Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


miércoles, 30 de mayo de 2018

Do caminho fora-de-pista (Memória de uma Renúncia)

Nos últimos dez anos da minha vida, dei algumas guinadas bruscas no caminho, que me levaram a lugares mais próximos do que quero ser. Ah década boa!, bobina de transformação, ponto de combustão e detox, separação dos desperdícios e recicláveis. 
Pari-me de novo em 2007 e desencruzilhei alguns nós - na gravata, na inércia e na expectativa, própria e alheia. Enchi-me de mais vontade que cautela (instinto não pede licença, natureza tem fome), e atirei-me fora de pista. 
Renunciei a estabilidades e ao estatuto de ser promissora. Sem saltos ortopédicos ou profissionais. Sem importar a média da faculdade ou o iogurte grego no frigorífico. Sem fronteira nem cancela nem ticket de entrada. Saí pela saída de emergência, em direção a toda parte.
Mudei de calendário, de profissão, de língua, de companhia.
Desconstruí, decidi, desiludi.
Rasguei e desenhei novos rascunhos, um, mil mapas, todos possíveis.
Finalmente, multipliquei-me e pari os meus eternos - com dor, e depois com alegria.
Sem corantes nem conservantes, feita Balu e seu essencial, as mesmas botas velhas de sempre, menos fardos, mais tempo.
Agora somos quatro, e nunca fomos tanto. A multiplicação das horas ocupadas é a surpresa da multiplicação do tempo e da vontade feita energia. 
Pouco dinheiro, muita vontade. Tudo se aproveita, tudo se reutiliza, tudo se simplifica - Atacama tatuado no coração.
Não visto nem como o que me apetece.
Não vou ao cinema e corto o cabelo em casa.
Mas nunca fui tão livre.