Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


lunes, 22 de octubre de 2012

Uno se da cuenta (de las Equivocaciones)

Uno se da cuenta de que está na área errada quando ao fim de 6 dias percebe que, se já tivesse papéis, estaria trabalhando em 6 restaurantes ou bares de renome e boa propina.

Parece que, no mundo da restauração e do avental, sou um charme.

Damn it!

Uno se da cuenta (Das Certezas)

Uno se da cuenta de que está no sítio certo quando o plano de conferências de uma semana comum na Facultad de Derecho da UBA é o seguinte:

Jueves 18 de octubre de 2012 a las 18.30 hs. en el Salón Rojo, Facultad de Derecho (UBA)
Jan Sokol "¿Son naturales los derechos humanos?"
Jan Sokol es uno de los “Padres Fundadores” de la República Checa. Fue uno de los primeros firmantes de la Carta 77 –que solicitó al gobierno el cumplimiento de la Declaración Universal de Derechos Humanos– e integró el grupo redactor de la Constitución Nacional al regreso a la democracia. Fue Vicepresidente de la Asamblea Nacional, Diputado, Ministro de Educación, Titular de la Delegación Permanente al Consejo de Europa y candidato a Presidente por el Partido Social Demócrata de Vaclav Havel y Thomas Masaryk.
Si bien de joven no se le permitió estudiar, Sokol obtuvo dos doctorados en filosofía sistemática – uno en 1993 y otro en 1996. En 2000 fue designado Profesor Titular de Filosofía y Antropología Filosófica y Decano de la Facultad de Humanidades de la Universidad Carolina de Praga, cargos que ejerció hasta 2007. En 2008 fue nombrado Senior Fellow en el Centro de Estudios sobre las Religiones en el Mundo de la Universidad de Harvard, donde dictó clases sobre religión, ética y derechos humanos.
La conferencia se realizará en inglés, con traducción simultánea.
No se requiere inscripción previa. Entrada libre y gratuita.

Viernes 19 de octubre de 2012 a las 19 hs. en el Salón Azul, Facultad de Derecho (UBA)
Misael Tirado "Reclutamiento de niños, niñas y adolescentes en el conflicto armado en Colombia (una visión socio-jurídica)"
Dr. Misael Tirado Acero: Sociólogo (Universidad Nacional de Colombia); Doctor en Sociología Jurídica e Instituciones Políticas (Universidad Externado de Colombia); Profesor y Director del Centro de Investigaciones de la Universidad Santo Tomás (Bogotá, Colombia); Consultor de la Presidencia de la República de Colombia y de las Naciones Unidas.
No se requiere inscripción previa. Entrada libre y gratuita.


Lunes 22 de octubre de 2012 a las 18.30 hs. en el Salón Rojo, Facultad de Derecho (UBA)
"Trata de personas: esclavitud en el siglo XXI"
Disertaciones y expositores:
La Trata de Personas como una forma de esclavitud: Mercedes Assorati (Esclavitud 0)
Trata Laboral en Argentina: Dr. Mario Ganora (Defensoría del Pueblo de la Ciudad de Buenos Aires)
La Trata como un problema de Género: Dra. Laura Balart (a confirmar) (Oficina de la Mujer de la Corte Suprema de Justicia de la Nación)
La Situación de la Trata en Argentina: Dr. Marcelo Colombo (UFASE - Unidad Fiscal Asistencia en Secuestros Extorsivos y Trata de Personas)
Entrada Libre y Gratuita

Jueves 1 de noviembre, a las 18 hs., en el Salón Rojo de la Facultad de Derecho (UBA)
Conferencia Magistral - “Algunas libertades civiles que he conocido”
Norman Dorsen (Frederick I. and Grace A. Stokes Professor of Law, NYU)Norman Dorsen es profesor de derecho constitucional en la New York University. En 1954, Dorsen formó parte del equipo jurídico del Ejército de Estados Unidos que se enfrentó con el Senador Joseph McCarthy en una serie de históricas audiencias televisadas. Entre 1969 y 1976 fue asesor jurídico de la American Civil Liberties Union (ACLU), y como tal, argumentó una serie de casos emblemáticos ante la Corte Suprema de los Estados Unidos – entre ellos, Gault (debido proceso de menores), Levy (igualdad de hijos extramatrimoniales) y Vuitch (aborto). En 1976 fue designado presidente de ACLU, cargo que ejerció hasta 1991.
La conferencia se realizará en inglés, con traducción simultánea.
Entrada Libre y Gratuita

Martes 17 de octubre, a las 12h, en el living de la casa de Tomas, en Palermo
"Buscás trabajo de abogado? Hay mucho, pero de ultima, mientras no encontrás, buscate algo en derechos humanos, es lo que más hay."

Um ponto para a Catarina.

miércoles, 17 de octubre de 2012

Emigrantes

Não sei como contar o que vos passarei a comunicar...  
O Rodolfo disse-me, uma manhã; acho que temos de ir andando, e eu não posso negar certos espasmos histérico-ansiosos - mas já?mas como?mas de certeza? O peito saltou, o sangue ferveu, borboletas-como-dinossauros-em-ácidos no estômago. 
Escusava de me explicar, que os processos de recrutamento espreitavam já, que no verão não ia acontecer nada e que a emigração, dado assente, deveria ser encarada.

Ai ai ai ai ai, pensei eu em calças rotas e t-shirt de publicidade XL recortada em coisa maneirinha, o turbante na cabeça e uma pinta muito pouco civilizada para habitar cidade em modo sem-mochila!

A coisa já fervilhava e nos esperava e nos chamava. A coisa virou sereia urgente, e com urgências nos foi atirando iscos. A coisa estava aí.

E antecipámos a coisa.
Arrumámos a mochilas, contámos os pares de meias (eu tenho 3, e tu?), comprámos uns jeans de fraca qualidade e a bom preço para compor a figura, e fomos. A BUENOS AIRES, dios mio!

Caros: cheguei a Buenos Aires dia 11 de Outubro (nem de propósito!), a umas seis de manhã amanhecida com sol e mediaslunas. 
E ai!, por mais que me saibam, não se imagina a luz da minha cara! Nem a morada errada que levava da Paula, nem o facto de, entrenervos, lhe ter dito que chegava na sexta e não na quinta, nem nada, nada; o estado ansiolítico rapidamente se tornou em alma, vontade, sorriso pateta mirando la ciudad acabada de acordar. 

AQUI ESTOU. Para o que vier, retorno a esta maravilhosa cidade, para a viver e a gozar com mais tempo, mais calma, mais ânimo. Mais saudades de Casa, também, e por isso mesmo, mais certeza de que  vim bater a uma porta certa - pois se ainda assim, aqui quero estar.

Emigrantes, oficialmente.
Acho que acabei de desmaiar de nervoseuforia.

jueves, 11 de octubre de 2012

Era uma vez a Colombia

Há história difíceis de contar, e a da Colombia é uma delas.
A Colombia (minha Tierra querida) é mãe de um povo que amo, povo-família, povo-casa, senhor de uma amabilidade inigualável e gentileza sem fim, a la orden, que le vaya bien, como amaneció?, muy gentil, para servirle, senhora?, que dios la bendiga.
Dentro desse povo está a boa alma de um Amigo que me dedicou uma amizade e uma ternura sem limites nem compreensão, parida em jeito precoce com poucos meses de gestação, e aquecida à distância com mais pensamentos que palavras, mais rezas que conversas e mais coração que café.
Dentro deste povo estão as almas de todos os membros desta família-casa, de todas as famílias-casas, a avó que nos responde ao milésimo gracias do dia com um apaziguador tranquiiiiila encolhido nos ombros, a diana que põe a cafeteira ao lume assim que nos ouve os passos matinais no andar de cima, a família bravo-pacheco que abre espaço à mesa de qualquer-hora, o alejandro que nos acompanha todas as ruas e todas as conversas, os jantares de família que nos acolhem sem timidez, a mãe do juan que me cumprimenta e não me larga a mão, si se acorda de mi?, a mãe da mariann que me deseja várias vezes a cura e que me olha como se mergulhasse em mim adentro, os irmãos, os primos, os tios, os amigos, de um lado, do outro, às avessas.
Dentro deste povo estão todas as almas anónimas que se adentram na viagem de uno. Não pude completar uma viagem de autocarro, barco, lancha, canoa, pés, sem conversa puxada pelo ser do lado, pergunta, curiosidade, en serio?, interesse; e há uma certa inocência na facilidade com que soltam as indagações interiores em voz alta, sem timidezes nem falsos pudores.
Mas em todas estas almas, também reconheço outras histórias, partes daquela História que é demasiado complicada. É que dentro deste povo, também há uma história difícil, convivida a diário e em modo actual, mostrada nos jornais, nos testemunhos, nas primeiras e mais óbvias perguntas estrangeiras. 
A violência da história colombiana - do narcotráfico, das guerrilhas, dos grupos paramilitares, do exército, das tentativas de pacificação mais violentas que o próprio soneto - é devastadora por dentro e perseguida com o olhar por fora, e marca como sangue pisado a alma do povo querido.
Bastaria contar a história da Luisa, colombiana emigrada aos states (como mil outros peregrinos do american dream, de que os próprios irmão da mariann são exemplo) e regressada à terra-mãe, que teve de mudar de distrito para que a filha - que falava inglês nativo e chamava a atenção - não fosse recrutada à força pelos paramilitares, como uma boa aquisição; as amigas da Luisa disseram-lhe, um dia: "Luisa, mejor que se vaya". E a Luisa foi.
Bastaria contar a história do guerrero de dios, velhinho terno e encarnecido que conheci numa hospedagem familiar em Cartagena, de faces tatuadas com manchas azuis de prisão e discurso meigo e empático, mais tarde confessado paranóico e vigilante, dados os 18 anos de comando superior de um grupo de paramilitares (YO apazigué Cartagena), de uma vida vivida na selva (no puedo dormir en la cama, me duermo en el suelo, qual patriarca do marquez), e de 12 anos de prisão por massacre (massacre, dito sem expressão); o mesmo velho senhor que tinha ataques de ansiedade e suores frios de quando em quando, e que me abraçou na despedida e me desejou mil graças com as mãos apertadas.
Em Cartagena, vimos três exposições de crudíssima fotografia sobre os refugiados internos e sobre as aldeias sobreviventes sob ameaça múltipla. Nos jornais, todos os dias correm a tinta as notícias sobre os quase-acordos de paz, o quase-fim, as quase-negociações. Nos tribunais, começaram a ser reivindicadas as devoluções dos terrenos expropriados pelos grupos armados nos últimos muitos-anos.
O problema ainda existe? Claro que sim (e posso dizer isto agora, sã e salva das leoas da familia).

Mas continua a não ser essa a história que quero contar. A Colombia é, acima de tudo, família, casa, pão, amor. É uma terra amável para os que lhe são estranhos, que os recebe e os acolhe à mesa, com humildade, com curiosidade, com humanidade. É uma terra onde se dança a dois, e onde se ensina a dançar quem troca os pés, um lugar que conjuga no mesmo espaço a selva amazónica, os picos nevados, as terras coloniais, as cidades-metálicas, o caribe e a montanha; os pretos, os brancos, os assim-assim, os índios, os mestiços, os retintos e os indistintos. A Colombia é surpreendente, mesmo da segunda vez.

Saio da Colombia - sim, sim, saio da Colombia (para onde?, já verão) - como sempre, a custo. Cheia de amor e de respeito e de admiração por esta tierra querida e por este povo extraordinário.
A história complicada, a seu tempo, se resolverá. Assim espero.

El riesgo es que te quieras quedar.
(video oficial)

jueves, 4 de octubre de 2012

Cartagena a Magnífica

Cartagena de Indias.
Depois de uma aventura (pouco) gozada no veleiro, encostámos amarras no cais clandestino de um bairro de lata e zinco, e apanhámos uma lancha até à Cidade: depois de muitas horas em estado de semi-desidratação (que a água também se vomita, descobriram alguns) e pele estufada, mais uma estupidez de voa-saltos que nos deixou, por fim, na praia suja de Boca Grande, encharcados até aos ossos, gargalhando nossas caricatas figuras. Espremidos e retorcidos, a segunda ironia da tarde chegada foi perceber que os pés em terra firme, ao fim de dois dias em dança-balança, também enjoam. Várias horas passariam até que pudéssemos recuperar a estabilidade própria da alma e do ânimo.

Cartagena de Indias. Continua extraordinária. Exótica, caprichosa, decadente, magnífica.
Lembro-me de ter lido há uns anos qualquer coisa sobre o sexo das cidades, e de como a sua arquitectura, as suas linhas e a cadência nelas gerada, as definiam como cidades masculinas, viris, energéticas ou femininas, sensuais, misteriosas. Não me lembro do caminho teórico, mas Cartagena é, definitivamente, uma mulher de botero: exuberante e debochada.
A cidade amuralhada repousa lad'a'lado com a zona moderna, em irrepetível exagero e harmonia - como dois tons estridentes que se condizem, duas notas altas de uma ópera flamejante. As pedras e as madeiras envelhecidas, os tectos dos palácios coloniais e dos casões senhoriais, as palmeiras maduríssimas, as flores estridentes, a torre do relógio, batem certo em todos os tons da extravagante miami que os sublinha, ao fundo. Em comum, o tom de decadência e da sumptuosidade, de ostentação e de exotismo: assim cheira Cartagena, tal como me lembrava dela.
Entre-muralhas, as ruas são estreitas mas sólidas, as casas majestosas, as varandas imponentes, e delas continuam a cair em chuva as mesmas flores garridas. As portas altas de madeira trabalhada continuam abertas - porque Cartagena é quente todos os dias e todas as noites - e as gigantes ventoinhas continuam girando nos tectos, que são de não menos de quatro metros, altíssimos e frescos. Os cafés mais populares dão portas abertas para duas ruas, e parecem frescas arcadas, mas têm tecto e têm portadas que se encostam, encaloradas, nas paredes dos almoços que ali se servem, a mesma carne com arroz e feijão de sempre.
As paredes da cidade amuralhada são garridas e bem pintadas - amarelos torrados, vermelhos de sangue, azuis fortes, como as calças de algodão do suado homem cor-de-azul - preto pretíssimo - que dança frenético na Plaza de San Domingo; os arranha-céus de Boca Grande são brancos e envidraçados, harmónicos ao jeito calatrava, como combinados dominós jogados no tabuleiro. 
Dormimos numa casa velha, de cozinha antiga e varanda em ruínas, com os cotovelos na rua e um fantasma regular, alma perdida de uma dama antiga que gosta de passear pela tijoleira partida e buscar companhia na casa que em tempos habitou. Diz-se também que as paredes escondem mapas e ouros, escondidos aos piratas que se abordavam no horizonte, e que, mortas as familias, os piratas fugiam ao mar, e as paredes ficavam para trás, recheadas de história e de incógnitas.
A cidade resulta fantasiosa, boémia e extrovertida, e passear-lhe as ruas continua a saber bem aos pés e ao apetite, e nas esquinas vendem-se livros velhos e sumos de guanabana e zapote e lulo. E depois os cafés, as boutiques, as frutarias, as padarias, e as pretas na rua a venderem talhadas de manga e papaia  melancia, tudo cheira a decadente e tudo é exótico e tudo é calor, as pessoas vestem-se de branco e de cores e soltam suspiros e cantigas pelos rincones.
Descrever Cartagena é roubar-lhe em palavras aquilo que a cidade-mulher (mulher voluptuosa, descarada, majestosa) mostra, toda-oferecida, em sentido, cadência, compasso.






Vivos e de saúde

Para descanso das almas.
(sim, sim, também estamos pretos que dói)