Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


jueves, 31 de julio de 2014

#1 De refogados

O outro dia cortei o dedo a cortar o pão, e saíram sardinhas. Dizem que é de ser emigrante, mas eu sei que não, que é um mal congénito que nasce com a gente que tem sal no sangue e que não tem cura. Que só voltando, refogando, que o sol ajuda mas arde mais.
O outro dia queria dizer bom dia ao padeiro da esquina,
Mas saiu-me um refrão caricato de alfama em forma de azulejo 
E a mão logo ali na anca 
E eu só queria ser bem educada e três papo-secos.

O outro dia quis descer à Bica e apanhar o cacilheiro, beber um café,  
mas tinha conquilhas nos sapatos
que afinal eram chinelas
que afinal eram barcos
que afinal eram sardinhas,
e o café trazia gaivotas em pacotinhos.
Que eu sei que isto é mal de nascença, que só voltando ou refogando,
Mas aí piora.