Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


viernes, 6 de septiembre de 2013

O Estado de Coisas: Da Casa

Primeiro era o Verbo, o Rodolfo e eu. Depois de quase-dois meses no colchão do chão do Padi, assinámos contrato e mudámos os tarecos para o 4427 de Santa Fe. A casa tinha três quartos, e pouco mais existia.. O Verbo pedia paciência e construção (além de internet, loiça, lençois, camas, frigorífico e demais trivialidades).
Veio o Vasco, (Vasquinesgotável, Vasco-vontade, Vascocheio), o Adam completou o quarteto e nasceu a Casa. A Casa familiar dos fins detarde atirados no sofá, das janelas abertas e de uma Buenos Aires por descobrir. 
Depois, rapidamente foi o Tempo e a mudança, as saídas e as entradas. A Casa mudou sete vezes de personalidade em jeito mensual, e com ela os nossos próprios dias e estados de coisas: foi-se-nos o Vasco e com ele um pedaço de vida, as oportunidades laborais no mundo da restauração e as dicas culturais da semana; entrou a Dani, e ganhamos critério Mendocino na abertura dos vinhos, mas a casa ficou mais silenciosa (não porque a Dani fosse especialmente sorrateira, mas porque o Vasco do coraçao-meu não o era – e, devo acrescentar, não o era de forma brilhante). Com as portas dos quartos agora fechadas, quis vida e movimento na casa, barulho-família-confusão, e à falta de melhor, veio a Sur (multibatizada de Suri, Suriname, por 2 semanas Maria de Buenos Aires, Bicho, Bichedo, Bicheza, Gata, Gatinha, Psst, ou, mais solene e recentemente, Gatinha La Perra), que fez mudar os gestos – desde os objetos que deixaram de poder ser esquecidos em cima da mesa (à hora de fecho do dia de ontem, 4 auriculares de alta qualidade, três canetas e lápis vários e um forro de casaco haviam perecido nas garras de Sur, a Impiedosa), à virilidade dos homens da Casa, comprometida com tamanha fofura em formato bicho-bola –, e foi o fim da Quietude (porque a Gata não é um gato, é uma chita adestrada na Cia, capaz de fazer mexer três coisas ao mesmo tempo sem sair do lugar).
Depois saiu o Adam-Curitiba, Adam-Bartola, fechando assim o ciclo dos primogénitos da Casa, dos turnos e biscates e dos amigos feitos de avental; e aos três dias, entrou a Kristina, austríaca-personagem que aprendeu espanhol com o jeitinho de Santiago del Estero (que é como quem diz que aprendeu português com xotaque dax bêirax) e, com ela, as portas fechadas desde os tempos vascaínos voltaram a abrir e se encheu a sala de voz; a Dani encontrou casa e saiu de Casa quase tão sorrateiramente como entrou (um minuto de silencio pelo par de lençóis que perderam a vida no processo), e recebemos finalmente o nosso Chico, amigo feito nos dias desenrascados nos nossos sofás com a intimidade de quem sem se conhecer se reconhece.
É que além dos residentes e das portas abertas, fechadas e voltadas a abrir, o feitio da Casa também foi sendo definido pelas viagens de quem passou e nos dormiu o chão, pelos dias de Tecto safados antes dos dias de Casa (de outras Casas) e pelas historias e saudades trazidas de Portugal (e de outros cantos) pelas caras de costume – e o Emilio, a Leonor e o João, a Círia e o Nuno, a Inês, o Diogo e o Chico-convertido, a Mariana e a Irina, o Malacas, a Padinha, a Marta e o Henry fazem parte das paredes e não deixaram uma marca mas deviam ter deixado, porque a Casa tem este feitio de portaberta que se deixa encher e preencher.

Finalmente, a Kris regressa-nos a casa-austria e fechámos a dança das cadeiras e dos quartos com a entrada da Mariana, uma jornalista portuguesa que veio fazer um mestrado e me respondeu ao anuncio do quarto em espanhol e sem saber que, afinal, partilhávamos a língua-pátria, a curiosidade pelas coisas, uma amiga em comum, e o dia de anos (embora deva advertir que este último é o que mais me surpreende).

E a nossa Casa é agora uma Casa portuguesa, com certeza: histórias sem traduçao, as saudades das mesmas coisas, e até já me foi prometido um bacalhau!

2 comentarios:

José Alegre dijo...

Quando dizes " A Casa mudou sete vezes de personalidade em jeito mensual, (...)" queres dizer menstrual? Espero que sim...

catarina dijo...

esqueci-me do 'tr'...
(isso e o espanhuel está a dar cabo da minha língua-mae....)