Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


jueves, 4 de junio de 2015

Isto não é uma carta de despedida.



E era o adeus, que cheirava a sempre e amor e tempo e solidão.
Da Cidade contemplada Nos bosques de mate e horas Nos sapatos velhos do tango no coreto à noite (Ao lado do bairro chinês que cheira a amêndoa e soja frita) E nas noites de malbec entornado pelas ruas que se percorriam sem critério.

Do tempo que se comeu, remastigado em imagens que se querem pendurar às paredes
o calendário sentimental depois do corredor à esquerda
o gato malhado da Catedral
as cores do 59
e o Dante porteiro poeta que te pergunta se já chegaste
enquanto te abre a porta
chegando.
as tardes de preguiça movidas a mate amargo e as noites
de corpo puro e cachengue combustível com suor
(desse tempo sem horas nem norte nem nada
nas ruas geométricas matemáticas frenéticas
que correm e palpitam nas veias do pulso selvagem que
quieto
corre, corre, corre).

As feiras nunca perdem encanto
Nem os domingos
Nem as puteadas
Nem tu, Cidade
(que não cansas, apesar da fúria
ou por causa dela).

A velha coqueta com excesso de baton.
A baldosa solta sobre uma poça de água suja
(splash, ah mierda!).
O flaco que leva doze perros
E um caniche.
O kiosko e o bazar e o 152 a gemer nas curvas.
As marchas e as bandeiras e a mão no peito.
A garra, entrega, grito, canção, luta no sangue peito das praças
(que a gente não cansa nem se cansa,
apesar da fúria ou por causa dela).

Os cigarros enrolados à janela, a beber as horas sozinha,
E as garrafas abertas à janela, a empurrar as horas do riso e do peito dividido.

Buenos Aires (eu) ébria (frenética) furiosa
em modo não-me-acabo (nunca),
ritmo tambor bomba de sangue que bate bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, Força Bruta.
Argentina-amor.
Não te vou nem te deixo nem te parto
Vens-me tatuada a fogo e tempo no corpo
e jeito
e ser.

Mas vais ser agora também minha saudade-sempre
Minha ex-mulher
Meu encontro solidão.

(E era a partida, que se sabia ponte e não porta,
ou janela ou pulmão aberto.)

1 comentario:

Hombre-luz dijo...

Linda sos.