Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


domingo, 19 de abril de 2020

Estado de espírito (líquido, sólido e gasoso)

Poema do Desamor.


Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

 Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato

(do Alexandre O’Neill)



Pode embrulhar, é para levar, obrigada.
(Quarentena, de-função aos 35?).

domingo, 5 de abril de 2020

Uno se da cuenta (da Quarentena)

Una se da cuenta que está em casa há mais de 20 dias

Quando capricha no brinco comprido para ir ao supermercado comprar leite de máscara e luvas de látex


Mas leva a colher de pau no bolso traseiro e três molas da roupa penduradas na camisa.

jueves, 2 de abril de 2020

Bicho-homem por videoconferência

(Dia 20)


A quarentena baralha-nos.
Tu tão preocupado com as fobias sociais e a habituação a sermos sós, e eu – condenada sem recurso a otimista irrecuperável – a pensar que onde perdemos o toque e o abraço, estamos a empatar na palavra, no humor e na improvisação. Novas formas de intimidade, novas formas de intensidade.
Tudo reformulado, refogado, refundado em novas formas de ser bicho-homem, bicho-casa, bicho-afeto, bicho-fetiche.
(Cio adiado, olfato por videoconferência, bicho-nós forçado a parar).
(Logo eu, polvo frenético com síndrome-das-pernas-inquietas)
Estamos à nossa procura na nossa própria casa, bicho na toca a arranhar as paredes, aprender onde bate a luz, pinturas rupestres (nunca o espaço foi tão apropriado).
De repente, somos isso agora: os fundos das nossas salas nas videochamadas com os colegas de trabalho ou com os amigos da esquina, intimidade doméstica esparramada sem alternativa. A partilha do nosso método ou do nosso caos doméstico
- eu tão estante desordenada, tu tão jarra no aparador
(e eu nem tenho aparador)
Somos a luz de cada janela ou da falta delas, sou a curiosidade dos posters nas tuas paredes, a barba por fazer do meu chefe e as interrupções dos nossos filhos.
            - Tu tão desarrumação à meia-luz, eu tão manchas de humidade na parede -
Em Lisboa, em Buenos Aires ou em Cinfães, caem os vocês, os filtros e os aprumos. Somos, para todos, o nosso lado menos civilizado, sem filtro, sem pente. Às vezes de pijama às três da tarde. Às vezes a beber vinho às duas.
Vivemos (todos) um momento-dobradiça.
A ressignificar ser bicho-homem por videoconferência, sem perceber se acabamos mais  unidos ou mais sozinhos.
Enquanto isso, fumamos, improvisamos, bebemos mais do que bebíamos, e já temos uma janela favorita, cuja vista vamos aprendendo de memória. Reaprendemos a memória, a observação, o vagar
            – eu tão frenética, tu tão sereno –
            – eu tão estável, tu tão terramoto. E vice-versa –
O desafio do século: em tempos de pandemia e quarentena, ser bicho-homem por videoconferência. (cheiro, pele, língua, olhos, som).