate. Do alto dos seus 3200 (?) metros se ganha compreensão da cidade que não acaba e corre rasteira, perdendo-se, no entanto, em intimidade, pois se entende que não é possível.
Ainda assim, o Alejandro, a Diana e toda a família Bravo nos apresentam todos os dias Bogotá-vida, Bogotá-diária e Bogotá-íntima, com seus humedales escondidos (pântanos de estranha tranquilidade que salpicam a cidade), seus refeitórios que servem, com o menu do dia, a sopita del dia e pratos obscenos de fruta como entrada, seus verdadeiros subúrbios, que trepam montanha acima onde Montserrate já não vê.
Bogotá pede um esforço. Não entranha fácil.
Mas voltando a descer do santuário (e talvez porque vou já na segunda volta), uno começa a sentir simpatia pelos cantos e pelos emaranhados de fios, pelos tectos baixos e pelas ruas-vielas. Claro: que a cidade esteja cheia de colombianos ajuda a que uno se encante.
1 comentario:
...gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos de fogo do verão, aos barcos no vento; gosto das palavras lisas como seixos, rugosas com o pão de centeio.´Eúgenio Andrade
Lembro-me do tão querido Eugénio de Andrade quando leio as tuas crónicas. Um abraço apertado
mãe rivotti
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