Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


sábado, 21 de diciembre de 2013

#10 Voltar (enfim, Lisboa)

Finalmente, enfim Lisboa.

Há umas semanas, começou o burburinho. O mail pontual, quando é que vocês chegam?, a mensagem deixada offline, combinamos  jantar?, a resposta sem pressa nós também, boa! E depois aos poucos começaram as mensagens a ganhar ritmo picadinho, Passou tão rápido, quase nos vemos, tanto tempo, até que enfim! contagens decrescentes a ferver por toda a parte, umas arrancando antes que outras, mas todas parte desta euforia colectiva de regresso a casa, de dentro e de fora, a burbulhar por todo o lado. 
Contas decrescentes a ferver dos dias, das horas, das combinações efervescentes dos abraços que se querem e que se devem, e os facebooks, as caixas de email e os telemóveis, tudo em ácidos. Caímos na conta do tempo (há um ano que não nos juntamos à mesma mesa, há um ano que não nos abraçamos), e é como se as saudades geridas com mais ou menos paz durante todoano inteiro fossem agora agitadas e a ansiedade a gás entrasse em ebulição, Estás quase cáestou quase aí!

E é ver as partidas aos poucos da portugalidade pontos-de-luz dispersa de regresso a casa, pouco a pouco, em massa, desta multidão de almas soltas, de Londres, de Paris, de Nova Iorque, de Bogotá, de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Santiago do Chile, de Buenos Aires. Todos rumo a Casa, para as mesas postas à espera.

Cá em casa, qual vai ser a primeira coisa que vais fazer quando chegares? E comer? E tu? Eu cá café, curto, forte, bem tirado, eu quero uma garrafa de água do luso que a de cá sabe a esgoto, e um peixinho? E azeite galo, azeit'a sério? E uma imperial, cheia de pressão? E passear a pé e ter mar e ter rio e ter miradouros?e nos desfazíamos em listas de saudades sem ordem nem fim.

A Mariana foi na quinta. Esta madrugada parto eu, o Rodolfo vai no domingo, o Chico na segunda. Aos pedaços, lá vamos viajar no tempo, que a Mariana só chegou na sexta, e o Rodolfo chegará segunda, mas eu só aterro quase na terça e o Chico na quarta.
Fazemos parte de uma multidão de regressos, todos correndo com a pressa de chegar.

às esquinas e às calçadas,
aos cafés e aos costumes e aos miradouros
da minha Lisboa-quintal.
  
É que por mais que me ferva o Sul, a Viagem e Buenos Aires na vontade, é de Lisboa que sou, é só Lisboa que me nasce do peito e me cresce das vísceras e é sempre para Lisboa que volto, mesmo enquanto ainda não.
(Não existe forma de descrever esta comoção permanente de me saber pertencendo a este lugar. É como se me inchasse o peito de luz e de casa.)

O eterno lo más de Buenos Aires (ou qualquer outro lugar) é voltar. Sempre voltar.

Ps. para mim, é hoje. Daqui a 10 horas, madrugada adentro, começo a viagem. Estou quase aí!

1 comentario:

Unknown dijo...

Boa viagem, querida. Estou à tua espera.

(Sempre é bom ler os teus posts. Gosto demais).