
Não sei se é assim com todos, ou
se é coisasquisitice cá minha, ou talvez da idade ou da intolerância que a
arrasta. Mas quanto mais vezes cruzo de uma margem à outra deste mar - em
qualquer das direcções - mais tempo demoro, em chegando, a chegar. Como se
demorasse (cada vez) mais tempo a fincar os pés no chão, sem vertigens – que por
acaso até me vieram ao corpo real, a meio de um exercício de respiração mais
funda – e a cair no
ondé queu ia?
Em Lisboa, o gozo dos dias lentos
entrelaçado na frustração da chuva diária. Mas a família reunida no sul em tardes gargalhadas, o peixe sobre a toalha de papel amarfanhada na fonte da telha (e ai o
queijinho, e ai o pãozinho, e uma dose de cadelinhas), os tascos do coliseu com amigos da alma e o prato do dia à noite a menos de cinco euros, as noites ébrias
da Bica perdidas improvisadas, os copos, as contas, os brindes ao futuro próximo, ai que bom, e voltar sempre à Mesa da cozinha de Casa, a preguiça esparramada no sofá de Casa, o bom-dia
boa-noite todos os dias e todas as noites cheios de prazerosa normalidade, como
se sempre. Casa.
De novo o Mar, e partir. Cruzar, mudar de Margem!
Buenos Aires à porta do avião já a
entrar em formato líquido pelos pulmões adentro, a sensação familiar e imediata da pele a mudar de pele.
Hola como vas, me xevás a santa fe, porfa,
no caminho ainda acenei aos
bersuit vergarabat, autores da argentinidad al palo (true story. também não percebi o
que faziam à beirinha da estrada, com as caixas de instrumentos, como se
estivessem à espera do amigo que não ouviu o despertador e se deixou dormir) e, enfim, Casa. A porta
do costume, o bom dia como-sempre não (cor)respondido da besta do porteiro que até um
sorriso me ganhou, a gata miava como se não nos víssemos há mais de 100 anos, voltei, malas
no chão,
ondé queu ia? meio perdida, era onde tu ias.
E apesar da Casa e da pele imediata, a resposta a demorar a sair, os pés ainda meio cambaleantes.
Não sei se é assim com todos, ou
se é coisasquisitice cá minha, ou talvez da acumulação de horas de voo sob alta
pressão, talvez no meio do Mar e nas viagens do tempo de um lado ao outro perca
eu outro tanto. Quanto mais vezes cruzo margens - em qualquer das
direcções - mais tempo demoro, em chegando, a chegar. Como se me fosse
desenraizando de todo o chão por mudar tanto aos pés a terra.
Bueno, bueno. Em qualquer das
margens, demoro mas chego.
(no chega-não-chega para apressar o passo, já fui às audiências de um processo
de crimes de lesa humanidade de que uma amiga é advogada ouvir as bárbaras declarações de uns quantos verdugos, ao quetzal por um brinde
ao ano que começa, ao cejil por um trabalho e pelos abraços devidos desde a partida, ao centro cultural da recoleta por
umas exposições de fotografia sobre as gentes de buenos aires, à feira da plaza francia porque nos apetecia um
maté no parque e um pan relleno de muzza e albahaca, à biblioteca nacional para
compensar os ainda-não e descobrir,
enquanto isso, que a biblioteca nacional é do caraças e que lá se voltará, mas
para estudar)
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