Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


domingo, 15 de diciembre de 2013

#7 Corre Sua sem Cansar

Tudo muito bonito, o tango, o gato, os programas de todos os dias, as miúdas que fazem variedades improvisadas aos domingos. Mas eu não vim cá só laurear a pevide.
E esse tem sido o lado mais grato.

O mestrado (para os mais desnaturados, em Direitos Humanos) é tudo o que eu queria. Tenho coleguinhas que trabalham nas prisões, nas villas (que são favelas e se dizem vichas), nos processos judiciais de crimes contra a humanidade, com histórias surpreendentes, feitios engraçados e espírito de combate. Tenho professores que adoro, cujo trabalho admiro profundamente. As viagens a La Plata quase não custam, e o cansaço entranhado no corpo dos fins-de-semana que não tenho (porque, para os mais desnaturados, tenho aulas sexta feira e sábado, ao bom jeito da pósgraduacao de Coimbra) sabe a uma satisfação que há muito tempo me faltava.

Com a pica de entrar neste mundo a pés juntos, larguei os aventais e candidatei-me a um estágio numa organização internacional de direitos humanos (descendo mais um degrau na escada dos poucos tostões), com escritório em Buenos Aires: o Cejil. Assim comecei a mexer, em papel, nos casos falados nas aulas e nos livros: os massacres aos sem-terra do Paraguay, as perseguições aos Mapuche do Chile, as torturas paramilitares da Colômbia, os desaparecidos das antigas ditaduras deste sangrado continente. Dei por mim, em trabalho, a ler declarações testemunhais de sobreviventes de actos inomináveis, a fazer pesquisas de jurisprudência sobre a imprescritibilidade de crimes de tortura e genocídio, a preparar alegações escritas sobre casos de perseguição penal de comunidades indígenas.

Percebo todos os dias que vim com razão, que é por aqui. Que há camisolas que visto por amor e que há corridas que se suam sem cansar.

(E que acabaram as horas cínicas, “direitos humanos? A menina é uma hippy”, sarcastico-azedo.
Não não. A menina trabalha, paga as contas, toma banho e lava o cabelo.
A menina até tem um sofá de esquina, cor de chocolate, sofisticadíssimo.
Mas sim, a menina agora trabalha vestida como quer e não trata ninguém por doutor. Tomatela. que é como quem diz “toma.”)

Acabo o primeiro round desta corrida cheia de pica, cheia de ganas. 
(do mundinteiro de portas abertas, o caminho que se vislumbra a partir daqui) 


2 comentarios:

Pedro Garcia dijo...

;)

Anónimo dijo...

a menina disse ...tomatela?
isso é mm o q me parece??

L.A