Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


miércoles, 28 de diciembre de 2016

Eu me Ri(o) de Janeiro

(a 2 años de la partida a Rio y a tanto más)

Há dois anos e sete cambalhotas, parti outra vez. Atirei até logo à minha Buenos Aires Locura Capital, mas não parti só dela: parti-me e me retomei do avesso. Rio de Janeiro agita a garrafa e volta a servir, em cores invertidas e remasterizadas.

Cabelo cortado queimado até à quase-raíz, para me nascer de novo. A água do Rio de Janeiro cai no pescoço e a cabeça que se agita mais leve como um cachorro de rua. Eu era menina do chão e flutuava.

Samba rafeiro, chinelo descomposto e queimado de alcatrão ao sol, dancei dancei. Sem par e sem fim, dancei com os travestis da Lapa e com a morena de Manaus que tinha o mesmo nome que eu. E entre os travestis e a morena, os hippies cínicos e os turistas sobrexcitados, e cachaça cachaça samba cachaça, Rio de Janeiro me agitou o corpo e o pulso latente. Como uma lata de sementes numa roda de samba, tsq-tsq-tsq-tsq.

Dinheiro contado -quantos almoços cabem numa mão de moedas?-, as horas sem plano, saboreadas de improviso e invento, e o tempo com alguma dor mergulhado em tédio e solidão gostosa com sabor a açaí de dois reais e a liberação. E a liberação de me saber sozinha e sem freio, e dancei dancei, e ri mais do que chorei.

Ah, eu me Rio de Janeiro. Entornei-me e fui expansão de mim.
E tudo mudou mas nada mudou. O mesmo pulso (tambor), com mais vísceras e menos folhos.






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