E depois ela volta, e
volta a desculpar-se por não dar notícias há tanto tempo, pelos regressos que
nunca chegam a ser definitivos, porque se volta a perder no compasso das horas
e na espuma dos dias.
Mas já percebi. É que é
mesmo difícil escrever o dia-a-dia, o alarme de todas as manhãs, banho, come,
autocarro que aqui se diz colectivo (mas também já sabem disso), trabalho, ora
bom ora tédio, casa. O cansaço das viagens a La Plata, as horas das aulas que
ora enchem as medidas ora cansam apenas, o dominguinho de descanso, tão rápido,
tão pouco, e as tentativas de reverter o tempo nos programas a meio da semana
para fingir que não se tem uma rotina e a mesma dose q.b. de preguiça de outra
vida qualquer.
Buenos Aires não cansa –
nuncacansa - mas faz parte, já.
As excentricidades
próprias da Cidade são vestidas com a naturalidad de quem já se esquece do e no fim da palavra. A semana passada
encontrei nos bosques de Palermo um campeonato de Quidditch, onde os jogadores corriam
o campo montados em vassouras. Ontem fui de figurante vestida-de-gala numa filmagem
de um filme de uma amiga, com direito a cabeleireiro, maquilhagem e “Silencio… Acción!”.
Hoje cruzei-me com um homem na passadeira que levava a passear uma dúzia e meia
de cães. Nada de estranho. Estivemos numa roda de samba, ao domingo dançámos
tango. Os meus sapatos já acusam o chão e talvez devesse reforzá-los. Acabo de
me aperceber que escrevi “reforzá-los” e faço um esforço para perceber o que
está mal. Reforçá-los. Ai!
Já me habituei à
distância, a estar longe, a falar em espanhol e a misturá-lo nas conversas até
em português. “Me mataste!” faz mais sentido na história do que “ui!, não faço
ideia” e “liiisto” sai mais rápido do que “ok, combinado, fico à tua espera”.
Y es que estou neste estado
de viver Buenos Aires como em casa, a minha cama é esta e tenho uma gata. Do
lado de dentro, não é uma aventura exótica, aquela maluqueira que eu vejo nos
olhos das nossas visitas que olham para nós, “vivem cá já há um ano?”, e os
olhos brilham de espantadmiração. Eu sorrio, e quase-não percebo o tom da
pergunta, mas depois páro e sim; eu vivo há mais de um ano em Buenos Aires.
Sem histerias e com
tardes de sofá porque às vezes se apetece só esticar as pernas. Mesmo a
alarvidade dos programas a meio da semana porque se quer comer a Cidade sem
deixar migalha de noite nenhuma tem o seu quê de faz-parte. Não há espaços
vazios nem horas muito quietas, mas há um pedaço de normalidade nesta vida
portenha. Nas empanadas, nos festivais, nas noites imprevisíveis e nas puteadas
porteñísimas.
É um estado de coisa por
definir: é como se fosse daqui, mas não sem espanto. É como se vivesse em
Buenos Aires há uma vida e meia sem cansar. É como se tivesse todo o tempo do
mundo, mas ainda assim quisesse todos os bocados.
É como uma taquicardia
imperceptível. Não é fome, mas é gula.
Vou trabalhar. Tenho de
preparar uma resposta escrita ao Estado boliviano sobre a identificação do
corpo de uma vítima de sequestro, tortura e assassinato pela polícia, na época
da ditadura. E é semi-surreal, mas é
esta a minha vida de todas as horas. Em jeitinho de taquicardia imperceptível.
4 comentarios:
vivam as puteadas porteñísimas!!! vamos che!!!
Que bom voltar a ler-te depois de tanto tempo de ausência ! Melhor que as linhas curtas, mais ou menos diárias dos chats que sabem a tão pouco e cansam demais . Sinto as tuas palavras cheias de uma rotina boa, mesmo quando falta o gás.
MFA
Pede -se tradução de puteadas portënissimas que não soa nada bem aos ouvidos europeus
Vida boa :)
Cat, sempre bom saber que estás bem.
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