Primeiro era o Verbo, o Rodolfo e eu. Depois de
quase-dois meses no colchão do chão do Padi, assinámos contrato e mudámos os
tarecos para o 4427 de Santa Fe. A casa tinha três quartos, e pouco mais
existia.. O Verbo pedia paciência e construção (além de internet, loiça, lençois, camas, frigorífico e demais trivialidades).
Depois, rapidamente foi o Tempo e a mudança, as saídas e as entradas. A Casa mudou
sete vezes de personalidade em jeito mensual, e com ela os nossos próprios dias e estados de
coisas: foi-se-nos o Vasco e com
ele um pedaço de vida, as oportunidades laborais no mundo da restauração e as
dicas culturais da semana; entrou a Dani, e ganhamos critério Mendocino na
abertura dos vinhos, mas a casa ficou mais silenciosa (não porque a Dani fosse
especialmente sorrateira, mas porque o Vasco do coraçao-meu não o era – e, devo
acrescentar, não o era de forma brilhante). Com as portas
dos quartos agora fechadas, quis vida e movimento na casa, barulho-família-confusão, e à falta de melhor, veio a Sur (multibatizada de Suri, Suriname, por
2 semanas Maria de Buenos Aires, Bicho, Bichedo, Bicheza, Gata, Gatinha, Psst,
ou, mais solene e recentemente, Gatinha La Perra), que fez mudar os gestos – desde os
objetos que deixaram de poder ser esquecidos em cima da mesa (à hora de fecho
do dia de ontem, 4 auriculares de alta qualidade, três canetas e lápis vários e
um forro de casaco haviam perecido nas garras de Sur, a Impiedosa), à virilidade dos homens
da Casa, comprometida com tamanha fofura em formato bicho-bola –, e foi o fim da
Quietude (porque a Gata não é um gato, é uma chita adestrada na Cia, capaz de fazer mexer três coisas ao mesmo tempo sem sair do lugar).
Depois saiu o
Adam-Curitiba, Adam-Bartola, fechando assim o ciclo dos primogénitos da Casa,
dos turnos e biscates e dos amigos feitos de avental; e aos três dias, entrou a
Kristina, austríaca-personagem que aprendeu espanhol com o jeitinho de Santiago
del Estero (que é como quem diz que aprendeu português com xotaque dax bêirax)
e, com ela, as portas fechadas desde os tempos vascaínos voltaram a abrir e se encheu a sala de voz; a
Dani encontrou casa e saiu de Casa quase tão sorrateiramente como entrou (um
minuto de silencio pelo par de lençóis que perderam a vida no processo), e
recebemos finalmente o nosso Chico, amigo feito nos dias desenrascados nos nossos
sofás com a intimidade de quem sem se conhecer se reconhece.
É que além dos
residentes e das portas abertas, fechadas e voltadas a abrir, o feitio da Casa também
foi sendo definido pelas viagens de quem passou e nos dormiu o chão, pelos dias
de Tecto safados antes dos dias de Casa (de outras Casas) e pelas historias e
saudades trazidas de Portugal (e de outros cantos) pelas caras de costume – e o
Emilio, a Leonor e o João, a Círia e o Nuno, a Inês, o Diogo e o
Chico-convertido, a Mariana e a Irina, o Malacas, a Padinha, a Marta e o Henry fazem parte das paredes e não
deixaram uma marca mas deviam ter deixado, porque a Casa tem este feitio de
portaberta que se deixa encher e preencher.
Finalmente, a Kris regressa-nos a casa-austria e fechámos
a dança das cadeiras e dos quartos com a entrada da Mariana, uma jornalista
portuguesa que veio fazer um mestrado e me respondeu ao anuncio do quarto em
espanhol e sem saber que, afinal, partilhávamos a língua-pátria, a curiosidade pelas
coisas, uma amiga em comum, e o dia de anos (embora deva advertir que este
último é o que mais me surpreende).
E a nossa Casa é agora uma Casa portuguesa, com certeza: histórias sem traduçao, as saudades das mesmas coisas, e até já me foi prometido um bacalhau!
2 comentarios:
Quando dizes " A Casa mudou sete vezes de personalidade em jeito mensual, (...)" queres dizer menstrual? Espero que sim...
esqueci-me do 'tr'...
(isso e o espanhuel está a dar cabo da minha língua-mae....)
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