Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


viernes, 14 de diciembre de 2012

Lar, doce quase-lar




Não não, não perdi o amor à palavra ou à aventura, e tampoco fechei esta porta que é janela dos meus dias. Mas os meus dias são ainda de emigrante em processo de instalação, que emigrar-é-duro e leva o seu tempo, e a internet é um bem precioso e não escasso mas os generosos cafés não dão esteira (nem suficientes megas) ao relatos, que se querem espontâneos e sem tempos.

Comecemos pelos recentes passos: mergulhámos de cabeça no pesadelo imobiliário do busca-casa, faz-as-contas, dá?, assina-contrato, entrega-chave, dorme-no-chão, contrata-água, contrata-luz, contrata-internet, só-daqui-a-três-semanas-señora, para falar com um assistente tecla 5, identificação argentina señora, a sua chamada encontra-se em lista de espera, mas eu sou portuguesa señor, e nos entretantos foi armar pés de vento e pés de guerra (pois parece que ultimamente se têm armado muitos. heh. já lá iremos.) com o canalizador que-diz-que-vem-mas-não-vem (e eu com torneiras a pingar), com o serralheiro que-diz-que-liga-mas-não-liga (e eu com a janela sem fechar) e com várias companhias de internet que dizem que instalam-mas-não-instalam - e eu sem mundo, señor!
Saímos  f i n a l m e n t e  do outro lado do Limbo, nesta bonita data de 12.12.12 (que deste lado, à hora da edição, ainda eram dez da noite, é fazer as contas para o devido fuso), com casa *gritos de aleluia* semi-montada, e uma recém-estreada rede de internet wi-fi que emite cânticos de glória por todo lar! Saudades, mundo!

Verdade-seja dita (o processo de emigração é, com efeito, vagaroso), esta é A vitória do mês. Continuo sem papéis e demais carências, o Rodolfo viu a busca laboral interrompida pelo Verão que se instalou e  as minha manhãs continuam a amanhecer com a dificuldade "e-o-que-raio-visto-no-meio-de-tanta-roupa-de-viagem-para-simular-um-ar-civilizado??". 



Mas vejo a vida a acontecer aos poucos, que é 
como-quem-diz, 
temos dedicado o tempo livre a actividades de bricolage e carpintaria, e pintamos tudo o que esteja ao nossalcance que possa ser pintado (cfr. ex. da fig. 2: varão do duche. Mas quem é que vai reparar na cor do varão do duche????): as caixas de fruta de madeira-suja vão-se transformando em mesinhas ou banquetas de madeirantiga, as camas compradas em pechincha para os quartos dos inquilininvasores vão ganhando personalidade nas tintas de água que as completam, num estilo muito el caminito, o frigorifico emprestado dos anos 80 repousa encarnado-sangue-de-boi (boi???) ao fim de muitas horas de desespero, os quartos têm tomadas. À vida da casa, as cadeiras emprestadas-desemparelhadas dão o jeito, temos 6 pratos e 5 copos, duas panelas de fraca figura, uma faca que faz as vezes de tudo, incluindo chave-de-fendas, e um colchão vagabundo que faz as vezes de sofá (disfarçado com uma belíssima manta boliviana para a simulação de um estilo muy conveniente e fashionable: rústicohippy-chic), o que nos vai permitindo fazer uma modesta e humilde vida social - que o Rodolfo e o Vasco cozinhem maravilhosamente também servido de isco aos sujeitos-alvo, contribuindo de forma promissora ao  desenvolvimento da referida vida social sediada no novo lar-doce-lar.














a vida da Cidade, que o Verão se atirou de cabeça e aquece as ruas e os suores. Sim!, Buenos Aires amanhece cada vez mais cedo e anoitece cada dia mais tarde, os sábados são de sol e os pés saiem à rua de chinelos, como os ombros que descalços vão. Os suores correm costas abaixo, as janelas não fecham há semanas - estado de coisas apenas interrompido pela tempestade tropical que varreu a cidade e obrigou a fechar ventanales durante a fúria dos deuses.
Continua a ser estranho reconhecer (?) nas montras, nas rotinas e na porta da vizinha da frente um Natal a 40 graus de temperatura, mas é bom acordar com luz e sem lençol, preguiçar nos parques de Palermo, e jantar de janela aberta e abanico na mão. 


Assim vamos indo: com um salário no bolso e os dias mais livres (essa é outra história, que brevemente vos contarei. sofrei, sofrei com o suspense, muahaha), dedico-me, pois, a gozar a casa, o verão e a Cidade (pinta mesa, compra cama, uma manta ali e um pano aqui, faltam panelas, faltam copos, faltam pratos e somos 5 ao jantar, faz as contas e compra mais um, que para o mês que vem compramos dois, falta vir o canalizador e o serralheiro, mas o homem da internet já por cá passou

Preparo-me também a mim para a visita à terra-Mãe e terra-Casa, que o Natal é tempo de família e as injecções estão a chegar ao fim e é tempo de ir renovar o stock. 

E claro: continuam a divertir-me os dias o sotaque argentino (che, boluda!, hace un calor del orto o no!), o totoloto dos dias de verão com os dias de dilúvio, os programas pontuais de uma cidade em constante estado de diarreia cultural (poucos, que o futuro é incerto e os pesos são contados) e a pergunta en serio que no sos argentina?? (ok, ok, eu me confesso: como se me abre o sorridorgulho, que tonta feliz!), e com isso se me alegra a vida, no espera-nãoespera, no vai-nãovai, no liga-nãoliga.





Para já, tenho casa e internet e sou, por isso, uma emigrante feliz!



Ps: formatação *#%/# del orrrrto!!!