Buenos Aires é a cidade que sempracontece, já todos
sabemos. Qualquer hora livre tem o potencial de um concerto apanhado de
surpresa num parque, qualquer volta à esquina um novo mercadinho que até aí não
se conhecia, qualquer casa velha pode esconder uma noite de batucada e
multidão. É difícil acompanhar a corrida – embora seja gozadíssimo tentar.
E na Ciudad que sempracontece, apesar do
assalto constante e em jeitinho no-para-siguesigue da artilharia pesada – este
ano, sem pensar muito, um dois três!, o Buenos Aires Festival Internacional de
Cinema Independiente, o Buenos Aires Festival Internacional de Teatro, o
Festival de Cine Cubano, o Festival de Cine sobre Migración, o Festival de Cine
Documental, o Festival de Cine sobre Derechos Humanos, o Ciclo de Cinema
Portugués, o Campeonato Mundial de Tango, a Feira do Livro, a Noite dos Museus,
o Buenos Aires Jazz Festival Internacional, o Buenos Aires Market, o Nadal a
jogar à nossa janela -, lo más de
Buenos Aires são os tipos escondidos atrás dos arbustos a atirar pedrinhas.
Os tipos escondidos atrás dos arbustos a atirar
pedrinhas são os centrinhos culturais que são cafés e bar e livraria às vezes
em jeitinho bacalhoeiro com arte e manha, escondidos em todo o lado em casas
antigas, barracões, e salas recicladas. Escondem grupos de amigos ou de
artistas que, entre uns e outros, vão parindo programações diárias originais,
com génio e engenho.
Um destes lugares e um destes engenhos marcou de forma especial inaugural a cadência
da nossa Buenos Aires de até-agora: os domingos-anti-domingo do Quetzal. Um
ciclo de variedades a la gorra (ou seja, sem preço e com chapéu a passar no
final) chamado “Bombachas Poderosas”, que literalmente significa Cuecas
Poderosas ou Calcinhas Poderosas (a ridícula referencia à palavra “calcinhas”
serve o único propósito de explicar que a palavra bombachas se refere a cuecas femininas).
A cargo e mente de duas pequenasgrandes mulheres bem-dispostas
e feito exclusivamente por mulheres, as Bombachas traziam a ideia do domingo
anti-sofá e anti-preguiça. Cada domingo era diferente e cada domingo era uma
manta de retalhos, vinham cantoras com letras provocantes e vozes de sonho, teatro-cómico
e teatro-improvisado, dança-caricatura, histórias infantis pervertidas em marionetas
feitas à mão, monologos hilariantes que acabavam em parte-corações ou
vice-versa, pedaços de genialidade e “epa, que bom”.



Entramos na marcha e acompanhamos o ciclo - e ao terceiro, as miúdas criadoras do projecto (as geniazinhas Carmen Tagle e Malena Vieytes) já nos conheciam pelo nome, porque eu e tu fomos público-parte destes domingos-anti-domingo sem falhar quase nenhum.
tão parte que somos parte do registo de vários domingos.
Foi uma rotina deliciosa de vários meses: pedíamos uma garrafa de vinho, onde mergulhávamos a semana acabada e inspirávamos a seguinte.
Em jeito de símbolo e espelhinho de feira do melhor que sempreacontece em
Buenos Aires, as Bombachas Poderosas encheram-nos o copo e as medidas, e os
domingos ganharam outra dimensão, à boa maneira porteña.
1 comentario:
Este está fixe
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