Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


jueves, 31 de julio de 2014

#1 De refogados

O outro dia cortei o dedo a cortar o pão, e saíram sardinhas. Dizem que é de ser emigrante, mas eu sei que não, que é um mal congénito que nasce com a gente que tem sal no sangue e que não tem cura. Que só voltando, refogando, que o sol ajuda mas arde mais.
O outro dia queria dizer bom dia ao padeiro da esquina,
Mas saiu-me um refrão caricato de alfama em forma de azulejo 
E a mão logo ali na anca 
E eu só queria ser bem educada e três papo-secos.

O outro dia quis descer à Bica e apanhar o cacilheiro, beber um café,  
mas tinha conquilhas nos sapatos
que afinal eram chinelas
que afinal eram barcos
que afinal eram sardinhas,
e o café trazia gaivotas em pacotinhos.
Que eu sei que isto é mal de nascença, que só voltando ou refogando,
Mas aí piora.

lunes, 9 de junio de 2014

Pulso tambor (força bruta)

O ano voltou a virar, as meias de lã nos pés outra vez, o edredon desceu do armário, a água está constantemente ao lume para mais um mate. Todos os anos – dos 3 que quase-acumulo de viver esta cidade – quase me esqueço que o inverno em Buenos Aires é feito de dias de frio de faca y sol morno a pique. Céu cru azul e feiras e parques.

Não tenho tido tempo para parar, apenas. Entre o trabalho temporário no Cejil que se vai renovando todos os meses, e as aulas em contagem decrescente como também os prazos para os trabalhos que as fecham, e os fins-de-semana curtos curtinhos de tarde e meia, valha-me esta deficiência de energia em excesso num corpo pequeno e concentrado 
em permanente combustão
que me permite a sobrevivência inesgotável de vontade que não finda nem se satisfaz.
Nas meias-horas que se entornam do copo sempre cheio, há sempre tempo para Buenos Aires: uma peça de Cádiz de última-hora no eterno imortal teatro jeito cabaret Maipo, uma manhã sentada na Recoleta ao sol no chão de pernas esticadas em fila para conseguir entradas para o bruto génio dos Fuerza Bruta, a parrilla de bairro, a salsa colombiana com jeitinho negro do Pacífico, o Malbec das noites-fora de conversa, o cinema francês mensal grátis, o regresso das Bombachas.


Às vezes pergunto-me se é de mim – esquizo-histerinesgotável em estado estimulado – ou de Buenos Aires – estimulo-frenética em modo não-me-acabo (nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, Força Bruta.


E geralmente pergunto-mo às seis da manhã, com um olho fechado e outro aberto, enquanto estico o braço à mesa de cabeceira para tirar uma fotografia sonâmbula ao amanhecer glorioso que me bate certeiro na cara todas as manhãs, vou ter saudades deste amanhecer, enquanto penso que devia lavar as janelas de vez em quando e volto a dormir.









viernes, 28 de febrero de 2014

(Do que aí vem)


"Mande notícias do mundo de lá, Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar, Tô chegando
Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir
São só dois lados Da mesma viagem"
(encontros e despedidas da maria rita) 

Estou num estado de adrenalina boa. Num de excitaçãozinha mal escondida, de pezinhos saltitando em curtos espaços, de vontadinha, ai que bom ai que bom.

(Ontem ao final do dia, eu de La Plata, o Rodolfo do trabalho 
e o Chico de Casa 
encontrámo-nos os três no terminal do Retiro, 
para um último forte abraço argentino. 
Boa viagem, huh!, vamos a isso, huh!, 
sorriso rasgado de mochila às costas de quem dá 
o primeiro passo de uma nova história.
E nós também. 
Fechadas as portas (do tal ciclo) atrás das costas, 
vamo que vamo, com a tal vontadinha.) 


É que neste momento começou a viagem no tempo dos Nossos: o clã Rivotti está neste preciso momento a sobrevoar o oceano, o águas já cruzou duas das quatro fronteiras que nos separam, a equipa-maravilha garcia-joana-garcia não tardam voam e quase chegam. O nosso mundo a caminho de nós, a Santa Fé aspirada e de vidros lavados pronta-a-receber os Seus, de braços abertos e todavontade.

jueves, 27 de febrero de 2014

Do Chico

Como se não bastasse ter fechado o Pekados (com k) e eu bem disse que era o fecho de um ciclo.
Daqui a seis horas parte-me o Chico, e com ele uma parte da minha Casa argentina.
Sem mariquices sem dramalhões. O Chico fica para sempre, claro, e essa é a melhor parte destes raros pontos de encontro que saltam da História para o faz-parte.
Mas Buenos Aires vai perder muitos bora lá’s, irrequietudes, movimento, sempre-vontade.
Entre o bom dia atrasado em cuecas a correr pelo corredor de escova de dentes em punho e o até quenfim ao final da tarde ao final do dia atirado para o sofá, como é que foi esse dia, abrimos uma cerveja?, as tardes de parque, os dias de feira, as noites de reggaeton y chamuyo, os fins-de-semana irrequietos sem importar a ressaca, e a boa disposição incondicional desde há (exactamente) um ano deste Chico-casa.

Foste uma companhia do caraças, Chico. E foi mesmo um prazer ter-te parte desta Santa Fé e desta vida de esquinas porteñas. Já ganhaste o Óscar dos-que-passaram.




Ps. Limpa-me essa lagriminha, meu maricas.


Pps. Visitaremos. Soon. Prepara uns colchões.



sábado, 15 de febrero de 2014

Ondé queu ia? (das margens)

Não sei se é assim com todos, ou se é coisasquisitice cá minha, ou talvez da idade ou da intolerância que a arrasta. Mas quanto mais vezes cruzo de uma margem à outra deste mar - em qualquer das direcções - mais tempo demoro, em chegando, a chegar. Como se demorasse (cada vez) mais tempo a fincar os pés no chão, sem vertigens – que por acaso até me vieram ao corpo real, a meio de um exercício de respiração mais funda – e a cair no ondé queu ia?


Em Lisboa, o gozo dos dias lentos entrelaçado na frustração da chuva diária. Mas a família reunida no sul em tardes gargalhadas, o peixe sobre a toalha de papel amarfanhada na fonte da telha (e ai o queijinho, e ai o pãozinho, e uma dose de cadelinhas), os tascos do coliseu com amigos da alma e o prato do dia à noite a menos de cinco euros, as noites ébrias da Bica perdidas improvisadas, os copos, as contas, os brindes ao futuro próximo, ai que bom, e voltar sempre à Mesa da cozinha de Casa, a preguiça esparramada no sofá de Casa, o bom-dia boa-noite todos os dias e todas as noites cheios de prazerosa normalidade, como se sempre. Casa.

  



De novo o Mar, e partir. Cruzar, mudar de Margem!

Buenos Aires à porta do avião já a entrar em formato líquido pelos pulmões adentro, a sensação familiar e imediata da pele a mudar de pele. Hola como vas, me xevás a santa fe, porfa, no caminho ainda acenei aos bersuit vergarabat, autores da argentinidad al palo  (true story. também não percebi o que faziam à beirinha da estrada, com as caixas de instrumentos, como se estivessem à espera do amigo que não ouviu o despertador e se deixou dormir) e, enfim, Casa. A porta do costume, o bom dia como-sempre não (cor)respondido da besta do porteiro que até um sorriso me ganhou, a gata miava como se não nos víssemos há mais de 100 anos, voltei, malas no chão, ondé queu ia? meio perdida, era onde tu ias.


E apesar da Casa e da pele imediata, a resposta a demorar a sair, os pés ainda meio cambaleantes.



Não sei se é assim com todos, ou se é coisasquisitice cá minha, ou talvez da acumulação de horas de voo sob alta pressão, talvez no meio do Mar e nas viagens do tempo de um lado ao outro perca eu outro tanto. Quanto mais vezes cruzo margens - em qualquer das direcções - mais tempo demoro, em chegando, a chegar. Como se me fosse desenraizando de todo o chão por mudar tanto aos pés a terra.

Bueno, bueno. Em qualquer das margens, demoro mas chego.



(no chega-não-chega para apressar o passo, já fui às audiências de um processo de crimes de lesa humanidade de que uma amiga é advogada ouvir as bárbaras declarações de uns quantos verdugos, ao quetzal por um brinde ao ano que começa, ao cejil por um trabalho e pelos abraços devidos desde a partida, ao centro cultural da recoleta por umas exposições de fotografia sobre as gentes de buenos aires, à feira da plaza francia porque nos apetecia um maté no parque e um pan relleno de muzza e albahaca, à biblioteca nacional para compensar os ainda-não e descobrir, enquanto isso, que a biblioteca nacional é do caraças e que lá se voltará, mas para estudar)