Uma das voltas mais gozadas desta viagem
porteña foi a entrada pela Porta dos Fundos, directa ao mundo-cão do
trabalho-biscate.
Porque saí de um sofisticado mundo de gravata e
saltos altos, os “doutor...” acenados com a cabeça em jeito de bom dia no
corredor, na garagem um par de Porches, na mesa não papeis, documentos!, e
neles nomes pomposos que valiam milhões. Contratos, actas, assinaturas, prazos,
certificações, honorários.
Três anos vestida decentemente, a roupa engomada,
interesse absolutamente nenhum no (quase todo) trabalho em si e o escape nos cigarros do
corredor, perdida na janela, onde as caras do costume me percebiam noutro lugar. (e se perguntarem por mim, digam que voei)
Até que saí.
(com fogo de artifício
no peito)
Entrei pela porta dos fundos. Arranjei um trabalhinho
num café da moda de Palermo e comecei a servir às mesas no Bartola. Foram dias de puro gozo, até deixarem de o
ser.
O café tinha onda – tinha a minha onda - e uns
brunchs deliciosos (apesar de o meu almoço consistir invariavelmente em meia dúzia de folhas de alface duvidosa), e passar os dias de avental de chita de bolas e flores naquele
lugar divertia-me, era o inicio do verão e eu ficava sempre com a esplanada,
vinham argentinos, brasileiros, europeus, e tudo o que eu tinha de fazer era
ser simpática e o resto.
O Leandro, que era o encargado (o responsável), à cara de quem dois (?) meses mais tarde atirei com o avental (foram dias de gozo, até deixarem de o ser),
sentenciou-me um dia em nobre tom que uno
no aprende a ser camarero, uno lo tiene o no lo tiene. Eu achei aquilo meio
dramático-epopeico, mas eu lo tenia.
Ao fim de quase-nada era a melhor amiga dos cozinheiros, levava as bandejas de
vime por cima da cabeça, gracejava com os clientes, despachava pedidos com a agilidade de um nativo, e duplicava o salário mínimomiserável
com as gorjetas. Eram seis turnos de nove horas por semana, mas eu
entretinha-me entre as conversas de mesa, as chaveninhas desemparelhadas e as pausas ao sol.
E tenho de confessar que quase nada foi tão
liberador na minha vida.
Aprendi o descompromisso. O sabor fresco de não
ter responsabilidades de milhões, presas em vírgulas e saltos altos, em
aquários sem janelas. Vestir sem regra, falar sem filtro, deixar de lado as
merdas do doutor e a mania das
importâncias.
Aprendi a baixar a bola, quando me passaram a
vassoura para as mãos, no segundo dia de trabalho, e me apontaram a
casa-de-banho do café.
E depois, aprendi o limite e o momento certo
para voltar a levantar o nariz e dizer basta, e entao a sensação imensa de tirar o avental a meio do dia e sair a
passear pelas ruas de Palermo sem horas nem planos. E esse foi o segundo
momento de liberação.
Até Junho deste ano, ainda passei de raspão num
restaurante meio fino, e com tempo e rotina num hostel com um pátio ao sol e a
chegada contínua de caras desconhecidas que me iam levando na conversa sobre a
cidade e as viagens partilhadas.
Ficou-me marcada a ferro e fogo esta passagem de um a outro mundo, mas pela porta dos fundos – a da cozinha do restaurante, da casa-de-banho do café, da recepção do hostel, do trabalho mal pago, do outro lado da vida onde não existem fins-de-semana mas folgas, que são apenas uma e à segunda-feira.
Os dias fáceis de gozo, os dias duros do verdadeiro cansaço, a liberação encontrada em tudo isto.
3 comentarios:
muito bom!!!!curto muito ler estes textos cheios de vida eh!!
Eu também quero "deixar de lado as merdas do doutor e a mania das importâncias"... ah!
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