Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.
O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.
viernes, 31 de mayo de 2013
RockStars
Baltasar Garzón.
Sim, o juez espanhol Baltasar Garzón, rockstar dos direitos humanos. Que eu ouvi falar ONTEM na ex-Esma, ex-centro-detenidos-desaparecidos(presente!), hoje convertida em Espacio Memoria.
Depois de lhe ter atirado o soutien para autografar, faço um manguito virtual a todos os sorrisinhos trocisto-ignorantes que subtilmente se desenharam ao saber que eu vinha estudar direitos humanos para a Argentina (um abraço especial ao meu ex-patrono, quem eu acredito (espero) não ser um assíduo na blogosfera).
viernes, 10 de mayo de 2013
à hora da janta cabe sempre mais-um
Bom acabaram por ser mais tentativa de improviso e enjeito noutros registos do que fado. Mas fez as vezes e deu para lavar um bocadinho a janela da alma.
A Mafalda A. cantou a porta da minha Casa:
«Tens esse jeito dos simples,
que à hora da janta,
Cabe sempre mais um
E abres os braços aos outros,
dizendo "São loucos,
não é favor nenhum"
E até das brigas de amor
dizes que são do calor
que te alimenta o sentir
que te faz ser Lisboa»
O meu irmão Z (ou a Léô?) começou com esta brincadeira de colar coisas na porta de casa, do lado de fora, e o gesto foi continuado espontaneamente e sem aviso; frases da vida, lições de amor, não valia tudo, porque se dava o devido espaço de respiração entre uma e outra mensagem, e não eram anunciadas, mas coladas discretamente sem reivindicação de autoria (embora se percebesse perfeitamente, ao final das contas, quem eram os donos das escolhas), e não era qualquer banalidade merecedora daquela porta.
De vez em quando, chegava a casa e, metendo a chave na porta, apercebia-me da existência de uma nova mensagem, e ali me deixava estar um bocado, de sorriso escancarado. Que na minha família se fomentam, por acção-reacção, os detalhes no meio do caos (os domingos culturais que nunca tiveram seguimento, as listas de compras que incluem poneys e comida para a zebra ao lado dos legumes que a Mãe enumera, os desafios eternos, "levante-se Godofreda", quem disse isto?), e estas mensagens eram, afinal, declarações de amor.
E eu, claro, tudo me comove.
Ontem ouvi cantar "tens esse jeito dos simples que à hora da janta cabe sempre mais um", e morri mais um bocadinho de saudades de Casa, dos dias que não estou a viver, dos novos detalhes que não conheço.
A porta da minha casa vai ter mensagens. e musicas. e ditos.
(Para já, tenho só um bilhete a dizer "no hay electricidad, no abras la heladera", mas um dia começo)