Volto a cruzar o
mar, de volta à minha outra metade. Vim da Argentina uma-e-meio e
voltamos dois-já: levo o Lorenzo a pisar a terra que lhe corre nas
veias.
Claro, partimos cheios.
Primeiro, cheios de
tralhas – encaixotadas em cartão e suor, e misericordiosamente
depositadas nos poucos espaços livres da casa matriarcal, concedidos
com esforço e intenção. Sou, já sabemos, confessadamente
coleccionista de bilhetes, mapas e flores de papel. Tenho pratos que
são quadros e quadros que são restos de horas em papel de alguma
esquina que quis lembrar. Tenho céus de mil tardes em mil janelas
pegados nas paredes, e tenho um bule marroquino e mantas da bolívia
e do irão, e um cesto de piquenique, e discos da adolescência e
chapéus variados, todos indispensáveis à vida. O passo prévio de todas as minhas partidas é o despir das paredes, processo cardíaco-psicológico essencial a qualquer mudança de pele ou hemisfério.
Também partimos
cheios de sono. Sono filho de noites agitadas por um filho de luz,
energia e sorriso fácil, que reconheço tão inquietirrequieto como
eu. Que mexe os braços em sinal de euforia como eu danço no meio do
corredor (apanhadíssima.), curioso como um gato, derrete-velhas e charmosão com o
público em geral, com intermitências de mau génio maternal (o
dele, e depois, o meu. ou vice-versa. Hoje, particularmente. Tenho
tanto mau génio que já insultei ferozmente todos os bonecos
carinhosos da babytv, e tanto sono que cada vez que mudo de linha na
página, perco-me). De mãos cheias, sem mãos a medir, que o Furacão não pára não pausa não cansa. Canso eu, A Incansável, dependente agora da correspondência proporcional entre o atiro-te-janela-fora e o amor absoluto.
Tanto sono, portanto, como amor –
partimos carregados de alegria em pó, fórmula concentrada para
misturar e fundir com as químicas argentinas, que nos esperam,
braços abertos, cheios de vontade de nós e de se agarrarem ao Lorenzo Furacão pela primeira vez. Partimos doidos de vontade de conhecer os primos novos e de abraçar os braços velhos, já viram, passou-tão-rápido!
Parto cheia de fome
de argentinidad, daquela que já me faz parte da pele, doida de amor
e saudades da minha gente daquele lado, das noites de cumbia e de
tango, do grito-fácil, de quetazliar, de callejear, de me reencontrar e me perder de novo
contigo minha Buenos Aires Locura Capital.
Partimos cheios de
horas novas, revolucionadas, cicatrizes e alvoradas, movidas por
noites em claro, atardeceres no miradouro e manhãs de feira, praias
de peixe grelhado e mates com pão de deus.
Parto com um filho e uma familia de cada lado, saudades deixadas dos dois, Buenos Aires minha metade ponte de mim mesma.
E como eu não parto
sem gritos a quatro ventos e rituais de passagem, eis o meu.
Partimos na 3feira
(naturalmente, numa viagem de muitas escalas e desculpas para
calcorrear),
e como no domingo
tenho uma simulação de Natal de família (bem hajam)
e na 2feira vou
estar a fazer sprints ida-e-volta no corredor arrepelando os cabelos
com tudo o que me esqueci ou ainda não arrumei,
amanhã – SÁBADO
– bem cedo (a intenção é a melhor, o corpo pode não cumprir)
vou estender as minhas mantas da bolivia e do irão na Feira da Ladra
(não sei se já tinha dito que gosto de feiras e mercados) e vou
desfazer-me dos ultimos tarecos – todo o coleccionismo se associa a
um síndrome de acumulação e
não-deites-fora-nunca-se-sabe-se-pode-vir-a-servir crónicos.
Venham os abraços
de boa-viagem, os mates de solidariedade, os beijinhos devidos, as
saudades antecipadas, os olás dos que confessaram nunca ter ido à
Ladra (sob pena de achincalhamento em praça pública. Shame!!!).
Venham com ânimo, com minis, com histórias, com biscoitinhos, com
bom humor.
Despedem-me,
juntam-se-me ao ritual, e na volta ainda encontram alguma
pechincha!!
Vemo-nos na Ladra, do outro lado do mar, ou
dada a volta a março.
céus de buenos aires e de lisboa