Emigração.
Estado de espírito, de sítio e de necessidade, onde
falta é a palavra de ordem.
Falta de papéis, de trabalho, de dinheiro, de casa, de Casa.
das esquinas e das calçadas,
dos cafés e
dos costumes e dos miradouros
da minha Lisboa-quintal
Que o trabalho não sai sem papéis, e os papéis não se dão sem trabalho, e a casa não se paga sem o primeiro, e a Casa não se funda sem nenhum dos anteriores.
Uno se siente em estado hipotérmico e vai-não-vai. Já podemos? Não? Esperamos.
O email, a chamada, o correio, o contacto,
o prazo, o papel.
É isso mesmo. Temos esperado e isto resume mais ou menos as últimas semanas - que Buenos Aires é emoção e aventura, mas todemigração parte da espera e da fundação; que é como quem diz, da tortuosa passagem do estado desempregadodesalojadodespapelado e semi-teso.
Mas apesar da expectativa, da espera que o alarme toque e que a vida comece, não nos podemos queixar: a Cidade é generosa. Os amigos dos amigos ajudam-nos com mãos, ideias e tectos - o chão dos primeiros dias, o colchão dos seguintes, a companhia na papelada, os contactos repescados, te lo averiguo, te quedás en mi casa, te acompaño a Migraciones, te hago circular el cv, te llamo.
Pouco a pouco, o bule vai vertendo. A espera vai ganhando forma.
Ao fim de um quase-mês porteño, o Rodolfo tem um fato, três pares de meias extra, camisa-gravata-cinto, uma entrevista bem-sucedida, um certificado de antecedentes penais e um turno nas Migraciones - e, para meu inchadorgulho, uma crescente tendência para transformar os ll's em ch's, enquanto lhe salta um e outro 'che' boca-fora.
Ao fim de um quase-mês porteño, eu tenho duas t-shirts apresentáveis e uma camisa, três conferências da Uba, duas experiências laborais no sector da cafetaria e restauração (já que estamos em contas, apenas uma chávena partida, e não foi mea culpa. ok, talvez um bocadinho. mas não foi grave.) e uma modesto-satisfatória soma em gorjetas.
Ao fim destes argentinos dias, o batalhão emigrado tem ainda um maté de couro, um colchão e um apartamento reservado, barato e bem localizado, com um quarto extra para alugar a estrangeiro, reduzindo a renda e permitindo-nos a sobrevivencia, e um outro sobrante que será dedicado a visitas, amigos, emigrantes, viajantes e demais almas (vinde, vinde!, mas trazei colchão, que não haverá dinheiro para feng shuis).
Pois é: nos entretantos e na espera, ocupo o meu dia de avental de chita num cafezinho simpático de Palermo (constato que que tenho muita saída e - ao contrário dos agoiros e maus presságios de muitos - jeitinho no dito sector de cafetaria e restauração, o que me faz repensar as minhas escolhas académicas e profissionais até-agora tomadas): sou a melhor amiga dos clientes, duplico um miserável salário em gorjetas (só esta semana já ganhei quase metade do mês em ditas) e, apesar de trabalhar nove cadelas horas com míseros 40 minutos pausados, gosto da esplanada e do brunchs e da pinta do lugar, de estar entretida na espera e na falta (dos papéis, do trabalho, da casa, da Casa).
A primavera vai-se transformando em infernal verão, com 35 pesados graus e noites acordadas às 6 da manhã com o cabelo a fazer calor nas orelhas. As esplanadas enchem-se e o maté começa a ser insuportável. São onze da noite, e estou derretida de calor, janela-aberta, pés-no-chão, ventoinha no máximo.
E por isso, meus caros, vou para a varanda - que está aberta - comer um bom-bife. Enquanto espero.
2 comentarios:
obg :)
Oh Cat, o que são 9 horas por dia em conversas, cafés e a conhecer gente nova - enquanto recebes em tempo real o guito -, quando passaste 3 anos e meio da tua vida EM plmj?! Enrijece, mulher! nem te reconheço!
Para quando o ingresso nas camadas já-não-tão-jovens-assim femininas do River Plate?!
Fico a aguardar, isso e um e-mail :)
Beijos aos dois, com saudades!
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