Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


sábado, 15 de febrero de 2014

Ondé queu ia? (das margens)

Não sei se é assim com todos, ou se é coisasquisitice cá minha, ou talvez da idade ou da intolerância que a arrasta. Mas quanto mais vezes cruzo de uma margem à outra deste mar - em qualquer das direcções - mais tempo demoro, em chegando, a chegar. Como se demorasse (cada vez) mais tempo a fincar os pés no chão, sem vertigens – que por acaso até me vieram ao corpo real, a meio de um exercício de respiração mais funda – e a cair no ondé queu ia?


Em Lisboa, o gozo dos dias lentos entrelaçado na frustração da chuva diária. Mas a família reunida no sul em tardes gargalhadas, o peixe sobre a toalha de papel amarfanhada na fonte da telha (e ai o queijinho, e ai o pãozinho, e uma dose de cadelinhas), os tascos do coliseu com amigos da alma e o prato do dia à noite a menos de cinco euros, as noites ébrias da Bica perdidas improvisadas, os copos, as contas, os brindes ao futuro próximo, ai que bom, e voltar sempre à Mesa da cozinha de Casa, a preguiça esparramada no sofá de Casa, o bom-dia boa-noite todos os dias e todas as noites cheios de prazerosa normalidade, como se sempre. Casa.

  



De novo o Mar, e partir. Cruzar, mudar de Margem!

Buenos Aires à porta do avião já a entrar em formato líquido pelos pulmões adentro, a sensação familiar e imediata da pele a mudar de pele. Hola como vas, me xevás a santa fe, porfa, no caminho ainda acenei aos bersuit vergarabat, autores da argentinidad al palo  (true story. também não percebi o que faziam à beirinha da estrada, com as caixas de instrumentos, como se estivessem à espera do amigo que não ouviu o despertador e se deixou dormir) e, enfim, Casa. A porta do costume, o bom dia como-sempre não (cor)respondido da besta do porteiro que até um sorriso me ganhou, a gata miava como se não nos víssemos há mais de 100 anos, voltei, malas no chão, ondé queu ia? meio perdida, era onde tu ias.


E apesar da Casa e da pele imediata, a resposta a demorar a sair, os pés ainda meio cambaleantes.



Não sei se é assim com todos, ou se é coisasquisitice cá minha, ou talvez da acumulação de horas de voo sob alta pressão, talvez no meio do Mar e nas viagens do tempo de um lado ao outro perca eu outro tanto. Quanto mais vezes cruzo margens - em qualquer das direcções - mais tempo demoro, em chegando, a chegar. Como se me fosse desenraizando de todo o chão por mudar tanto aos pés a terra.

Bueno, bueno. Em qualquer das margens, demoro mas chego.



(no chega-não-chega para apressar o passo, já fui às audiências de um processo de crimes de lesa humanidade de que uma amiga é advogada ouvir as bárbaras declarações de uns quantos verdugos, ao quetzal por um brinde ao ano que começa, ao cejil por um trabalho e pelos abraços devidos desde a partida, ao centro cultural da recoleta por umas exposições de fotografia sobre as gentes de buenos aires, à feira da plaza francia porque nos apetecia um maté no parque e um pan relleno de muzza e albahaca, à biblioteca nacional para compensar os ainda-não e descobrir, enquanto isso, que a biblioteca nacional é do caraças e que lá se voltará, mas para estudar)

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