Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


miércoles, 20 de noviembre de 2013

Manifesto no. 1 (soy del sur)

Sou do sul.
Sou das famílias numerosas e semprabertas, dos jantares barulhentos e das mesas onde cabe sempre maisum.
Sou das cores excessivas e do espalhafato. Sou de rir de boca aberta e das gargalhadas escancaradas escandalosas quase-sem educação. Sou das mãos a exagerar as conversas e das puteadas e dos sotaques e dos palavrões marcados com dialectos em forma de carinho. Da mestiçagem e da vizinhagem e do sangue a ferver. Sou dos gritos de janela a janela.
Sou dos livros da Allende de miúda, e dos Gabos e dos Amados e dos Coutos e dos Pepetelas depois devorados nos intervalos da escola, quando percebi que sou das histórias quasirreais, do imaginário dos laranjeiros centenários, das paisagens em tons de sangue e amarelo e das personagens eternas que convivem com leões e caimãs e pássaros de cores estranhas que falam cantando.
Sou do forró, do tango, do regaeton, sou do sambinha e do quizomba e da morna e dos tambores que fazem mexer a bunda, e sou das que podiam viver a dançar.
Sou dos carros velhos e dos autocarros pintados, das paredes cheias e gastas, da cervejinha gozada ao sol em mesas descompostas desenrascadas, está tudo bem temos tempo, em tábuas de outrora barcos.
Sou da bola no pé e da mão na anca.

Sou do sul, porque o sul é esse está todo bien piba, o jeitinho, o dá um jeito, o piropo, o manda vir, o pregão, o discurso exaltado semsaliva, esse grito de exagero com fado gingão que está na anca ou no lamento, na cor, na comoção, no palavrão e no exagero.



lunes, 11 de noviembre de 2013

Buenos Aires: não é fome, é Gula

E depois ela volta, e volta a desculpar-se por não dar notícias há tanto tempo, pelos regressos que nunca chegam a ser definitivos, porque se volta a perder no compasso das horas e na espuma dos dias.

Mas já percebi. É que é mesmo difícil escrever o dia-a-dia, o alarme de todas as manhãs, banho, come, autocarro que aqui se diz colectivo (mas também já sabem disso), trabalho, ora bom ora tédio, casa. O cansaço das viagens a La Plata, as horas das aulas que ora enchem as medidas ora cansam apenas, o dominguinho de descanso, tão rápido, tão pouco, e as tentativas de reverter o tempo nos programas a meio da semana para fingir que não se tem uma rotina e a mesma dose q.b. de preguiça de outra vida qualquer.

Buenos Aires não cansa – nuncacansa - mas faz parte, já.
As excentricidades próprias da Cidade são vestidas com a naturalidad de quem já se esquece do e no fim da palavra. A semana passada encontrei nos bosques de Palermo um campeonato de Quidditch, onde os jogadores corriam o campo montados em vassouras. Ontem fui de figurante vestida-de-gala numa filmagem de um filme de uma amiga, com direito a cabeleireiro, maquilhagem e “Silencio… Acción!”. Hoje cruzei-me com um homem na passadeira que levava a passear uma dúzia e meia de cães. Nada de estranho. Estivemos numa roda de samba, ao domingo dançámos tango. Os meus sapatos já acusam o chão e talvez devesse reforzá-los. Acabo de me aperceber que escrevi “reforzá-los” e faço um esforço para perceber o que está mal. Reforçá-los. Ai!

Já me habituei à distância, a estar longe, a falar em espanhol e a misturá-lo nas conversas até em português. “Me mataste!” faz mais sentido na história do que “ui!, não faço ideia” e “liiisto” sai mais rápido do que “ok, combinado, fico à tua espera”.
Y es que estou neste estado de viver Buenos Aires como em casa, a minha cama é esta e tenho uma gata. Do lado de dentro, não é uma aventura exótica, aquela maluqueira que eu vejo nos olhos das nossas visitas que olham para nós, “vivem cá já há um ano?”, e os olhos brilham de espantadmiração. Eu sorrio, e quase-não percebo o tom da pergunta, mas depois páro e sim; eu vivo há mais de um ano em Buenos Aires.
Sem histerias e com tardes de sofá porque às vezes se apetece só esticar as pernas. Mesmo a alarvidade dos programas a meio da semana porque se quer comer a Cidade sem deixar migalha de noite nenhuma tem o seu quê de faz-parte. Não há espaços vazios nem horas muito quietas, mas há um pedaço de normalidade nesta vida portenha. Nas empanadas, nos festivais, nas noites imprevisíveis e nas puteadas porteñísimas.

É um estado de coisa por definir: é como se fosse daqui, mas não sem espanto. É como se vivesse em Buenos Aires há uma vida e meia sem cansar. É como se tivesse todo o tempo do mundo, mas ainda assim quisesse todos os bocados.

É como uma taquicardia imperceptível. Não é fome, mas é gula.


Vou trabalhar. Tenho de preparar uma resposta escrita ao Estado boliviano sobre a identificação do corpo de uma vítima de sequestro, tortura e assassinato pela polícia, na época da ditadura.  E é semi-surreal, mas é esta a minha vida de todas as horas. Em jeitinho de taquicardia imperceptível.