Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


jueves, 4 de octubre de 2012

Cartagena a Magnífica

Cartagena de Indias.
Depois de uma aventura (pouco) gozada no veleiro, encostámos amarras no cais clandestino de um bairro de lata e zinco, e apanhámos uma lancha até à Cidade: depois de muitas horas em estado de semi-desidratação (que a água também se vomita, descobriram alguns) e pele estufada, mais uma estupidez de voa-saltos que nos deixou, por fim, na praia suja de Boca Grande, encharcados até aos ossos, gargalhando nossas caricatas figuras. Espremidos e retorcidos, a segunda ironia da tarde chegada foi perceber que os pés em terra firme, ao fim de dois dias em dança-balança, também enjoam. Várias horas passariam até que pudéssemos recuperar a estabilidade própria da alma e do ânimo.

Cartagena de Indias. Continua extraordinária. Exótica, caprichosa, decadente, magnífica.
Lembro-me de ter lido há uns anos qualquer coisa sobre o sexo das cidades, e de como a sua arquitectura, as suas linhas e a cadência nelas gerada, as definiam como cidades masculinas, viris, energéticas ou femininas, sensuais, misteriosas. Não me lembro do caminho teórico, mas Cartagena é, definitivamente, uma mulher de botero: exuberante e debochada.
A cidade amuralhada repousa lad'a'lado com a zona moderna, em irrepetível exagero e harmonia - como dois tons estridentes que se condizem, duas notas altas de uma ópera flamejante. As pedras e as madeiras envelhecidas, os tectos dos palácios coloniais e dos casões senhoriais, as palmeiras maduríssimas, as flores estridentes, a torre do relógio, batem certo em todos os tons da extravagante miami que os sublinha, ao fundo. Em comum, o tom de decadência e da sumptuosidade, de ostentação e de exotismo: assim cheira Cartagena, tal como me lembrava dela.
Entre-muralhas, as ruas são estreitas mas sólidas, as casas majestosas, as varandas imponentes, e delas continuam a cair em chuva as mesmas flores garridas. As portas altas de madeira trabalhada continuam abertas - porque Cartagena é quente todos os dias e todas as noites - e as gigantes ventoinhas continuam girando nos tectos, que são de não menos de quatro metros, altíssimos e frescos. Os cafés mais populares dão portas abertas para duas ruas, e parecem frescas arcadas, mas têm tecto e têm portadas que se encostam, encaloradas, nas paredes dos almoços que ali se servem, a mesma carne com arroz e feijão de sempre.
As paredes da cidade amuralhada são garridas e bem pintadas - amarelos torrados, vermelhos de sangue, azuis fortes, como as calças de algodão do suado homem cor-de-azul - preto pretíssimo - que dança frenético na Plaza de San Domingo; os arranha-céus de Boca Grande são brancos e envidraçados, harmónicos ao jeito calatrava, como combinados dominós jogados no tabuleiro. 
Dormimos numa casa velha, de cozinha antiga e varanda em ruínas, com os cotovelos na rua e um fantasma regular, alma perdida de uma dama antiga que gosta de passear pela tijoleira partida e buscar companhia na casa que em tempos habitou. Diz-se também que as paredes escondem mapas e ouros, escondidos aos piratas que se abordavam no horizonte, e que, mortas as familias, os piratas fugiam ao mar, e as paredes ficavam para trás, recheadas de história e de incógnitas.
A cidade resulta fantasiosa, boémia e extrovertida, e passear-lhe as ruas continua a saber bem aos pés e ao apetite, e nas esquinas vendem-se livros velhos e sumos de guanabana e zapote e lulo. E depois os cafés, as boutiques, as frutarias, as padarias, e as pretas na rua a venderem talhadas de manga e papaia  melancia, tudo cheira a decadente e tudo é exótico e tudo é calor, as pessoas vestem-se de branco e de cores e soltam suspiros e cantigas pelos rincones.
Descrever Cartagena é roubar-lhe em palavras aquilo que a cidade-mulher (mulher voluptuosa, descarada, majestosa) mostra, toda-oferecida, em sentido, cadência, compasso.






3 comentarios:

Anónimo dijo...

Estou quase convencida a marcar passagem para essas bandas. Mesmo com possíveis visitas de fantasmas perdidos...

catarina dijo...

Também pensei nisso enquanto passeava pelas ruas da cidade. Pela segunda vez (o passear as ruas e o pensar nisso) - acho que ia adorar!!
(isto faz sentido se estiver a falar com a minha mãe, que a senhora é facilmente identificável pela jerga utilizada, mas o critério não é absoluto)

Anónimo dijo...

Percebe-se melhor a abundância magnífica de carnes de Botero depois de ler " Cartagena , a Magnífica"