Às vezes pergunto-me se é de mim (esquizo-histerinesgotável em estado estimulado) ou da vida que me acontece (estimulo-frenética em modo não-me-acabo-nunca). Há um ritmo tambor bomba de sangue que bate-bate sem parar aqui dentro, um pulso bombo, um passo largo, passo besta, força bruta.

O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que nao foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aquí não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados para os repetir, e traçar caminos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Saramago. Viagem a Portugal.


miércoles, 11 de septiembre de 2013

Noites-fora, noitadentro (mapa da portugalidade não dispersa)

 E depois é o vinho, e perceber que se tem saudades de falar em português.

(escrever é difícil porque se vem perdendo o jeito ou o hábito de brincar com as palavras que já não se usam tanto porque se misturam com outras, calle, noche, pan, vos.)

Ontem foi noite-fora lá em casa. Soube-me a noites da Bica e a vida entornada em copos e cigarros e ataques perdidos de riso com as janelas abertas, não importam as horas que hoje é noite de quase-verão.
(e a gata quer saber o que há lá em baixo e eu contorço-me de vertigens porque vivemos num quarto andar e os gatos podem cair de pé mas cá pra mim têm no máximo três vidas e ainda é cedo para as desperdiçar).
Fomos os quatro da Casa e as nossas duas viajantes aterradas no sofá de sempre, que agora é colchão porque assumimos nossa natureza de perpétuos estalajadeiros. Somos os amigos dos amigos dos amigos que levam estas e outras almas-mochila mundo-fora e lhes vão servindo de poiso e pausa. 
Ver-lhes os mapas e os planos deixam-me inquieta, como sempre, a vontade dedilhada de eternamente ir e voltar, a euforia todaberta das partidas e os apaziguados regressos a casa, com a sensação de que não existe mais Lugar do que Lisboa.
As conversas são banais e boas – sabem ao café no quiosque e à jola do Bairro.
E depois sobem as bebedeiras e fumam-se demasiados cigarros porque a razão já se perdeu na conversa e naquelas horas destiladas de fumo e vinho e histórias sem filtro e pouco pudor. E sentimo-nos em Casa uns nos outros, sem nunca nos termos cruzado até há bem pouco.
(os soldados têm de dormir antes das batalhas, nao podem vir de barco directos senao
 chegam ressacados e com um jetlag hardcore) 
E no meio destas horas, uno piensa (bom, eu penso) nas noites-fora que estarão acontecendo, naquele momento, noutros sofás, outras casas longe de Casa, Rio, Londres, Paris, Bogotá; onde provavelmente também se safam sofás e tectos e se gargalham noites com pessoas de ontem que se tornam intimas sem processo porque sentimos falta das mesmas coisas e acabamos com o peito afinal mais aberto.
Partimos muitos. E partimos todos com passos diferentes, destinos baralhados e trilhos próprios: as viagens de quem se procura, as de quem se quer perder; as emigrações aventureiras, as necessitadas, as ambiciosas; o plano ao detalhe, o logovejo, o salto de fé; a ida sem volta, o vou-mas-volto e o já-volto; os cinco continentes, o mundo aqui à mão.
Partimos em todas as direcções e assentámos arraiais. Ou não. 
Mas cruzamo-nos. 
E conhecendo-nos de nome, de vista, de toda a vida ou de lado nenhum, inevitavelmente nos juntamos, em português e sem complicações. 
E é como imaginar um mapa com pontinhos de luz aqui e ali, Rio, Londres, Paris, Bogotá, as noites-fora dos portugueses que estão fora e que abrem portas (de dentro para fora, de fora para dentro) aos amigos dos amigos dos amigos. Como fogueirinhas de sinalização da portugalidade dispersa ou janelas como candeeiros de rua que vão marcando o passo.

1 comentario:

Anónimo dijo...

como no hay comentarios?
Se calhar não é so por ai que andam a beber e fumar demais..

LA em Al