Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


martes, 10 de diciembre de 2013

Fecho de um ciclo: os Meus Mais. .#1 Tango, tu e eu.

Chegou dezembro que é diciembre há mais de um ano, e o natal cozinhado a 35 pegajosos graus e sem iluminações de rua porque anoitece tarde. A vontade de ir a casa filtrada por esta sensação de ter o tempo a escorregar entre os dedos como areia seca da praia que não tem o verão portenho.
Buenos Aires imensa, a sensação sempreterna de que se começa ainda.

Há mais de um ano que ando por estas bandas e maisdemetade faltará, mas há um fecho de ciclo que é dagora. Porquê? Fecha o ano académico, fecha o ano calendário, quase-fecha a casa, esta Casa maravilhosa dos últimosmeses, o Rodolfo, o Chico, a Mariana, bingo!, novos desconhecidos nervosos dias depois.


Cabe agitar e servir. O melhor deste ciclo, do primeiro maravilhoso passo de regresso a Buenos Aires. Os meus los más desta eterna que sempracontece, sem fim nem horas:

#1. Tango, eu e tu

O Tango que nasce do abraço – daquele Abraço lento que não começa com a música mas espera um bocadinho, então abre sem avisar, primeiro envolve e fecha depois, demoradalentamente. É no abraço que tudo se passa (o Alberto diz com o coração despejado no soalho de madeira onde aprendemos os gestos tangueiros, “es acá que está el tango, en este Abrazo está todo lo que tenés que saber”), e é o abraço que define o tango de cada entredois, que entrebraços dão à luz um tango próprio, que pode ser tensocontido como um fôlego preso de um quasebeijo, ou exuberante como a confiança dos atrevidos, tímido, íntimo, intenso, divertido, ligeiro, corrido, subtil, furioso. A respiração alinhada no semblante do que conduz. O braço em arco, o abraço em corpo.
En el tango, el abrazo es el comienzo de todo.
Então, o tango, eu e tu. Começámos a trautear em Lisboa, mas foi Buenos Aires que nos viu dançar, e é contigo que tenho gasto os meus sapatos de fivela bonitos de saltos gastos no soalho de madeira velha da Catedral. (os gestos do costume, calçar os sapatos, um, fecha a fivela de lado, depois o outro, listo, junta os pés suspensos, um ultimo olhar de aprovação aos sapatos antes de lançar os pés ao tango, os sapatos são bonitos, caramba!, e o mais bonito no tango são os pés).

E agora será a rotina milonguera por descobrir, conhecer de olhos fechados os pisos de madeira de cada dia (de cada noite), dançar devagar mas sem dúvida, brincar com as notas, brincar com os pés, brincarmos os dois, levarmos o tango, eu e tu, pela Cidade.
Mas não só. As fúrias dos violinos, os bandoneones lânguidos que choram sobre as pernas dos seus músicos, os pianos extasiados, os poemas tristes. As noites deste Tango que têm cheiro a fado porque também choram as ruas da cidade, das penas e dos desamores.


No melhor da sempreterna Buenos Aires, o tango de todas as noites (de todos os dias), eu e tu.

 que tenho gasto os meus sapatos de fivela bonitos de saltos gastos
no soalho de madeira velha da Catedral


 as fúrias dos violinos, os bandoneones lânguidos que choram sobre as pernas dos seus músicos, 
os pianos extasiados, os poemas tristes


No hay comentarios: