O Outono, como todas as estações
e os feitios desta terra, entrou de repente e a pés juntos. A tarde de ontem
atirou-se de cabeça para esta manhã, mal saída da cama, acordada a 10º?, 11º?, 12º? graus, a pedir meias nos pés e mangas nos
bracos.
(Reconhecerei, enfim, que o meu exagero natural me leva a dramatizar a temperatura, e que, provavelmente, estariam uns 15º, 16º graus. Alerto, no entanto, para o facto de ainda nao ter saltado fora dos chinelos, de os ombros andarem descascados há 2 meses e de os anteriores graus, roçando os trinta, fazerem o maisfresco dar ares de geloglaciar. Y bueno, as folhas das árvores também perceberam que estava na altura de começar a
cair.)
Buenos Aires tem deslizado nos meus dias sem grandes
saltos – acordo de manhã, entre os roncos
dos meus irmãos-de-tecto que acabaram seus turnos a desoras, saio de casa às sete e meia e voy caminando as nove quadras que separam a porta do lar da porta do trabalho, chego
e chaleira ao lume, bom dia aos madrugadores do hostel, a água ferve, troco comentários
com o turno anterior enquanto preparo um maté, que tomo enquanto abro o dia do hostel:
conto o dinheiro da caixa (uma caixa de ferro encarnado a dar ares de caixa dos
cromos da infância), conto quem está, quem fica, quem chega, faço as contas às
camas, explico à divertida Miriam – uma mulher peruana bonacheirona e
bem-disposta que não acusa as quatro da manhã a que acordou para chegar aqui às
oito – as limpezas do dia, tomo mais um pouco de maté, a manhã começa a entrar com os huéspedes
que vão chegando à mesa do pequeno-almoço, ao meu lado, com quem converso. Sobre
Buenos Aires, sobre viagens, sobre ‘donde sos?’. Às vezes, ficam cá mais tempo,
escolhem Buenos Aires para tomar fôlego da viagem que é sem prazo, e esses vão
fazendo parte da mobília e mais entranhados nos meus dias. E conversamos de
projectos e de detalhes, dos libros que estamos a ler, da economia argentina,
das manias daqui e dali, do Mundo e dos melhores lugares para comer empanadas.
Depois ponho música, nina simone,
camera obscura, um caetano, fumo um cigarro no jardinzinho interior e ponho as
leituras em dia, entre as bienvenidas a novas caras (welcome, bienvenue,
bienvenido,bem-vindo!), as dicas sobre as esquinas da cidade e as respostas bem-dispostas aos mails com dúvidas
existenciais sobre datas e camas.
Saio às quatro, leve, como se o dia mal
tivesse começado. Repiso o caminho de volta a casa, dou a volta por outras quadras, com o sol mais forte, para namorar os gatinhos da montra da loja dos animais, passo na ferretería e compro
os parafusos em falta (as palets do supermercado já todas devidamente limpas,lixadas,serradas,pintadas), na verdureria e compro as laranjas para o sumo da manha seguinte, pela quesaria
e provo uns quantos pedaços de céu, até decidir
que meio-quilo trago. A porta ao lado é a minha.
Ahí, chego a casa, atiro-me
para cima do Rodolfo, que me conta os mails que enviou e recebeu, as
expectativas e as oportunidades do dia em cima da mesa com um animo rugido e
uma fé inabalável de que tudo vai correr bem, oiço as anédoctas (que são
historietas, e não piadas) das noites do Adam e do Vasco, estico-me no sofá e
entretenho-me com os planos desse dia – que, nos últimos, têm sido ler, passear,
comer gelados, pintar novas estantes.

Continuo atenta aos pormenores de Buenos Aires, dou por mim no mesmo estado de relação sólida que deixei esperando. Sinto-me cómoda, na minha pele, os passos rotineiros são dados com vagar e com gozo, redescobrir as velhas esquinas, as velhas casas, reconhecer na rua o sotaque que me ecoou nos ouvidos todos os meus anos, mover-me como um peixe nos rápidos de Buenos Aires, não me deixo levar porque corro com ela, ao seu ritmo.
Sinto-me emigrante porque é tudo uma conquista. Mas sinto-me em casa, saio sem pensar, deambulo divertida, sem histerias mas com uma inquieta paz de ter os pés na terra e a alma em descolagem.