Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


miércoles, 11 de diciembre de 2013

#3 Porta dos fundos (passagem pelo mundo-cão)

Uma das voltas mais gozadas desta viagem porteña foi a entrada pela Porta dos Fundos, directa ao mundo-cão do trabalho-biscate.

Porque saí de um sofisticado mundo de gravata e saltos altos, os “doutor...” acenados com a cabeça em jeito de bom dia no corredor, na garagem um par de Porches, na mesa não papeis, documentos!, e neles nomes pomposos que valiam milhões. Contratos, actas, assinaturas, prazos, certificações, honorários.
Três anos vestida decentemente, a roupa engomada, interesse absolutamente nenhum no (quase todo) trabalho em si e o escape nos cigarros do corredor, perdida na janela, onde as caras do costume me percebiam noutro lugar. (e se perguntarem por mim, digam que voei)

Até que saí.
(com fogo de artifício no peito)

Entrei pela porta dos fundos. Arranjei um trabalhinho num café da moda de Palermo e comecei a servir às mesas no Bartola. Foram dias de puro gozo, até deixarem de o ser.
O café tinha onda – tinha a minha onda - e uns brunchs deliciosos (apesar de o meu almoço consistir invariavelmente em meia dúzia de folhas de alface duvidosa), e passar os dias de avental de chita de bolas e flores naquele lugar divertia-me, era o inicio do verão e eu ficava sempre com a esplanada, vinham argentinos, brasileiros, europeus, e tudo o que eu tinha de fazer era ser simpática e o resto.

O Leandro, que era o encargado (o responsável), à cara de quem dois (?) meses mais tarde atirei com o avental (foram dias de gozo, até deixarem de o ser), sentenciou-me um dia em nobre tom que uno no aprende a ser camarero, uno lo tiene o no lo tiene. Eu achei aquilo meio dramático-epopeico, mas eu lo tenia. Ao fim de quase-nada era a melhor amiga dos cozinheiros, levava as bandejas de vime por cima da cabeça, gracejava com os clientes, despachava pedidos com a agilidade de um nativo, e duplicava o salário mínimomiserável com as gorjetas. Eram seis turnos de nove horas por semana, mas eu entretinha-me entre as conversas de mesa, as chaveninhas desemparelhadas e as pausas ao sol.

E tenho de confessar que quase nada foi tão liberador na minha vida.

Aprendi o descompromisso. O sabor fresco de não ter responsabilidades de milhões, presas em vírgulas e saltos altos, em aquários sem janelas. Vestir sem regra, falar sem filtro, deixar de lado as merdas do doutor e a mania das importâncias.

Aprendi a baixar a bola, quando me passaram a vassoura para as mãos, no segundo dia de trabalho, e me apontaram a casa-de-banho do café.

E depois, aprendi o limite e o momento certo para voltar a levantar o nariz e dizer basta, e entao a sensação imensa de tirar o avental a meio do dia e sair a passear pelas ruas de Palermo sem horas nem planos. E esse foi o segundo momento de liberação.

Até Junho deste ano, ainda passei de raspão num restaurante meio fino, e com tempo e rotina num hostel com um pátio ao sol e a chegada contínua de caras desconhecidas que me iam levando na conversa sobre a cidade e as viagens partilhadas.

Ficou-me marcada a ferro e fogo esta passagem de um a outro mundo, mas pela porta dos fundos – a da cozinha do restaurante, da casa-de-banho do café, da recepção do hostel, do trabalho mal pago, do outro lado da vida onde não existem fins-de-semana mas folgas, que são apenas uma e à segunda-feira.
Os dias fáceis de gozo, os dias duros do verdadeiro cansaço, a liberação encontrada em tudo isto.


3 comentarios:

Unknown dijo...

muito bom!!!!curto muito ler estes textos cheios de vida eh!!

Filipe dijo...
Este comentario ha sido eliminado por el autor.
Unknown dijo...

Eu também quero "deixar de lado as merdas do doutor e a mania das importâncias"... ah!