Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


viernes, 13 de diciembre de 2013

#5 Bombachas Poderosas

Buenos Aires é a cidade que sempracontece, já todos sabemos. Qualquer hora livre tem o potencial de um concerto apanhado de surpresa num parque, qualquer volta à esquina um novo mercadinho que até aí não se conhecia, qualquer casa velha pode esconder uma noite de batucada e multidão. É difícil acompanhar a corrida – embora seja gozadíssimo tentar.

E na Ciudad que sempracontece, apesar do assalto constante e em jeitinho no-para-siguesigue da artilharia pesada – este ano, sem pensar muito, um dois três!, o Buenos Aires Festival Internacional de Cinema Independiente, o Buenos Aires Festival Internacional de Teatro, o Festival de Cine Cubano, o Festival de Cine sobre Migración, o Festival de Cine Documental, o Festival de Cine sobre Derechos Humanos, o Ciclo de Cinema Portugués, o Campeonato Mundial de Tango, a Feira do Livro, a Noite dos Museus, o Buenos Aires Jazz Festival Internacional, o Buenos Aires Market, o Nadal a jogar à nossa janela -, lo más de Buenos Aires são os tipos escondidos atrás dos arbustos a atirar pedrinhas.

Os tipos escondidos atrás dos arbustos a atirar pedrinhas são os centrinhos culturais que são cafés e bar e livraria às vezes em jeitinho bacalhoeiro com arte e manha, escondidos em todo o lado em casas antigas, barracões, e salas recicladas. Escondem grupos de amigos ou de artistas que, entre uns e outros, vão parindo programações diárias originais, com génio e engenho.

Um destes lugares e um destes engenhos marcou de forma especial inaugural a cadência da nossa Buenos Aires de até-agora: os domingos-anti-domingo do Quetzal. Um ciclo de variedades a la gorra  (ou seja, sem preço e com chapéu a passar no final) chamado “Bombachas Poderosas”, que literalmente significa Cuecas Poderosas ou Calcinhas Poderosas (a ridícula referencia à palavra “calcinhas” serve o único propósito de explicar que a palavra bombachas se refere a cuecas femininas).
A cargo e mente de duas pequenasgrandes mulheres bem-dispostas e feito exclusivamente por mulheres, as Bombachas traziam a ideia do domingo anti-sofá e anti-preguiça. Cada domingo era diferente e cada domingo era uma manta de retalhos, vinham cantoras com letras provocantes e vozes de sonho, teatro-cómico e teatro-improvisado, dança-caricatura, histórias infantis pervertidas em marionetas feitas à mão, monologos hilariantes que acabavam em parte-corações ou vice-versa, pedaços de genialidade e “epa, que bom”.



 





 

Entramos na marcha e acompanhamos o ciclo - e ao terceiro, as miúdas criadoras do projecto (as geniazinhas Carmen Tagle e Malena Vieytes) já nos conheciam pelo nome, porque eu e tu fomos público-parte destes domingos-anti-domingo sem falhar quase nenhum.

tão parte que somos parte do registo de vários domingos.

Foi uma rotina deliciosa de vários meses: pedíamos uma garrafa de vinho, onde mergulhávamos a semana acabada e inspirávamos a seguinte.

Em jeito de símbolo e espelhinho de feira do melhor que sempreacontece em Buenos Aires, as Bombachas Poderosas encheram-nos o copo e as medidas, e os domingos ganharam outra dimensão, à boa maneira porteña.