Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


viernes, 18 de noviembre de 2016

Sábado de feira, voltar de novo

Volto a cruzar o mar, de volta à minha outra metade. Vim da Argentina uma-e-meio e voltamos dois-já: levo o Lorenzo a pisar a terra que lhe corre nas veias.

Claro, partimos cheios.

Primeiro, cheios de tralhas – encaixotadas em cartão e suor, e misericordiosamente depositadas nos poucos espaços livres da casa matriarcal, concedidos com esforço e intenção. Sou, já sabemos, confessadamente coleccionista de bilhetes, mapas e flores de papel. Tenho pratos que são quadros e quadros que são restos de horas em papel de alguma esquina que quis lembrar. Tenho céus de mil tardes em mil janelas pegados nas paredes, e tenho um bule marroquino e mantas da bolívia e do irão, e um cesto de piquenique, e discos da adolescência e chapéus variados, todos indispensáveis à vida. O passo prévio de todas as minhas partidas é o despir das paredes, processo cardíaco-psicológico essencial a qualquer mudança de pele ou hemisfério.


Também partimos cheios de sono. Sono filho de noites agitadas por um filho de luz, energia e sorriso fácil, que reconheço tão inquietirrequieto como eu. Que mexe os braços em sinal de euforia como eu danço no meio do corredor (apanhadíssima.), curioso como um gato, derrete-velhas e charmosão com o público em geral, com intermitências de mau génio maternal (o dele, e depois, o meu. ou vice-versa. Hoje, particularmente. Tenho tanto mau génio que já insultei ferozmente todos os bonecos carinhosos da babytv, e tanto sono que cada vez que mudo de linha na página, perco-me). De mãos cheias, sem mãos a medir, que o Furacão não pára não pausa não cansa. Canso eu, A Incansável, dependente agora da correspondência proporcional entre o atiro-te-janela-fora e o amor absoluto.

Tanto sono, portanto, como amor – partimos carregados de alegria em pó, fórmula concentrada para misturar e fundir com as químicas argentinas, que nos esperam, braços abertos, cheios de vontade de nós e de se agarrarem ao Lorenzo Furacão pela primeira vez. Partimos doidos de vontade de conhecer os primos novos e de abraçar os braços velhos, já viram, passou-tão-rápido!

Parto cheia de fome de argentinidad, daquela que já me faz parte da pele, doida de amor e saudades da minha gente daquele lado, das noites de cumbia e de tango, do grito-fácil, de quetazliar, de callejear, de me reencontrar e me perder de novo contigo minha Buenos Aires Locura Capital.

Partimos cheios de horas novas, revolucionadas, cicatrizes e alvoradas, movidas por noites em claro, atardeceres no miradouro e manhãs de feira, praias de peixe grelhado e mates com pão de deus.

Parto com um filho e uma familia de cada lado, saudades deixadas dos dois, Buenos Aires minha metade ponte de mim mesma.

E como eu não parto sem gritos a quatro ventos e rituais de passagem, eis o meu.

Partimos na 3feira (naturalmente, numa viagem de muitas escalas e desculpas para calcorrear),

e como no domingo tenho uma simulação de Natal de família (bem hajam)

e na 2feira vou estar a fazer sprints ida-e-volta no corredor arrepelando os cabelos com tudo o que me esqueci ou ainda não arrumei,

amanhã – SÁBADO – bem cedo (a intenção é a melhor, o corpo pode não cumprir) vou estender as minhas mantas da bolivia e do irão na Feira da Ladra (não sei se já tinha dito que gosto de feiras e mercados) e vou desfazer-me dos ultimos tarecos – todo o coleccionismo se associa a um síndrome de acumulação e não-deites-fora-nunca-se-sabe-se-pode-vir-a-servir crónicos.

Venham os abraços de boa-viagem, os mates de solidariedade, os beijinhos devidos, as saudades antecipadas, os olás dos que confessaram nunca ter ido à Ladra (sob pena de achincalhamento em praça pública. Shame!!!). Venham com ânimo, com minis, com histórias, com biscoitinhos, com bom humor.


Despedem-me, juntam-se-me ao ritual, e na volta ainda encontram alguma pechincha!!

Vemo-nos na Ladra, do outro lado do mar, ou dada a volta a março.


céus de buenos aires e de lisboa