Chegou dezembro que é diciembre há mais de um
ano, e o natal cozinhado a 35 pegajosos graus e sem iluminações de rua porque
anoitece tarde. A vontade de ir a casa filtrada por esta sensação de ter o
tempo a escorregar entre os dedos como areia seca da praia que não tem o verão portenho.
Buenos Aires imensa, a sensação sempreterna de
que se começa ainda.
Há mais de um ano que ando por estas bandas e maisdemetade
faltará, mas há um fecho de ciclo que é dagora. Porquê? Fecha o ano académico, fecha
o ano calendário, quase-fecha a casa, esta Casa maravilhosa dos últimosmeses, o
Rodolfo, o Chico, a Mariana, bingo!, novos desconhecidos nervosos dias depois.
Cabe agitar e servir. O melhor deste ciclo, do
primeiro maravilhoso passo de regresso a Buenos Aires. Os meus los más desta eterna que sempracontece, sem fim nem horas:
#1. Tango, eu e tu
O Tango que nasce do abraço – daquele Abraço
lento que não começa com a música mas espera um bocadinho, então abre sem
avisar, primeiro envolve e fecha depois, demoradalentamente. É no abraço que
tudo se passa (o Alberto diz com o coração despejado no soalho de madeira onde
aprendemos os gestos tangueiros, “es acá
que está el tango, en este Abrazo está todo lo que tenés que saber”), e é o
abraço que define o tango de cada entredois, que entrebraços dão à luz um tango
próprio, que pode ser tensocontido como um fôlego preso de um quasebeijo, ou
exuberante como a confiança dos atrevidos, tímido, íntimo, intenso, divertido,
ligeiro, corrido, subtil, furioso. A respiração alinhada no semblante do que
conduz. O braço em arco, o abraço em corpo.
En el tango, el abrazo es el comienzo de todo.
Então, o tango, eu e tu. Começámos a trautear
em Lisboa, mas foi Buenos Aires que nos viu dançar, e é contigo que tenho gasto
os meus sapatos de fivela bonitos de saltos gastos no soalho de madeira velha
da Catedral. (os gestos do costume,
calçar os sapatos, um, fecha a fivela de lado, depois o outro, listo, junta os
pés suspensos, um ultimo olhar de aprovação aos sapatos antes de lançar os pés
ao tango, os sapatos são bonitos, caramba!, e o mais bonito no tango são os
pés).
E agora será a rotina milonguera por descobrir,
conhecer de olhos fechados os pisos de madeira de cada dia (de cada noite), dançar
devagar mas sem dúvida, brincar com as notas, brincar com os pés, brincarmos os
dois, levarmos o tango, eu e tu, pela Cidade.
Mas não só. As fúrias dos violinos, os
bandoneones lânguidos que choram sobre as pernas dos seus músicos, os pianos extasiados,
os poemas tristes. As noites deste Tango que têm cheiro a fado porque também
choram as ruas da cidade, das penas e dos desamores.
No melhor da sempreterna Buenos Aires, o tango de todas as noites (de todos os dias), eu e tu.
que tenho gasto os meus sapatos de fivela bonitos de saltos gastos
no soalho de madeira velha da Catedral
as fúrias dos violinos, os bandoneones lânguidos que choram sobre as pernas dos seus músicos,
os pianos extasiados, os poemas tristes
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