Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


martes, 10 de diciembre de 2013

#2. Casa Aospoucos

Chegamos em outubro do ano passado, com uma mãozinha à frente outratrás. A vida por definir, o estado de espírito em estado de espera, estado de sítio e estado de necessidade. A casa de paredes vazias e o eco da falta de Casa, ainda.

Começámos com um colchão velho e desbotado no meio da sala, um par de cadeiras desengonçadas e garridas, a cama cai–cai que até hoje não cedeu, dois pratos e os suficientes copos para ir brindando aos poucos a pouco construídos.

Cada mês um detalhe, e as paredes se foram enchendo e ganhando forma, ao jeitinho da Bica.

Não há os chapéus, os mapas antigos de viagem, os quadros e as velhas gravuras. Nem há a máquina de escrever, nem os xailes nem as memórias das viagens. Mas veio uma mala cheia de galos de barcelos e detalhes da portugalidade. E entre o improviso das estantes coloridas, as caixas de fruta de madeira velha recolhidas na rua ao cair da noite, o calendário emocional do corredor, os recados em post-its, as parvoíces coladas nas portas e o hábito das flores que a Mariana nos trouxe, a casa se foi construindo, poucapouco, e nós nela nos detalhes fomos encontrando canto e lugar. 

 








No melhor da sempreterna Buenos Aires, a Casa Nascida Aospoucos, à nossa imagem e semelhança.




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