Tudo muito
bonito, o tango, o gato, os programas de todos os dias, as miúdas que fazem
variedades improvisadas aos domingos. Mas eu não vim cá só laurear a pevide.
E esse tem
sido o lado mais grato.
O mestrado (para os mais desnaturados, em Direitos Humanos)
é tudo o que eu queria. Tenho coleguinhas que trabalham nas prisões, nas villas (que são favelas e se dizem vichas), nos processos judiciais de
crimes contra a humanidade, com histórias surpreendentes, feitios engraçados e espírito de combate. Tenho professores que adoro, cujo trabalho admiro profundamente.
As viagens a La Plata
quase não custam, e o cansaço entranhado no corpo dos fins-de-semana que não
tenho (porque, para os mais desnaturados, tenho aulas sexta feira e sábado, ao
bom jeito da pósgraduacao de Coimbra) sabe a uma satisfação que há muito tempo
me faltava.
Com a pica de entrar neste mundo a pés juntos,
larguei os aventais e candidatei-me a um estágio numa organização internacional
de direitos humanos (descendo mais um degrau na escada dos poucos tostões), com
escritório em Buenos
Aires: o Cejil. Assim comecei a mexer, em papel, nos casos falados nas aulas e nos livros: os massacres aos sem-terra do Paraguay, as
perseguições aos Mapuche do Chile, as torturas paramilitares da Colômbia, os
desaparecidos das antigas ditaduras deste sangrado continente. Dei por mim, em
trabalho, a ler declarações testemunhais de sobreviventes de actos inomináveis,
a fazer pesquisas de jurisprudência sobre a imprescritibilidade de crimes de
tortura e genocídio, a preparar alegações escritas sobre casos de perseguição
penal de comunidades indígenas.
Percebo todos os dias que vim com razão, que é
por aqui. Que há camisolas que visto por amor e que há corridas que se suam sem
cansar.
(E que acabaram as horas cínicas, “direitos
humanos? A menina é uma hippy”, sarcastico-azedo.
Não não. A menina
trabalha, paga as contas, toma banho e lava o cabelo.
A menina até tem um sofá
de esquina, cor de chocolate, sofisticadíssimo.
Mas sim, a menina agora trabalha vestida como quer e não trata ninguém por
doutor. Tomatela. que é como quem diz
“toma.”)
Acabo o primeiro round desta corrida cheia de
pica, cheia de ganas.
(do mundinteiro de portas abertas, o caminho que se vislumbra a partir daqui)
2 comentarios:
;)
a menina disse ...tomatela?
isso é mm o q me parece??
L.A
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